segunda-feira, 13 de novembro de 2017

A remontada



                “Lá vai o esquisitão da letras!”, Fábio sabia que era com ele quando ouviu o grito ao passar pela área aberta de um dos prédios do campus. Continuou em frente, sem olhar ou diminuir o passo, deixando para trás as risadas masculinas de seis ou oito pessoas. Já estava acostumado. Fazia parte de sua rotina. Logo ali, onde pensou que as coisas seriam diferentes.
                Nos primeiros dias de curso, em uma festa de recepção – chamar de boas-vindas seria exagero – Fábio tomou uma atitude que se mostraria equivocada, ainda que não tivesse feito nada de errado. Com a timidez diluída em álcool, encontrou coragem para falar com uma das garotas que antes estava do lado de lá do bar. Fernanda sorriu, foi simpática e em nenhum momento demonstrou incômodo. Seu namorado, porém, reagiu de outra forma. Meio bêbado, Fábio foi surpreendido pelo empurrão que o derrubou, acompanhado por uma tempestade de xingamentos. Do chão, viu um borrão enorme ser contido por alguns amigos e a namorada, e logo depois foi tirado dali por duas garotas que reconheceu de sua sala e que tinham visto a coisa toda.
                O agressor era Rafael – alto, forte, grande, estudante do terceiro ano de física e o mais conhecido membro da Atlética no campus. A partir daquela festa, decidiu tornar um inferno a vida de Fábio na faculdade. O apelido favorito, “esquisito da letras”, surgiu na mesma semana entre os amigos de Rafael e as moscas que costumavam rodeá-los. Geralmente era ele, às vezes outro, que gritava “E vai o esquisito da Letras!” cada vez que viam Fábio.
                Entre outros nomes, era chamado de esquisito, mongol, espantalho, idiota e veadinho quase todos os dias. Por ter se sentido atraído por uma garota. Se passasse algum tempo no mesmo ambiente que os outros, sabia que ouviria comentários, ofensas e pseudo-ofensas até que fosse embora. E era frequente Fábio ter um livro arrancado de suas mãos com um encontrão disfarçado de acidente ou mesmo tapas diretos e propositais.
                Fernanda tentava controlar Rafael quando as coisas lhe pareciam começar a sair do controle, e um ou outro de seus amigos deixava transparecer certo constrangimento sempre que os ataques começavam. Nunca o bastante, porém, para levar alguém a agir, ou deixar de agir. A perspectiva de sair das graças de Rafael e ocupar o lugar de Fábio não agradava a ninguém.
                Nada daquilo era novidade para Fábio. Aos sete anos, era tão magro que as crianças maiores pareciam incapazes de deixá-lo em paz. Aos onze, sem saber que não podia, ousou gostar de coisas (artistas, novelas) que as meninas gostavam e logo virou o “bicha” da escola. Aos dezesseis, lia todos os livros das aulas de literatura e tentava escrever poesias, um alvo fácil para os mais alunos populares. Entre muitos outros casos. Nas quatro turmas diferentes de que fez parte entre a infância e a adolescência, resultado de mudanças de cidade e escolas, Fábio sempre foi humilhado, perseguido e ameaçado em maior ou menor medida. Quando passou no vestibular, sonhou com anos mais tranquilos, mais livres. Conheceria gente nova, sem dúvida mais madura, com outras preocupações. Não durou uma semana.
                “Por que você nunca faz nada?”, as amigas e amigos de Fábio, além de outras pessoas que conheciam a situação, perguntavam, principalmente Lorena e Daniela, as mesmas que o tinham ajudado no início do ano. “Ele não pode tratar as pessoas desse jeito sem motivo nenhum!” Fábio detestava o assunto e se esquivava sempre que podia. Quando dizia algo, explicava que não podia fazer nada, que era melhor tentar passar despercebido e não provocar uma reação maior. Em outros casos, deixava escapar pequenos desabafos ou comentários, fosse contando com algum nível de carma (“um dia a vida devolve isso”), isentando seu agressor de culpa (“vai saber o que ele passou pra ser assim”) ou até mesmo perdendo a paciência (“e se a gente falar um pouco dos seus problemas, em vez dos meus?”).
                “Você devia fazer isso com o babaca”, Lorena comentou quando assistiam a um filme argentino em que uma das personagens derrubava um cara com um soco. Fábio pensou um pouco antes de responder e deixar a amiga confusa: “eu até brigaria, se fosse em espanhol”. Não esperava que a oportunidade surgisse em tão pouco tempo.

No segundo semestre, um estudante de mestrado de Granada assumiu algumas aulas e ficou amigo de Fábio, Lorena e Daniela. Chamava-se Francisco, Paco, e quando chegou à república de uma das garotas numa sexta-feira com duas garrafas de vinho, virou Baco.
                Universitários sofisticados.
                Paco nunca presenciou as agressões a Fábio, mas soube da situação em uma conversa com Lorena. “É horrível”, comentou, “eu passei por algo parecido no colégio. Sou totalmente contra a violência, mas até hoje tenho vontade de voltar ao passado e fazer algo que não seja baixar a cabeça. Claro que naquela época eu não tinha forças para reagir, é desesperador. Se tem sorte, você não desconta em ninguém, mas também não é tão simples, e então por cima de tudo você tem que viver com a culpa.”
                Apesar da preocupação e da vontade de ajudar Fábio com o que pudesse, Paco não teve chance de tocar no assunto com o novo amigo. Além disso, os dias de Fábio lhe pareciam tão normais quanto poderiam ser. Era um cara divertido, que se soltava entre amigos e parecia não ser afetado pelo que lhe acontecia de ruim.
                Num sábado do começo de outubro, Fábio chegou com Lorena, Daniela e Paco à festa de uma das repúblicas próximas ao campus sabendo que a noite poderia terminar em dor de cabeça. Se não pelas garrafas de vinho bebidas antes da festa – cortesia de Paco Baco, que se mostrou muito bom de copo –, porque um dos amigos de Rafael, ainda que um dos que às vezes dirigia olhares constrangidos e envergonhados a Fábio durante o ano, havia visto Fábio e Fernanda almoçando juntos naquela tarde, em uma padaria de um bairro vizinho.
                Era algo que faziam desde o começo do ano. Fernanda procurou Fábio na semana após a primeira festa para se desculpar pela atitude do namorado. Conversaram um pouco e começaram a encontrar afinidades. A cada dez ou quinze dias, ou quando podiam, escapavam para algum lugar afastado da faculdade, onde gastavam as horas de almoço jogando conversa fora sem a sombra de Rafael, dos amigos de Rafael, de todos.
                Fernanda não abriria mão de namorar um dos garotos mais bonitos e populares da faculdade só porque ele era um idiota com os outros (quem nunca passou pano nos erros de alguém por estar apaixonado?), mas também não deixaria homem algum impedi-la de fazer qualquer coisa, mesmo que precisasse se esconder para evitar conflitos. Já Fábio, por ter crescido apanhando, e ainda tão próximo de sua adolescência, não tinha autoestima suficiente para se incomodar com uma amizade às escondidas. Mais que isso, sabia que assim evitavam problemas para ela e para ele também. O que não fazia era se diminuir a ponto de deixar as pessoas certas o tratarem da maneira errada, e quando Fernanda tentou se desculpar pela segunda vez por tudo o que acontecia, Fábio exigiu: “ou você para com isso ou eu vou achar que você tá aqui por pena, e aí é melhor a gente não se falar mais mesmo”. Ela não voltou a tocar no assunto, e as duas horas que passavam juntos se tornavam mais leves a cada encontro. Até serem descobertos.
                O grupo costumava chegar quase despercebido à maioria das festas, a não ser pela presença de Daniela, que raramente era ignorada. Dessa vez, além de Daniela, tinham Paco, e o gringo atraía olhares curiosos e cumprimentos de quem não fazia questão de interagir com eles.
                Tinham suas garrafas de vinho já pela metade quando ouviram Rafael chegar. Fernanda tentava contê-lo. Um de seus amigos também, mas com muito menos empenho.
                “Então esse veadinho tá saindo com a mina dos outros?”, gritava. Os olhos saltavam do rosto e uma veia cruzava sua testa, lembrando uma parede rachada, com menos estrutura do que aparentava ter.
                “Rafael, calm-“, Fernanda tentou interceder e foi empurrada pelo namorado. Daniela e Lorena, e ninguém mais, correram para ajudá-la.
                “Para, mano, que você vai acabar fazendo merda!” A voz e os braços de um dos amigos pareceram diminuir o descontrole físico de Rafael. Parado, ofegante, os olhos fixos em Fábio, ele ainda falava bastante alto. “Eu vou te matar, seu bosta.”
                Apesar de estar esperando por algo parecido desde aquela tarde, Fábio tinha sentido medo ao ouvir a voz de Rafael. Agora, porém, se tranquilizava. Conhecia o tipo, convivia com ele havia anos e sabia que quase ninguém levava adiante as ameaças mais claras e públicas. Bebeu mais um gole de vinho. Estava cansado daquilo tudo.
                Cerca de quinze pessoas viam a cena. Todas, menos Paco, entre seus dezoito e vinte anos, impressionadas e interessadas. O amigo de Rafael o afastava. Lorena e Daniela tiravam Fernanda do chão e Paco se servia de mais vinho quando ouviram a voz de Fábio.
                “Você falou com ela? O que ela te contou?”
                “O quê?!” A pergunta de Rafael era menos confusa do que uma reação raivosa à resposta de Fábio, tão corajosa quanto inesperada.
                “A gente sai junto direto. Desde o começo do ano. A gente conversa bastante, ficou amigo pra caralho.”
                Fábio não chegava a sorrir, mas estava quase lá.
                “Seu veadinho, mongol”, Rafael tentou interromper, mas Fábio não deixou, levantando a voz.
                “Aquele livro que ela tava lendo ontem, sabe? Eu que indiquei. Aliás, eu emprestei, o livro é meu. Eu indiquei várias músicas pra ela, filmes também. Cara, quantos filmes será que você não viu com ela que fui eu que indiquei?”
                Rafael avançou.
                Fábio desviou do soco, mas o encontrão o jogou contra a mesa. Quando recuperou o equilíbrio, tinha uma garrafa de vinho quase vazia na mão esquerda, a mão boa, que girou contra o rosto do agressor, derrubando-o. Sem perder tempo, acertou um chute no estômago de Rafael antes de se lançar sobre ele.
                Um dos amigos de Rafael tentou interferir, mas foi impedido por Paco, que também tinha uma garrafa nas mãos, por via das dúvidas. Todos os outros só assistiam.
                Fábio despejou o vinho no rosto de Rafael, que se debatia, com dificuldades para respirar. “Escuta aqui, desgraçado”, disse Fábio em voz baixa, tranquila, mas agressiva, um tom que surpreendia até a si mesmo. “Você vai me deixar em paz. Não vai mais falar comigo, não vai chegar perto de mim, não vai nem me olhar. Eu vou fingir que tudo o que você fez não aconteceu e você vai esquecer que eu existo, senão eu vou ter que dar um jeito. Entendeu?”
                Atordoado, Rafael tinha os olhos arregalados numa mistura de surpresa, pavor e ódio. Porém, sem forças para reagir, só assentiu.
                Fábio ficou de pé. Sua cabeça e seu estômago giravam. Largou a garrafa vazia no chão, pegou uma das cheias de vinho e foi para a rua, seguido por Paco, Lorena e Daniela.
                Quando chegou à calçada, vomitou ao pé de uma árvore, respirou fundo e convidou os amigos: “Vamos pro bar?” Foram.
                A três quarteirões dali, encontraram uma conhecida que ia para a festa, mas gostou da mudança de planos.
                “Você perdeu o bafo do ano, amiga!”, disse Lorena.
                “O que aconteceu?”
                Fábio pediu em espanhol: “Puedes decir a ella qué pasó, Baco?”
                Caminhou com Daniela alguns metros à frente dos outros três. Falavam pouco e podiam ouvir partes do relato do espanhol.
                “...le pegó um botellazo...”
                “...si era vino o sangre...”
                Fábio sorria.
                “Que foi?”, perguntou Daniela.
                “Tá ouvindo?”
                “Que que tem?”
                “...qué paliza, tía!”
                “Olha essa língua, que coisa maravilhosa. Eu vou ter que dar um jeito de ir pra Espanha. Arrumar uma bolsa, sei lá.”
                Nunca mais o chamaram de esquisito ou nada parecido na faculdade.
                Mas normal, normal, não era.


Tyler Bazz

segunda-feira, 3 de julho de 2017

Terminal



                Acordou e encontrou o espaço a seu lado na cama vazio. Ela já tinha se levantado, feito café, escolhido um dos livros novos sobre a cômoda e puxado uma cadeira da sala para o quarto. Tinham passado algumas noites juntos nas três semanas em que se conheciam, mas ela nunca tinha saído da cama sem ele, explorado o apartamento, feito café. Era sábado e ela se sentiu à vontade em sua casa. Aquilo não o incomodou.
                Ela levou uma xícara de café para ele. Colocou-a sobre o criado-mudo e pegou um dos livros da pequena pilha que havia ali.
                “Eu adorei esse livro. Você gostou?”
                “Eu parei antes da metade. Não curti.”
                Foi numa livraria que se conheceram. Conversaram entre cafés e estenderam aquele fim de tarde o máximo que puderam. Quando ele foi embora, depois de marcarem uma saída juntos na noite seguinte, ela comprou uma cópia do livro que ele estava levando. Parecia ser bom – e era! Ela leu em três dias e se apaixonou.
                “Acho que você devia dar outra chance pra ele.”
                “Eu também acho. Daqui uns dias, talvez.”
                Não era muito de dar segundas chances para livros dos quais desistia, principalmente tão cedo, mas não teve dificuldades para se convencer. Beijou-a na perna, terminou a xícara e foi até a cozinha buscar mais.
                Na sala, o telefone tocou. Voltou para o quarto minutos depois.
                “Aconteceu alguma coisa?”, ela perguntou ao ver seu rosto um pouco assustado, quase em choque, e triste.
                “O seu Antônio morreu.”
                “Quem?”
                “O seu Antônio da estação. Acho que não te contei a história.”
                “Não.”
                Ele começou a contar a história, mais ou menos assim:
                “Eu cresci numa cidade de quarenta, cinquenta mil habitantes. Saí de lá pra fazer faculdade aqui. Quando eu tinha uns dez anos, inventaram de construir uma nova estação de trem. Seria mais moderna, mais segura, boa para a cidade. Disseram que ia aumentar o turismo. Pra ver o quê, eu até hoje não sei.
                “A construção foi bem rápida, que eu me lembre. Fizeram a estação em um bairro novo da cidade, que foi crescendo junto com a obra. Abriram lojas, lanchonetes, alguns mercados, um hotelzinho, e muita gente resolveu morar por lá. Um pouco mais de dois anos depois do anúncio da obra, a nova estação tinha data de entrega e inauguração marcada. E quando esse dia chegou, o seu Antônio arrumou uma mala pequena e foi pra lá. Queria viajar no primeiro trem da estação nova.
                “Só faltava um detalhe. Os trilhos.”
                “Mentira!”
                “Sério. Precisavam construir os trilhos da entrada da cidade até a nova estação, e da nova estação até a saída da cidade. A prefeitura não tinha dinheiro. O governador do Estado ignorou os pedidos do prefeito, mesmo eles sendo do mesmo partido. E a empresa que cuidava da ferrovia disse que não estava nem sabendo de uma nova estação. Hoje eu sei que a estação deve ter sido esquema do prefeito pra desviar o que existia e o que não existia. Antigamente, precisava fazer umas obras grandes pra desviar dinheiro, roubar merenda de criança ainda não era algo aceito por tanta gente.
                “Enfim. Todo mundo já sabia que não ia ter inauguração nenhuma. A história tinha virado piada na cidade toda. Só o seu Antônio foi pra lá.”
                “Mas por quê?”
                “Deve ter ficado louco, dado alguma coisa na cabeça, não sei. Ele passou a noite na estação, dormindo num banco da plataforma, e no dia seguinte a mesma coisa. Ficou esperando. Avisaram a família e a polícia, que foram até lá, mas ele só dizia que não podia sair dali porque estava esperando o trem.
                “Ele tinha uns cinquenta anos e trabalhou na obra da estação com pequenos serviços. Também ajudou a construir quase todas as lojas que surgiram nas ruas do bairro. A dona Célia, esposa dele, dizia que ele acreditava que a nova estação seria boa para os negócios da cidade, que iria gerar dinheiro, que ele falava com brilho nos olhos do quanto a ferrovia tinha sido importante para a cidade onde cresceu, e que não tinha percebido nada de errado com o seu Antônio até o prédio ficar pronto e ele continuar ansioso para a inauguração que todo mundo sabia que não aconteceria. No dia marcado, ele arrumou a mala e foi para a estação.
                “E por lá ele ficou. Nunca saiu do prédio, nem mesmo quando a dona Célia morreu depois de uns anos. Dizem que ele não reconheceu o nome quando deram a notícia, mas pareceu ficar triste. Quando perguntaram se ele iria ao velório e o enterro, ele respondeu ‘É uma pena, mas eu preciso ficar aqui. Estou esperando um trem.’ Depois disso, o único filho do seu Antônio foi embora da cidade, acho que pra não voltar mais. Imagina a cabeça desse cara...”
                “Ninguém cuidava dele? Do seu Antônio?”
                “O pessoal do bairro e da cidade sempre levava comida pra ele, cobertor no frio, essas coisas. Era meio que parte da cidade, uma instituição. A estação abandonada e o seu Antônio.
                “Acabou virando um ótimo lugar pra brincar. De manhã, a estação vivia cheia de crianças correndo pra cima e pra baixo, enquanto o seu Antônio só falava pra gente tomar cuidado na plataforma. No fim da tarde, uma molecada mais velha ia lá pra fumar e beber escondido, o ele dizia que era errado e não fazia bem, mas sempre pedia um cigarrinho e vira-e-mexe aceitava uma dose de vodca. Não sei quantas vezes eu levantei meu copo pra ele e disse ‘Saúde, seu Antônio!’
                “Eu perdi bastante contato quando fui crescendo e nem lembrava dele direito depois que mudei pra cá. Perguntei dele pra minha mãe no último Natal e ela disse que estava na mesma. Ainda lá, esperando o trem. E ontem ele morreu. Foram levar algo pra ele almoçar e ele estava no banco da plataforma, sentado do lado da mala.”
                Ela havia ouvido a história quase em silêncio e tinha lágrimas nos olhos.
                “Que parada triste,” disse.
                “É mesmo,” disse ele. “A gente vai almoçar?”
                “Parece história de livro.”
                “Sério?”, ele perguntou.
                “Eu achei bem metafórica. Ele sabia o que queria, acreditava que aquilo seria bom pra ele e não se contentou com outra coisa. Ele fez o que podia, e quando não dependia dele, ele esperou. É bem triste, ainda mais porque é verdade, mas é muito bonito. Tem todo um significado.”
                “Nunca tinha pensado nisso.”
                “É que você faz parte da história. É normal.”
                Ele entrou no banheiro para escovar os dentes e fechou a porta.
                “Falei com as meninas aqui,” disse ela, terminando de se vestir, “elas querem comer feijoada e chamaram. Aí você aproveita e conhece elas. Vamos?”
                Ele saiu do banheiro já vestido e com o olhar distante, e triste, parecido com o que tinha ao desligar o telefone mais cedo.
                “Acho melhor você ir.”


Tyler Bazz

segunda-feira, 8 de maio de 2017

Processo de composição



                Mateus conferiu mais uma vez a afinação da guitarra e olhou a seu redor, gesto que repetia com frequência quase obsessivo-compulsiva na última hora. A cada poucos minutos, às vezes segundos, corria os olhos pelo ambiente, reparando a presença de pessoas esperadas e inesperadas, e principalmente a ausência das que ainda não tinham chegado, algumas das quais não chegariam. Suas mãos transpiravam e seu corpo parecia vacilar, reações que já conhecia. Esses efeitos da ansiedade desapareciam assim que respirava fundo antes da primeira música.
                Abriu uma segunda cerveja, embora preferisse evitar beber antes de subir ao palco. Gostava da experiência mais pura, dizia, de poder ler o público sem filtros. Sentia-se mais nervoso do que achava normal. Sempre se sentia mais nervoso do que achava normal. Verificou a configuração dos pedais. Cada rosto familiar que encontrava – alguns amigos, cerca de três dezenas de conhecidos e até duas ex-namoradas – aumentava sua ansiedade.
                Conferiu mais uma vez a afinação da guitarra, a configuração dos pedais, a conexão dos cabos. Mexeu nos cabelos, respirou fundo e o nervosismo desapareceu. Era hora. Os outros dois terços da banda juntaram-se a ele. Começaram.
                As luzes do palco nunca lhe agradaram, e nunca esteve à vontade com toda a atenção de uma apresentação ao vivo. Nesta noite, porém, tocou com a cabeça ainda mais baixa do que de costume, dois passos mais próximo da bateria, como se a qualquer momento fosse saltar e se esconder atrás dela. Os olhares o perseguiam, tinha certeza, e apesar de ver que cabeças e corpos se deixavam levar pela música, estava convencido de que todos na plateia tinham incontáveis motivos para não gostar dele – inclusive o punhado de amigos, os quase cinquenta conhecidos e as agora três ex-namoradas.
                Tentou se lembrar de quando havia escrito as melodias que agora tocava. Não fazia tanto, mas elas lhe soavam como outro idioma, incapazes de dizer algo a qualquer uma daquelas pessoas que as ouviam. Era como se ele saísse do palco e passasse a falar esloveno em um bar no centro de São Paulo. Sentiu o distanciamento, seu peso, e sentiu falta de falar a mesma língua de quem o rodeava. Quando terminaram, esforçou um sorriso, acenou e demorou o quanto pôde para guardar seu equipamento, a ponto de irritar o artista que tocaria em seguida. Saiu escondido pelos fundos, escapando de qualquer olhar de aprovação, abraço ou elogio que não saberia dizer se era ou não sincero.
                Comprou um maço de cigarros e duas garrafas de vinho. Foi direto para casa. Tinha tanto a dizer àquelas pessoas, tanto às presentes quanto às ausentes. Precisava agradecer, cobrar, tirar pesos das costas, questionar e muito mais. Queria voltar a falar com cada uma delas, individualmente ou não, em sua própria língua. Sentou-se no colchão em que dormia na sala, caderno e lápis em mãos, conferiu a afinação do violão. Estava decidido e entusiasmado como há tempos não ficava. Escreveria um disco de cartas para as pessoas de sua vida, conseguiria de fato falar com cada uma delas. Um gênero diferente do seu, cara nova, tudo, e algo que todas elas entenderiam.
                Fumava na janela, alternando a vista entre o céu nublado e os prédios de janelas estreladas que formavam o horizonte. O vinho descia macio, deixando as canções mais claras, simples e prontas em sua cabeça. Ouviu Tom Waits para se inspirar, ouviu Leonard Cohen. Vai ficar tudo bem porque eu vou conseguir dizer tudo, pensou, e então a distância vai diminuir e ninguém vai ficar sozinho, e todo mundo vai se entender melhor. Levou o caderno à janela, até mesmo a luz dos apartamentos próximos ajudava. Acendeu mais um cigarro, serviu-se de mais vinho, chegou a se comover quando a lua apareceu entre as nuvens.
                Os cigarros acabaram, o vinho subiu e a adrenalina baixou. Dormiu ao lado do violão desafinado, o caderno em branco. Mateus não escreveu nenhuma canção.

Tyler Bazz

quinta-feira, 2 de março de 2017

Cinco histórias de seis palavras (sobre os sentidos)


Audição: a Filarmônica não lhe emocionava.

     * * *

Olfato: nariz em pé, perfume falsificado.

     * * *

Paladar: sem sal, mesmo assim, cardíaco.

     * * *

Tato: pretenso Midas, Medusa do toque.

     * * *

Visão: míope, daltônico e ainda conservador.



Tyler Bazz

quarta-feira, 18 de janeiro de 2017

A última parada



As batidas na porta de casa aumentavam em frequência e intensidade, como os raios e trovões distantes que eu observava pela janela. Em cidades muito grandes – e poucas são maiores que a minha –, sempre fico imaginando onde é a chuva quando começo a ver relâmpagos. Em um bairro pode cair o mundo, enquanto em outro está nublado e num terceiro pode até fazer sol.

Três dias antes, eu estava em uma cidade tão pequena que qualquer chuva banharia seus quatro cantos ao mesmo tempo. Cheguei à hospedaria, que se anunciava como hotel e deve ser o menor que já vi, um sobrado com três suítes no andar de cima, a sala no andar de baixo funcionando como recepção e a cozinha indisponível para hóspedes. Ocupei o maior dos dois quartos com vista para a rua, não havia outro cliente. O cômodo tinha um banheiro simples e limpo, um armário pequeno – que abri com cuidado redobrado ao guardar a mochila – uma cama de casal e uma escrivaninha com cadeira em estilo antigo, onde passei um par de horas concentrado, traçando possíveis planos a lápis em papel de rascunho. Era isso que tinha feito durante boa parte do meu tempo acordado nesses últimos dias. Eu precisava me distrair.

Rasguei os papéis de rascunho, queimei com um isqueiro e joguei as cinzas pela descarga. O dia ainda estava claro, embora o relógio já indicasse noite, e saí em busca de uma cerveja. Andei até uma ponta da cidade e não achei nenhum tipo de comércio aberto, bar, nada, e com a perspectiva de não encontrar uma cerveja que fosse, comecei a ser tomado por uma preocupação que poderia ser vista como desproporcional, considerando minha situação.

A preocupação, porém, só aumentou meu alívio quando vi, já perto do canto oposto da cidade, um bar pequeno, com decoração que tentava se passar por moderna e mesinhas redondas na calçada. Fazia parte do segundo e maior hotel dali – este, numa casa de três andares! Me sentei do lado de fora, pedi um chope para a senhora simpática que cuidava tanto do bar quanto da recepção do hotel e tentei relaxar enquanto o sol se aproximava lentamente do horizonte.

O relaxamento durou pouco. Na metade da bebida, um táxi virou a esquina e veio em minha direção. Desloquei um pouco o corpo para fora da mesa e segurei firme o copo de vidro, por via das dúvidas. Também durou pouco minha tensão. Uma garota que não devia ter muito mais que vinte anos desceu do carro. Usava uma camiseta que dizia “Really good at bad decisions” e, enquanto entrava no hotel, me olhou como se estivesse pronta para tomar mais uma.

Eu poderia dizer que não me lembrava da última vez que tinha visto uma mulher tão linda, mas seria apenas força de expressão. Eu sabia cada detalhe, quando, onde, quem. Quando você perde tudo, fica difícil se esquecer das últimas vezes.

Pouco tempo depois ela saiu do hotel e parou na calçada por alguns segundos, observando a queda tardia da noite, antes de ir até a mesa onde eu estava e oferecer companhia. Aceitei e estava pronto para perguntar o que beberíamos quando a dona do hotel nos trouxe duas taças de vinho, que ela já havia pedido. De todos os planos que eu andava traçando em papel de rascunho, nenhum deles envolvia me apaixonar por alguém, nem mesmo me deixar encantar, mas ela já começava dificultando muito as coisas.

“E o que te traz aqui?”, perguntei, depois de nos apresentarmos.

Ela respirou fundo e bebeu um gole antes de responder: “Eu estive aqui por uns dias, três anos atrás. Aí quando as coisas não estão muito boas, ou sempre que eu posso, eu volto pra tentar viver um pouco daquela felicidade. Eu tenho lembranças muito boas daqui.”

Era mentira, eu sabia. Já tinha usado uma versão muito parecida da história em vários hotéis, hostels e cafés pelo mundo. É o tipo de coisa que você diz quando quer pegar alguém – porque se você convence a pessoa de que um lugar é especial para você, cheio de memórias felizes, e então convida essa pessoa para fazer parte da sua vida, do seu dia ou da sua noite, misturando-se com todas as boas lembranças do lugar, não costumam resistir. Aquele era o tipo de mentira que me deixava feliz.

“E você?”, ela perguntou.

“Exatamente a mesma coisa!”, respondi, com os olhos arregalados.

Ela riu e eu fiquei feliz outra vez.

“Meu carro quebrou aqui perto”, menti. “Tem conserto, mas só amanhã.”

“Que saco, hein?”

“Achei que seria pior.”

A cidadezinha ficava belíssima com as luzes acesas à noite. Havia dias que eu não ficava tão tranquilo, apesar da apreensão que percorria meu corpo cada vez que alguém passava pela rua, ou quando a outra mesa da calçada foi ocupada por três pessoas que demoraram a me convencer de que eram inofensivas. Com o tempo, relaxei de verdade. O vinho ajudou, a conversa e minha companhia também, e algumas taças e várias mentiras depois, subimos para o quarto dela.

Horas depois, eu me vestia e ela fumava um cigarro nua na cama, soltando a fumaça pela janela aberta, por onde entrava uma brisa com cheiro de chuva.

“Tyler...”, ela disse.

Se você está sozinho com uma pessoa e ela usa seu nome antes de dizer algo, em vez de simplesmente dizer, sempre é importante. Por isso nós temos essa sensação estranha quando nos chamam pelo nome. No meu caso, porém, a sensação foi bem pior que estranha. Quando ouvi meu nome verdadeiro, e não o que tinha dito a ela, minhas pernas perderam a firmeza, o suor ficou gelado sobre minha pele e eu me senti muito, muito mal. Tinha certeza de que as notícias não seriam nada boas. Eu queria mais vinho, precisava, até, mas não beberia se tivesse algum no quarto. Respirei fundo e estendi a mão pedindo um cigarro, não fazia mais sentido tentar parar.

“Já sabem?”, perguntei.

“Estão vindo atrás de você, e a ordem é não te deixar vivo.”

“E você?”

“Eu fiz uma puta cagada.”

Cruzei a pequena cidade com atenção triplicada e máximo cuidado ao dobrar cada esquina e passar por cada árvore, poste ou lugar escuro. Entrei no hotel pelos fundos, sem ser percebido por ninguém, e arrumei minhas coisas o mais rápido que pude. Fechei a janela e passei o que restava da noite sentado na cadeira, sem tirar os olhos da porta.

Antes de amanhecer, embarcava no primeiro ônibus. Ainda pegaria mais um para chegar a um dos últimos lugares onde me procurariam, acreditava eu. Minha cidade grande, enorme, com seus vários climas ao mesmo tempo.

Se era para ficar em perigo, eu ficaria em casa.


Tyler Bazz