sexta-feira, 26 de junho de 2020

Liverpool campeão sem jogo - ainda bem!

Algumas coisas só têm razão de ser se forem por inteiro. Não vale qualquer parte por si, só o todo. E se o mundo vira de cabeça para baixo e uma tragédia impede a existência de uma dessas partes, é no mínimo justo, e na medida do possível benéfico, que nos momentos mais importantes também falte a outra parte. Daí que o Liverpool confirmar o título inglês em 2020 e sem estar em campo dar fim a uma seca de trinta anos foi a melhor coisa que poderia ter acontecido.

Que bom que não teve jogo sem “You’ll Never Walk Alone”. Afinal, o que seria da substituição que muda tudo no intervalo, da defesa milagrosa ou do gol do título sem os milhares de olhos que já não enxergam, traduzindo em lágrimas uma emoção inexplicável, para muitos desconhecida? O que seria da vitória derradeira sem os jogadores lutando para manter a concentração, sabendo que só acaba quando termina, enquanto a massa canta antes do apito final que já “É campeão!”? Que capitão quer levantar uma taça sem os seus – todos os seus? A explosão só acontece com todos os elementos. A combinação é fundamental.

Se o futebol, em situações extremas, pode até acontecer sem torcida no estádio, a festa de um título, não. Sem jogo, é como se Klopp, os jogadores e o restante do clube pudessem dizer aos torcedores: “Vocês não estavam lá, mas tudo bem, nós também não!” E se ninguém estava lá, estavam todos: os próximos, os distantes, os noventa e seis e os outros tantos que já não poderiam estar. Todos lá.

E afinal, onde é “lá”? Onde foi o primeiro título de Premier League do Liverpool, campeão da Inglaterra depois de trinta anos? Em lugar nenhum, e em todos os lugares. Não aconteceu no espaço, aconteceu no tempo. Sem os sorrisos extasiados nas arquibancadas ou o suor realizado dos profissionais, o campeão é o Liverpool – a entidade, o espírito, o intangível, o Liverpool imaterial. Nunca o título de um clube foi tão de todos, absolutamente todos que o fazem ser o que é.

No fim das contas, mais por inteiro, impossível.


Tyler Bazz

terça-feira, 5 de maio de 2020

Distanciamento social


Ela publica fotos de livros que leu ou está lendo, com trechos marcados, páginas inteiras, um rabisco na margem ou mesmo só as capas, às vezes acompanhadas de música, do horizonte visto pela janela, de uma xícara de chá. Mas as minhas favoritas são as em que ela segura o livro, porque suas mãos são muito, muito bonitas, ainda que isso seja verdade sobre absolutamente tudo nela. Também gosto porque ela escolhe bem os trechos. Sempre anoto, procuro de onde são, acabo lendo algum ou outro e acho que até entendo a maioria.
               Não é surpresa então, sendo o mundo cruel como é, que eu estivesse com um desses livros não muito bons que eu gosto, ela não, quando demos de cara um com o outro – quer dizer, demos de máscara – num dos cantos de um supermercado.
               “Não acredito que você ainda perde tempo com isso”, ela disse, mas de um jeito simpático, sorrindo com os olhos escuros e um pouco, mas só um pouco grandes demais para o rosto. Tinha pensado nela no dia anterior, justamente pelos olhos, quando três ou quatro pessoas de máscara passaram pelo feed e ficou claro que nem todo mundo que sabe sorrir com os olhos. Ela sabe e é de quebrar as pernas.
               “Eu tinha parado, mas não é culpa minha que agora os dias têm sessenta horas.”
               “Duvido que não seja culpa sua.”
               “Ah é?”
               “Desculpa, é só que eu acho que todas as coisas ruins do mundo têm alguma participação sua, nada demais.”
               “Preciso chamar meu advogado pra essa conversa?”
               “Eu chamaria.”
               “Sorte que ele mora aqui perto, então.”
               “Espera! Você tem mesmo um advogado?”
               “Não, mas talvez devesse. Com essa coisa de ferrar o mundo e tal.”
               “É, talvez devesse. É bom esse vinho?”
               “Pelo preço dele, é horrível. Mas com cinquenta por cento de desconto é ótimo.”
               “Bom saber. Onde ficam os vinhos aqui?”
               “Eu te levo.”
   Ela já tinha cervejas no carrinho e o supermercado não tem mais do que quatro corredores, era impossível que não soubesse onde ficavam os vinhos, então evitei ir embora até ela terminar as compras, colocando coisas desnecessárias na minha cesta. Ainda não sei o que vou fazer com aquele limpa alumínio. Eu não tenho alumínio. Passamos pelo caixa e tomamos a mesma direção na rua. Dez segundos depois, a garoa leve virou chuva apertada e paramos embaixo do toldo de um restaurante fechado, na esquina.
               “Toda vez. Maior tempo fechado, eu penso que é só uma corridinha até o mercado e não pego o guarda-chuva. Aí chove e eu fico ilhada.”
               “Ou arrisca, chega encharcada em casa e o tempo de subir de elevador é suficiente pra chuva parar.”
               “Sim! Que raiva!”
               “Você tá morando aqui perto?”
               “Aqui na rua de trás, faz mais de dois anos.”
               “Que bizarro a gente não ter se encontrado antes.”
               “Verdade. Bom, eu te vi uma vez no metrô, descendo pela escada rolante. Eu tava subindo pela normal. Você não me viu, ou fingiu que não viu.”
               “Não vi. Talvez eu fingisse se tivesse visto, mas não vi.”
               “Você fingiria?”
               “Talvez. E não faz essa cara. Não é tão horrível assim, sabe? Eu tenho um amigo, um conhecido, amigo de uns amigos, que trabalha por aqui. Vira e mexe a gente se encontra na rua e aí para, joga um pouco de conversa fora, fala de marcar uma cerveja que obviamente nunca acontece... Um dia a gente parou de falar na cerveja, a conversa jogada fora foi diminuindo até chegar naquele ‘e aí, beleza’ que você nem para de andar, depois virou só um aceno de longe, com a mão e hoje em dia às vezes a gente simplesmente se ignora. Não se a gente estiver na mesma calçada ou se tiver contato visual, porque a gente é educado. Fingir que você não viu uma pessoa pode acabar dando trabalho, mas às vezes é o mais fácil.”
               “Meu deus! Essa palestra toda só pra explicar que você fingiu que não me viu?”
               “Mas eu não vi!”
               “Para, antes que fique feio.”
   Depois de dias sem uma única conversa que não fosse por texto ou áudio, eu queria ficar ali o quanto pudesse. Mas foi ela quem colocou as coisas no chão, sentou no degrau da porta do restaurante e me disse para sentar também, mesmo com a chuva já bem mais fraca. E ali estávamos, a distância regulamentar e uma dúzia de sacolas entre nós, os rostos cobertos com máscaras e eu me convencendo a oferecer uma cerveja, quando uma senhora virou a esquina, observou a cena e anunciou: “Um casal protegido e muito bonito. Parabéns!” Eu juro que um dia vou perder a cabeça.
               Por que as pessoas dizem isso? Sério. E raramente quem ouve é de fato um casal. Se eu pudesse proibir uma frase, eliminar mesmo da língua portuguesa, seria “vocês são um casal muito bonito”. Isso e “inveja branca”. E “eu tenho pra mim que...” “Eu tenho pra mim que” é foda. E essas porras de “ver verdade” em algo e “vir de um lugar de qualquer coisa”. Mas enfim, vocês não estão preparados pra essa conversa.
               Ela esperou a velha atravessar a rua antes de falar, o tom mais sério, mas os olhos sorrindo um pouco.
               “Você não pode reagir assim.”
               “Assim como?”
               Ela usou minhas palavras exatas. “É verdade, né minha senhora? Às vezes a gente quase esquece, mas somos um belíssimo casal mesmo. Muito obrigado!”
               “Bela imitação.”
               “E todo sorridente ainda! Era pra ficar constrangido, esconder a cara no chão de vergonha.”
               “Ei, eu tenho vergonha.”
               “Não pareceu.”
               “Os dias têm sessenta horas! Espera eu chegar em casa pra você ver.”
               “Dias? Plural?”
“Todo dia. Mesmo quando eles tinham só vinte e oito horas.”
Uma hora o assunto ia chegar. Maldita velha.
“Você fez muita merda.”
“Eu sei.”
“E nunca nem tentou pedir desculpa. Nem hoje.”
“Eu sei. Não tinha por quê.”
“Não?”
“Não. Até porque você não suspendeu a vida esperando desculpas. É péssimo isso, mas quando era importante pra você, eu não ligava. E quando eu percebi que devia dizer algo, não fazia mais diferença pra você e só serviria pra eu me sentir melhor comigo mesmo e com a situação toda. Mas nem isso, porque eu não ia deixar de me sentir mal ou de ter vergonha, então não tem por quê.”
Eu obviamente já tinha pensado nisso tudo antes. Não sei quantas centenas de vezes tive essa conversa comigo mesmo.
“Fora que se eu pedisse desculpas aqui hoje você ia me mandar pro inferno.”
“Mas com certeza. E é pra você se sentir mal, mesmo.”
“Pode ficar tranquila.”
Ela respirou fundo, olhando a chuva. Devia ter pensando bastante também em como seria essa conversa, se acontecesse um dia, e quando chegou a hora viu que não fazia mais diferença. Eu acho.
“Pra quem lê esses malas aí que você lê, até que você consegue pensar direito, às vezes.”
“Eu sei! Essa coisa de toda não ser um problema fingir que não viu alguém, que conceito, né?!”
Então ela me mandou pro inferno, nós rimos um pouco, brincamos sobre marcar novos encontros no supermercado e decidimos continuar a conversa cada um na sua casa. E tem sido assim. Quem sabe depois do próximo supermercado a gente não vire juntos a esquina, em vez de seguir cada um para um lado? Ela já disse que quer, eu dei a entender que poderia ser legal. Acho. Mas não precisa dizer, ela sabe. Falamos dia desses de um que poderíamos assistir lá, se eu fosse, mas eu acabei assistindo sozinho por aqui. Não tinha mais nada passando. Também não é certeza que eu vou. E na sexta meus amigos querem fazer uma chamada de vídeo, já que não tem bar, e eu não sei como seria com ela junto. É ok eu ficar na sala com ela no quarto, ou o contrário? É minha primeira pandemia. E tem isso também, não é certo eu ir pra lá na quarentena, né? Ficar em casa, isso e aquilo. Não sei se é uma boa ideia. Preciso ver isso direito.
Talvez eu vá.


Tyler Bazz

terça-feira, 16 de abril de 2019

A decisão


Centenas de bandeiras dançavam e as mais de quarenta mil vozes donas do estádio não deixavam de cantar, não só por dedicação e amor, mas também tentando impedir que a tensão e o nervosismo se transformassem em desespero. Muitos comiam as unhas, outros tantos se benziam.
               Falta pela banda direita, jogo parado, trinta e sete do segundo tempo e o placar indicava um zero a zero que significava derrota para o time da casa. Um gol valeria o título, mas a bola parecia brigada com as redes em um jogo de arrancar os cabelos. Bolas na trave, chances claras perdidas, milagres do goleiro rival, já havia acontecido de um tudo.
               Ao time não faltava empenho ou qualidade, mas o futebol tem dessas coisas, nem sempre quem está melhor consegue vencer. Em alguns casos, é questão de alguém bater no peito, chamar a responsabilidade. “Deixa vomigo”, pensou o improvável herói antes de avançar pela direita, passar por um, dois adversários, cortar para dentro e soltar a canhota num chute cruzado com endereço mais que certo.
               Após um breve silêncio incrédulo, a torcida explodiu. Grito uníssono, canto, palmas, abraços, beijos e muitas, muitas lágrimas. Os jogadores da casa sorriam emocionados, chegando a rir enquanto se abraçavam. Os adversários, inconformados, rodeavam o juiz – tem que chamar o bandeira! O VAR! O Papa!
               Ajoelhado ante parte da torcida, braços abertos em glória, o artilheiro foi rapidamente subjugado. Acompanhados por vaias e todo tipo de xingamento em altíssimo volume, os seguranças o retiraram dali sem a menor demonstração de sensibilidade, provavelmente para ser agredido sabe-se lá onde.
               O jogo recomeçaria com zero a zero ainda no marcador. Porque, talvez infelizmente, gol de torcedor que invade o campo ainda não vale.

Tyler Bazz