quinta-feira, 16 de agosto de 2018

Check-in


                Minha última lembrança era abrir mais uma garrafa de vinho, cerca de duas da manhã. Agora, tinha acordado fazia pouco menos de uma hora, num canto afastado de uma das áreas de espera do aeroporto, sem a menor ideia de como tinha ido parar lá e com um peso cinza estranho nos ombros. Observava os destinos e horários girando no painel de embarque quando ouvi sua voz: “Ei!” Reconheci no mesmo segundo. Ela já vinha na minha direção, sorrindo e desviando das malas e carrinhos de bagagem, e minha reação mais sincera e até inevitável – e eu não tentei evitar – também foi sorrir, apesar de saber que na situação contrária eu fingiria não tê-la visto e sumiria dali.
                “Você veio mesmo!”, ela disse, antes de me dar um abraço tímido.
                Eu tinha ido, não desmenti.
               Pouco depois estávamos em uma cafeteria. Ela com pães de queijo, um croissant, um cookie e um chá de ervas, eu só com a garrafa de água que tinha comprado antes, tentando diminuir a dor de cabeça e tirar o gosto de ressaca da boca.
                “Indo pra onde?”, perguntei assim que a garçonete se afastou com a bandeja vazia.
                Ela respondeu como se fosse óbvio. Eu conhecia o lugar e morria de vontade de visitar outra vez, mas não tive tempo para pensar nisso, entendendo tudo cada vez menos e também achando um pouco rude ela não ter perguntado para onde eu, que também estava no aeroporto, ia.
                “Uau!”, meu entusiasmo não era fingido, apesar da falta de foco. “Vai comer bem lá, hein?”
                “Nossa, sim. Mas minhas roupas precisam servir um bom tempo ainda, que essa coisa de trocar de país custa um dinheiro meio sem noção, então não muito.”
                “Boa sorte”, respondi com um princípio de riso. Bebi mais um gole de água enquanto ela comia o croissant e a encarei, sem saber o que dizer. Ela teria que se virar com os nossos silêncios.
                “A gente não precisa ter nenhuma conversa séria”, ela disse, se interrompendo com um gole de chá. “Só me conta o que você tem feito, como anda a vida, sei lá.”
                “Não mudou muita coisa”, dei de ombros. “Eu só trabalho bastante e me distraio um pouco.”
                “Já é algo. E o que mais?”
                “Nada de útil. Aprendi a falar francês.”
                “Isso não é inútil! Tudo bem que vai ser quando você for me visitar, mas não é inútil, não.”
                “Eu vou te visitar?”, por um momento, tive medo por talvez ter esquecido passagem e passaporte, o que não fazia nenhum sentido.
                “Para de ser besta. Me fala algo em francês.”
                “Nem fodendo.”
                “É, valia a pena tentar. Mas aprendeu por quê? Tá pensando em ir pra lá?”
                “Não, só aprendi mesmo. Sem planos.”
                “Não é possível que você continue sendo assim.”
                “Assim como?”, aceitei um pedaço de pão de queijo que ela oferecia. Estava quase péssimo.
                “Não planejando, só fazendo as coisas sem pensar em nada além da próxima sexta-feira.”
                “Não é desse jeito, também.”
                “Não!? Então você não vai vivendo a vida sem nenhum plano, sem objetivo nenhum, sem ter uma mínima perspectiva de futuro que seja?”
                “Agora você tá só tentando me deprimir e me jogar no buraco.”
                “Chumbo trocado com atraso também não dói.”
                Ela sorriu mais que eu. Seria o momento para um pedido de desculpas, eu sabia, mas não disse nada. Eram anos demais de atraso, e no final das contas a gente estava ali, seria estranho dar um passo atrás. Desnecessário. Mas é óbvio que eu pensaria assim.
                Nossa conversa durou um pouco mais que o chá. Ela insistia em querer saber de mim, ignorando que era ela quem estava a ponto de trocar de continente e tinha coisas realmente interessantes para contar. “Não mudou nada nessas horas”, me disse. “Só que agora parece que ficou tudo mais no lugar.” Que horas? Que lugar? Por que ela parecia saber que não estávamos ali por acaso enquanto eu começava a me perguntar se teria morrido e ido para algum tipo de purgatório? Socorro.
                Na entrada da área de segurança, ela me apertou num abraço e me deu dois beijos no mesmo lado do rosto. “Eu adorei que você veio. Me deixou muito mais leve. Vai pra lá me ver, não demora.” Etc. E nos despedimos.
                Se ela ficou mais leve, o peso nas minhas costas era enorme. Eu não sabia como estava no aeroporto, por que tinha me encontrado com ela depois de tantos anos, por que ela falava de visitas como se fosse algo natural e esperado. E também não entendia como, no meio daquela confusão toda, um risquinho de sol conseguiu cruzar a nuvem pesada que andava comigo.
                Vaguei um pouco pelo aeroporto, sem dar muita atenção às despedidas, corridas para o check-in ou avisos de atraso e embarque imediato. Comprei um livro e um chiclete e já estava na fila dos táxis quando me lembrei do trem. Não era perto, mas eu tinha tempo de sobra.
                Já no vagão, em direção ao centro da cidade, o celular vibrou. Era uma mensagem dela, com beijos e um aviso de que já decolava. Foi quando descobri algo que explicou tantas coisas quanto confundiu ainda mais minha cabeça. Tínhamos nos falado por quase uma hora, às quatro da manhã. Ligação dela, menos mal.
                Abri o livro, que em tese era fácil de ler, mas não conseguia me concentrar em duas frases. Não tinha nenhuma lembrança de chegar ao aeroporto, de sair de casa, de falar com ela. Na minha cabeça, fui direto do som da rolha na sacada para a área de embarque. Eu precisava de ajuda.
                E cacete, eu precisava de um café.

Tyler Bazz

segunda-feira, 13 de novembro de 2017

A remontada



                “Lá vai o esquisitão da letras!”, Fábio sabia que era com ele quando ouviu o grito ao passar pela área aberta de um dos prédios do campus. Continuou em frente, sem olhar ou diminuir o passo, deixando para trás as risadas masculinas de seis ou oito pessoas. Já estava acostumado. Fazia parte de sua rotina. Logo ali, onde pensou que as coisas seriam diferentes.
                Nos primeiros dias de curso, em uma festa de recepção – chamar de boas-vindas seria exagero – Fábio tomou uma atitude que se mostraria equivocada, ainda que não tivesse feito nada de errado. Com a timidez diluída em álcool, encontrou coragem para falar com uma das garotas que antes estava do lado de lá do bar. Fernanda sorriu, foi simpática e em nenhum momento demonstrou incômodo. Seu namorado, porém, reagiu de outra forma. Meio bêbado, Fábio foi surpreendido pelo empurrão que o derrubou, acompanhado por uma tempestade de xingamentos. Do chão, viu um borrão enorme ser contido por alguns amigos e a namorada, e logo depois foi tirado dali por duas garotas que reconheceu de sua sala e que tinham visto a coisa toda.
                O agressor era Rafael – alto, forte, grande, estudante do terceiro ano de física e o mais conhecido membro da Atlética no campus. A partir daquela festa, decidiu tornar um inferno a vida de Fábio na faculdade. O apelido favorito, “esquisito da letras”, surgiu na mesma semana entre os amigos de Rafael e as moscas que costumavam rodeá-los. Geralmente era ele, às vezes outro, que gritava “E vai o esquisito da Letras!” cada vez que viam Fábio.
                Entre outros nomes, era chamado de esquisito, mongol, espantalho, idiota e veadinho quase todos os dias. Por ter se sentido atraído por uma garota. Se passasse algum tempo no mesmo ambiente que os outros, sabia que ouviria comentários, ofensas e pseudo-ofensas até que fosse embora. E era frequente Fábio ter um livro arrancado de suas mãos com um encontrão disfarçado de acidente ou mesmo tapas diretos e propositais.
                Fernanda tentava controlar Rafael quando as coisas lhe pareciam começar a sair do controle, e um ou outro de seus amigos deixava transparecer certo constrangimento sempre que os ataques começavam. Nunca o bastante, porém, para levar alguém a agir, ou deixar de agir. A perspectiva de sair das graças de Rafael e ocupar o lugar de Fábio não agradava a ninguém.
                Nada daquilo era novidade para Fábio. Aos sete anos, era tão magro que as crianças maiores pareciam incapazes de deixá-lo em paz. Aos onze, sem saber que não podia, ousou gostar de coisas (artistas, novelas) que as meninas gostavam e logo virou o “bicha” da escola. Aos dezesseis, lia todos os livros das aulas de literatura e tentava escrever poesias, um alvo fácil para os mais alunos populares. Entre muitos outros casos. Nas quatro turmas diferentes de que fez parte entre a infância e a adolescência, resultado de mudanças de cidade e escolas, Fábio sempre foi humilhado, perseguido e ameaçado em maior ou menor medida. Quando passou no vestibular, sonhou com anos mais tranquilos, mais livres. Conheceria gente nova, sem dúvida mais madura, com outras preocupações. Não durou uma semana.
                “Por que você nunca faz nada?”, as amigas e amigos de Fábio, além de outras pessoas que conheciam a situação, perguntavam, principalmente Lorena e Daniela, as mesmas que o tinham ajudado no início do ano. “Ele não pode tratar as pessoas desse jeito sem motivo nenhum!” Fábio detestava o assunto e se esquivava sempre que podia. Quando dizia algo, explicava que não podia fazer nada, que era melhor tentar passar despercebido e não provocar uma reação maior. Em outros casos, deixava escapar pequenos desabafos ou comentários, fosse contando com algum nível de carma (“um dia a vida devolve isso”), isentando seu agressor de culpa (“vai saber o que ele passou pra ser assim”) ou até mesmo perdendo a paciência (“e se a gente falar um pouco dos seus problemas, em vez dos meus?”).
                “Você devia fazer isso com o babaca”, Lorena comentou quando assistiam a um filme argentino em que uma das personagens derrubava um cara com um soco. Fábio pensou um pouco antes de responder e deixar a amiga confusa: “eu até brigaria, se fosse em espanhol”. Não esperava que a oportunidade surgisse em tão pouco tempo.

No segundo semestre, um estudante de mestrado de Granada assumiu algumas aulas e ficou amigo de Fábio, Lorena e Daniela. Chamava-se Francisco, Paco, e quando chegou à república de uma das garotas numa sexta-feira com duas garrafas de vinho, virou Baco.
                Universitários sofisticados.
                Paco nunca presenciou as agressões a Fábio, mas soube da situação em uma conversa com Lorena. “É horrível”, comentou, “eu passei por algo parecido no colégio. Sou totalmente contra a violência, mas até hoje tenho vontade de voltar ao passado e fazer algo que não seja baixar a cabeça. Claro que naquela época eu não tinha forças para reagir, é desesperador. Se tem sorte, você não desconta em ninguém, mas também não é tão simples, e então por cima de tudo você tem que viver com a culpa.”
                Apesar da preocupação e da vontade de ajudar Fábio com o que pudesse, Paco não teve chance de tocar no assunto com o novo amigo. Além disso, os dias de Fábio lhe pareciam tão normais quanto poderiam ser. Era um cara divertido, que se soltava entre amigos e parecia não ser afetado pelo que lhe acontecia de ruim.
                Num sábado do começo de outubro, Fábio chegou com Lorena, Daniela e Paco à festa de uma das repúblicas próximas ao campus sabendo que a noite poderia terminar em dor de cabeça. Se não pelas garrafas de vinho bebidas antes da festa – cortesia de Paco Baco, que se mostrou muito bom de copo –, porque um dos amigos de Rafael, ainda que um dos que às vezes dirigia olhares constrangidos e envergonhados a Fábio durante o ano, havia visto Fábio e Fernanda almoçando juntos naquela tarde, em uma padaria de um bairro vizinho.
                Era algo que faziam desde o começo do ano. Fernanda procurou Fábio na semana após a primeira festa para se desculpar pela atitude do namorado. Conversaram um pouco e começaram a encontrar afinidades. A cada dez ou quinze dias, ou quando podiam, escapavam para algum lugar afastado da faculdade, onde gastavam as horas de almoço jogando conversa fora sem a sombra de Rafael, dos amigos de Rafael, de todos.
                Fernanda não abriria mão de namorar um dos garotos mais bonitos e populares da faculdade só porque ele era um idiota com os outros (quem nunca passou pano nos erros de alguém por estar apaixonado?), mas também não deixaria homem algum impedi-la de fazer qualquer coisa, mesmo que precisasse se esconder para evitar conflitos. Já Fábio, por ter crescido apanhando, e ainda tão próximo de sua adolescência, não tinha autoestima suficiente para se incomodar com uma amizade às escondidas. Mais que isso, sabia que assim evitavam problemas para ela e para ele também. O que não fazia era se diminuir a ponto de deixar as pessoas certas o tratarem da maneira errada, e quando Fernanda tentou se desculpar pela segunda vez por tudo o que acontecia, Fábio exigiu: “ou você para com isso ou eu vou achar que você tá aqui por pena, e aí é melhor a gente não se falar mais mesmo”. Ela não voltou a tocar no assunto, e as duas horas que passavam juntos se tornavam mais leves a cada encontro. Até serem descobertos.
                O grupo costumava chegar quase despercebido à maioria das festas, a não ser pela presença de Daniela, que raramente era ignorada. Dessa vez, além de Daniela, tinham Paco, e o gringo atraía olhares curiosos e cumprimentos de quem não fazia questão de interagir com eles.
                Tinham suas garrafas de vinho já pela metade quando ouviram Rafael chegar. Fernanda tentava contê-lo. Um de seus amigos também, mas com muito menos empenho.
                “Então esse veadinho tá saindo com a mina dos outros?”, gritava. Os olhos saltavam do rosto e uma veia cruzava sua testa, lembrando uma parede rachada, com menos estrutura do que aparentava ter.
                “Rafael, calm-“, Fernanda tentou interceder e foi empurrada pelo namorado. Daniela e Lorena, e ninguém mais, correram para ajudá-la.
                “Para, mano, que você vai acabar fazendo merda!” A voz e os braços de um dos amigos pareceram diminuir o descontrole físico de Rafael. Parado, ofegante, os olhos fixos em Fábio, ele ainda falava bastante alto. “Eu vou te matar, seu bosta.”
                Apesar de estar esperando por algo parecido desde aquela tarde, Fábio tinha sentido medo ao ouvir a voz de Rafael. Agora, porém, se tranquilizava. Conhecia o tipo, convivia com ele havia anos e sabia que quase ninguém levava adiante as ameaças mais claras e públicas. Bebeu mais um gole de vinho. Estava cansado daquilo tudo.
                Cerca de quinze pessoas viam a cena. Todas, menos Paco, entre seus dezoito e vinte anos, impressionadas e interessadas. O amigo de Rafael o afastava. Lorena e Daniela tiravam Fernanda do chão e Paco se servia de mais vinho quando ouviram a voz de Fábio.
                “Você falou com ela? O que ela te contou?”
                “O quê?!” A pergunta de Rafael era menos confusa do que uma reação raivosa à resposta de Fábio, tão corajosa quanto inesperada.
                “A gente sai junto direto. Desde o começo do ano. A gente conversa bastante, ficou amigo pra caralho.”
                Fábio não chegava a sorrir, mas estava quase lá.
                “Seu veadinho, mongol”, Rafael tentou interromper, mas Fábio não deixou, levantando a voz.
                “Aquele livro que ela tava lendo ontem, sabe? Eu que indiquei. Aliás, eu emprestei, o livro é meu. Eu indiquei várias músicas pra ela, filmes também. Cara, quantos filmes será que você não viu com ela que fui eu que indiquei?”
                Rafael avançou.
                Fábio desviou do soco, mas o encontrão o jogou contra a mesa. Quando recuperou o equilíbrio, tinha uma garrafa de vinho quase vazia na mão esquerda, a mão boa, que girou contra o rosto do agressor, derrubando-o. Sem perder tempo, acertou um chute no estômago de Rafael antes de se lançar sobre ele.
                Um dos amigos de Rafael tentou interferir, mas foi impedido por Paco, que também tinha uma garrafa nas mãos, por via das dúvidas. Todos os outros só assistiam.
                Fábio despejou o vinho no rosto de Rafael, que se debatia, com dificuldades para respirar. “Escuta aqui, desgraçado”, disse Fábio em voz baixa, tranquila, mas agressiva, um tom que surpreendia até a si mesmo. “Você vai me deixar em paz. Não vai mais falar comigo, não vai chegar perto de mim, não vai nem me olhar. Eu vou fingir que tudo o que você fez não aconteceu e você vai esquecer que eu existo, senão eu vou ter que dar um jeito. Entendeu?”
                Atordoado, Rafael tinha os olhos arregalados numa mistura de surpresa, pavor e ódio. Porém, sem forças para reagir, só assentiu.
                Fábio ficou de pé. Sua cabeça e seu estômago giravam. Largou a garrafa vazia no chão, pegou uma das cheias de vinho e foi para a rua, seguido por Paco, Lorena e Daniela.
                Quando chegou à calçada, vomitou ao pé de uma árvore, respirou fundo e convidou os amigos: “Vamos pro bar?” Foram.
                A três quarteirões dali, encontraram uma conhecida que ia para a festa, mas gostou da mudança de planos.
                “Você perdeu o bafo do ano, amiga!”, disse Lorena.
                “O que aconteceu?”
                Fábio pediu em espanhol: “Puedes decir a ella qué pasó, Baco?”
                Caminhou com Daniela alguns metros à frente dos outros três. Falavam pouco e podiam ouvir partes do relato do espanhol.
                “...le pegó um botellazo...”
                “...si era vino o sangre...”
                Fábio sorria.
                “Que foi?”, perguntou Daniela.
                “Tá ouvindo?”
                “Que que tem?”
                “...qué paliza, tía!”
                “Olha essa língua, que coisa maravilhosa. Eu vou ter que dar um jeito de ir pra Espanha. Arrumar uma bolsa, sei lá.”
                Nunca mais o chamaram de esquisito ou nada parecido na faculdade.
                Mas normal, normal, não era.


Tyler Bazz

segunda-feira, 3 de julho de 2017

Terminal



                Acordou e encontrou o espaço a seu lado na cama vazio. Ela já tinha se levantado, feito café, escolhido um dos livros novos sobre a cômoda e puxado uma cadeira da sala para o quarto. Tinham passado algumas noites juntos nas três semanas em que se conheciam, mas ela nunca tinha saído da cama sem ele, explorado o apartamento, feito café. Era sábado e ela se sentiu à vontade em sua casa. Aquilo não o incomodou.
                Ela levou uma xícara de café para ele. Colocou-a sobre o criado-mudo e pegou um dos livros da pequena pilha que havia ali.
                “Eu adorei esse livro. Você gostou?”
                “Eu parei antes da metade. Não curti.”
                Foi numa livraria que se conheceram. Conversaram entre cafés e estenderam aquele fim de tarde o máximo que puderam. Quando ele foi embora, depois de marcarem uma saída juntos na noite seguinte, ela comprou uma cópia do livro que ele estava levando. Parecia ser bom – e era! Ela leu em três dias e se apaixonou.
                “Acho que você devia dar outra chance pra ele.”
                “Eu também acho. Daqui uns dias, talvez.”
                Não era muito de dar segundas chances para livros dos quais desistia, principalmente tão cedo, mas não teve dificuldades para se convencer. Beijou-a na perna, terminou a xícara e foi até a cozinha buscar mais.
                Na sala, o telefone tocou. Voltou para o quarto minutos depois.
                “Aconteceu alguma coisa?”, ela perguntou ao ver seu rosto um pouco assustado, quase em choque, e triste.
                “O seu Antônio morreu.”
                “Quem?”
                “O seu Antônio da estação. Acho que não te contei a história.”
                “Não.”
                Ele começou a contar a história, mais ou menos assim:
                “Eu cresci numa cidade de quarenta, cinquenta mil habitantes. Saí de lá pra fazer faculdade aqui. Quando eu tinha uns dez anos, inventaram de construir uma nova estação de trem. Seria mais moderna, mais segura, boa para a cidade. Disseram que ia aumentar o turismo. Pra ver o quê, eu até hoje não sei.
                “A construção foi bem rápida, que eu me lembre. Fizeram a estação em um bairro novo da cidade, que foi crescendo junto com a obra. Abriram lojas, lanchonetes, alguns mercados, um hotelzinho, e muita gente resolveu morar por lá. Um pouco mais de dois anos depois do anúncio da obra, a nova estação tinha data de entrega e inauguração marcada. E quando esse dia chegou, o seu Antônio arrumou uma mala pequena e foi pra lá. Queria viajar no primeiro trem da estação nova.
                “Só faltava um detalhe. Os trilhos.”
                “Mentira!”
                “Sério. Precisavam construir os trilhos da entrada da cidade até a nova estação, e da nova estação até a saída da cidade. A prefeitura não tinha dinheiro. O governador do Estado ignorou os pedidos do prefeito, mesmo eles sendo do mesmo partido. E a empresa que cuidava da ferrovia disse que não estava nem sabendo de uma nova estação. Hoje eu sei que a estação deve ter sido esquema do prefeito pra desviar o que existia e o que não existia. Antigamente, precisava fazer umas obras grandes pra desviar dinheiro, roubar merenda de criança ainda não era algo aceito por tanta gente.
                “Enfim. Todo mundo já sabia que não ia ter inauguração nenhuma. A história tinha virado piada na cidade toda. Só o seu Antônio foi pra lá.”
                “Mas por quê?”
                “Deve ter ficado louco, dado alguma coisa na cabeça, não sei. Ele passou a noite na estação, dormindo num banco da plataforma, e no dia seguinte a mesma coisa. Ficou esperando. Avisaram a família e a polícia, que foram até lá, mas ele só dizia que não podia sair dali porque estava esperando o trem.
                “Ele tinha uns cinquenta anos e trabalhou na obra da estação com pequenos serviços. Também ajudou a construir quase todas as lojas que surgiram nas ruas do bairro. A dona Célia, esposa dele, dizia que ele acreditava que a nova estação seria boa para os negócios da cidade, que iria gerar dinheiro, que ele falava com brilho nos olhos do quanto a ferrovia tinha sido importante para a cidade onde cresceu, e que não tinha percebido nada de errado com o seu Antônio até o prédio ficar pronto e ele continuar ansioso para a inauguração que todo mundo sabia que não aconteceria. No dia marcado, ele arrumou a mala e foi para a estação.
                “E por lá ele ficou. Nunca saiu do prédio, nem mesmo quando a dona Célia morreu depois de uns anos. Dizem que ele não reconheceu o nome quando deram a notícia, mas pareceu ficar triste. Quando perguntaram se ele iria ao velório e o enterro, ele respondeu ‘É uma pena, mas eu preciso ficar aqui. Estou esperando um trem.’ Depois disso, o único filho do seu Antônio foi embora da cidade, acho que pra não voltar mais. Imagina a cabeça desse cara...”
                “Ninguém cuidava dele? Do seu Antônio?”
                “O pessoal do bairro e da cidade sempre levava comida pra ele, cobertor no frio, essas coisas. Era meio que parte da cidade, uma instituição. A estação abandonada e o seu Antônio.
                “Acabou virando um ótimo lugar pra brincar. De manhã, a estação vivia cheia de crianças correndo pra cima e pra baixo, enquanto o seu Antônio só falava pra gente tomar cuidado na plataforma. No fim da tarde, uma molecada mais velha ia lá pra fumar e beber escondido, o ele dizia que era errado e não fazia bem, mas sempre pedia um cigarrinho e vira-e-mexe aceitava uma dose de vodca. Não sei quantas vezes eu levantei meu copo pra ele e disse ‘Saúde, seu Antônio!’
                “Eu perdi bastante contato quando fui crescendo e nem lembrava dele direito depois que mudei pra cá. Perguntei dele pra minha mãe no último Natal e ela disse que estava na mesma. Ainda lá, esperando o trem. E ontem ele morreu. Foram levar algo pra ele almoçar e ele estava no banco da plataforma, sentado do lado da mala.”
                Ela havia ouvido a história quase em silêncio e tinha lágrimas nos olhos.
                “Que parada triste,” disse.
                “É mesmo,” disse ele. “A gente vai almoçar?”
                “Parece história de livro.”
                “Sério?”, ele perguntou.
                “Eu achei bem metafórica. Ele sabia o que queria, acreditava que aquilo seria bom pra ele e não se contentou com outra coisa. Ele fez o que podia, e quando não dependia dele, ele esperou. É bem triste, ainda mais porque é verdade, mas é muito bonito. Tem todo um significado.”
                “Nunca tinha pensado nisso.”
                “É que você faz parte da história. É normal.”
                Ele entrou no banheiro para escovar os dentes e fechou a porta.
                “Falei com as meninas aqui,” disse ela, terminando de se vestir, “elas querem comer feijoada e chamaram. Aí você aproveita e conhece elas. Vamos?”
                Ele saiu do banheiro já vestido e com o olhar distante, e triste, parecido com o que tinha ao desligar o telefone mais cedo.
                “Acho melhor você ir.”


Tyler Bazz