quinta-feira, 2 de maio de 2013

Três cigarros



Eu acendia três cigarros de uma vez, torcendo para os meus dedos não congelarem no frio que fazia do lado de fora do aeroporto de Nyköping. Ainda não tinha visto neve cair naquele dia, mas já nevava fazia tempo na Suécia e tudo estava bastante branco.

Os cigarros eram para mim, o Vinicius e o Marcello, e eu acendi os três por costume – vinha sendo assim nos últimos meses, era eu quem acendia os cigarros, eles tinham outras funções, decididas por ninguém. Mas só depois de acender aqueles me lembrei de que tinha saído sozinha do terminal e fiquei encarando os dois cigarros a mais queimarem enquanto eu fumava.

Tão concentrada nas pontas acesas, com a cabeça em outro lugar, só percebi que tinha alguém ao meu lado quando ouvi um “Oi, posso pegar seu isqueiro emprestado?”, dito em inglês com uns R’s que só não gritavam mais “França” que o nome do dono da voz.

“Jean-Pierre”, ele estendeu a mão pela segunda vez, depois de aceitar um dos cigarros que expliquei que eu não usaria naquela hora.

“Maria”, respondi, estendendo a minha e sorrindo.

“Marie?”

“Maria”, repeti, deixando clara a pronuncia. Eu gosto de ter um nome assim, mundial, quase ninguém estranha. Mas falando comigo, prefiro que usem a versão em português mesmo.

“E de onde você é?”

“Do Brasil.”

“Ah. Está viajando?”

“Sim. Eu e dois amigos. Brasileiros também.”

“Já foram à França?”

“Uhum. Sim. Paris, antes daqui. Mas acho que voltamos daqui uns meses, pra conhecer outros lugares.”

“Ah, sim. É um país muito bonito, vocês deveriam voltar. E agora, está indo pra onde?”

“Espanha,” respondi, acabando com um dos cigarros, “vamos encontrar uns amigos para o Natal e o Ano Novo.”

“Meu voo é para lá também! Eu moro na Espanha, na verdade.”

“Que legal,” respondi, e minha atenção começou a querer se espalhar, voar no ar frio. O francês continuava falando, mas eu já não acompanhava. “Oi? Desculpa...”

“A gente podia sair para tomar algo enquanto você estiver por lá.”

Era sempre a mesma cara, aquele mesmo algo na voz. Você aprende, viajando por um tempo, a reconhecer os sinais do homem europeu louco para ir para a cama com uma brasileira. Não é sempre assim, claro, mas é impressionante como alguns deles mudam quando você diz de onde é. Não importa mais muita coisa sobre você, e de repente tudo o que eles querem é te ter no pau deles. Aquilo só ajudou a aumentar minha distração, e conforme meu cigarro queimava, eu o ignorava e sem nem perceber deixava de olhá-lo.

A verdade é que eu andava cansada daquilo. Era bonito, o Jean-Pierre, e normalmente eu veria com ótimos olhos encontrá-lo em qualquer parte da Espanha para uma foda boa. Mas, talvez fosse todo o clima de fim de ano, eu andava sentindo vontade de mais conexão, de conhecer melhor alguém, de algo que durasse um pouquinho mais. Eu queria não só pau, mas corpo inteiro.

E não, os dois meninos não eram uma opção. Nenhum deles. E eu sei que você estava pensando nisso porque todo mundo pergunta depois de menos de dez minutos de conversa. Foi algo que nós decidimos e combinamos quando começamos a pensar na viagem, e todo mundo agiu de acordo com o combinado. O Vinicius ficou estranho comigo uma vez, em Madri, depois de umas garrafas de vinho. Mas era Vinicius, vinho, Madri, a combinação perfeita para ele ficar estranho.

“Você lembra do que você fez ontem?”, perguntei na manhã seguinte, no café.

“Uhum,” ele respondeu, me olhando nos olhos. “Desculpa.”

“Você vai fazer algo assim de novo?”

“Não. Talvez eu tenha que parar de beber vinho nesse país. Mas não.”

Eu acreditei nele. Ele cumpriu o que disse.

“Ei, bora comer algo?” era o Marcello, afundando os pés na neve para chegar aonde eu estava. Terminei o cigarro.

“Uhum. Cadê o Vi?”

“Carimbando as paradas. Aquele cigarro é seu?”

Olhei para onde ele apontava, atrás de mim. Era o meu cigarro. Inteiro, só com a ponta queimada. “Francês filho da puta,” murmurei.

“Quê?”

“Nada,” eu disse, enquanto pegava o cigarro e guardava no bolso do casaco. Na hora, pelo menos conscientemente, não reparei que não tinha marcas de passos na neve, em nenhuma direção.

Que eu me lembre, esses foram os primeiros sinais de que eu estava enlouquecendo.


Tyler Bazz

segunda-feira, 15 de abril de 2013

Valeu! :)



Eu não sei agradecer. Quando eu ganho um presente, sempre tenho certeza que deixo sem querer no ar uma dúvida sobre se eu gostei ou não, porque não consigo mais que soltar um “Valeu!” e um sorriso. Às vezes nem um abraço você ganha por me dar um presente (e eu sempre gosto do presente - eu consegui levar minha vida pra um ponto em que eu não ganho presente por obrigação de ninguém, então é sempre sincero, e isso já basta pra eu gostar). Mas tem um sorriso. E isso vale duas ou três vezes mais praquelas coisas que não são exatamente presentes. Aquelas coisas pequenas que alguém faz só pra te deixar feliz sem motivo, só pra te arrancar um sorriso. Sempre que alguém faz alguma coisa muito legal pra mim, eu sorrio. Mesmo que eu não esteja muito a fim de sorrir para a pessoa, seja lá por qual motivo, eu não consigo segurar e antes que eu perceba meus dentes já estão lá, se exibindo.

E é disso, apanhando das palavras por tentar não me esconder atrás de ficção, que eu estou tentando falar.

Não importa quem você é, ou o quanto você é odiado, ignorado ou amado por todo mundo, sempre tem alguém que, pra sempre ou por certo tempo, gosta muito de você. E essas pessoas têm uma mania linda de tentar fazer coisas legais pra você, esperando em troca nada além de melhorar seu dia, de te arrancar um sorriso. E mesmo que elas sempre consigam, nem sempre a gente deixa elas saberem disso. Às vezes a gente esconde o tal sorriso, às vezes a gente sorri longe, e não faz mais nada.

E você já esteve do outro lado. Você sabe que quando você gosta muito de alguém e faz algo legal pra essa pessoa esperando em troca nada além de melhorar o dia dela, de arrancar um sorriso, e ela mostra que você conseguiu, e que ela aprecia isso, muda tudo. Muda tudo, não muda?

Eu detesto assumir o posto de escritor metido a dar conselhos e lições de vida, mas eu tenho que dizer isso: nessas situações, agradeça. E agradeça tão sinceramente quanto o sorriso que você deixa escapar. Dá um jeito de mostrar pra pessoa que ela fez algo muito legal. Não importa se você anda puto com ela ultimamente, ou se você está tentando se livrar dela porque as coisas já não são mais como eram. A melhor hora pra agradecer por esses gestos é quando eles são feitos.

Porque às vezes vai parecer que o mundo inteiro está se esforçando pra não deixar você sorrir (as casas de apostas dizem que deve ser numa segunda-feira), e às vezes você vai estar precisando que te arranquem um sorriso e não vai ter ninguém disposto. E aí você acaba achando um recado num guardanapo, um desenho antigo ou uma coisinha à toa, e pronto. E se você não agradeceu lá atrás, faz o quê? A pessoa pode estar ali perto, na sua tela, mas tem coisa que você prefere não mexer, e coisa que você não tem o direito de mexer. E vai ter os casos em que vocês perderam tanto o contato que você nem lembra o sobrenome dela, pra procurar.

Um agradecimento sincero, na hora, pode parecer um saco, mas é uma certeza que você tem de ter feito a coisa certa. É um peso que você tira das costas no futuro. E tem dia que qualquer pesinho a menos faz uma diferença enorme.


Tyler Bazz

quinta-feira, 4 de abril de 2013

Cornerstone



Achei que tinha te visto na fila da bilheteria. Era tão parecida que por um momento esqueci o quanto você está longe. Esperei ela comprar e puxei assunto, tímido, só com um sorriso. Acho que ela gostou. Era sexta e saímos naquele dia mesmo, mais tarde. Muita cerveja gelada, ela era boa de papo e gosto musical, igual você. Mas não gostou nem um pouco quando estávamos indo pra casa e eu perguntei se podia chamá-la pelo seu nome.

Achei que tinha te visto na outra ponta do vagão, mas era só alguém bem parecida, que também deixava os cabelos caídos sobre os ombros, enrolando nos fios dos fones de ouvido. Sentei ao lado dela e começamos a falar, saímos do trem já de mãos dadas. Eu gostava dela, e ela parecia gostar de mim mais do que você jamais gostou. E tudo estava indo bem até eu perguntar "e se eu te chamar pelo nome dela?"

Resolvi mudar o caminho de volta, que o metrô já não estava fazendo bem. Passei a andar, pegar ônibus, qualquer coisa, eu não ligava se tivesse que andar mais.

E um dia, a pé, achei que tinha te visto entrar em um sebo, mas era só alguém com o mesmo jeito de andar. Entrei lá também e ela tinha seus olhos, então ignorei os livros ruins que ela escolheu, as bandas ruins que ela ouvia, os filmes ruins que me indicava. Mas ela não ignorou quando ouviu seu nome sair da minha boca.

E eu tinha várias explicações pra quando me perguntavam por que é que eu nunca dava certo com ninguém. Acontece, não rolou, faltou química, a gente queria coisas diferentes. Mas a verdade é que não tinha lugar pra mais ninguém num mundo cheio de você.

Até que encontrei sua irmã na saída da estação, exatamente onde a gente se conheceu. Fomos a um café e nos apressamos em todos os assuntos para te evitar, mas ficou impossível quando a moça veio tirar nosso pedido – eu ainda bebo seu café, ela gosta do seu muffin favorito. Então baixamos a guarda e nos deixamos sentir saudade, sem fugir da sua presença, e o abraço de consolo foi virando afeto. E um dia eu pensei ter estragado tudo, quando na hora de dizer boa noite seu apelido escapou, logo depois o começo do seu nome. Mas ela só sorriu, me beijou e me disse no ouvido: "Pode me chamar do que você quiser."


Tyler Bazz

segunda-feira, 1 de abril de 2013

Lollapalooza Brasil, 2013




Para agradecer a Of Monsters and Men, Cake, The Killers, Two Door Cinema Club, Queens of The Stone Age, The Black Keys, Vivendo do Ócio, Foals, Vanguart e The Hives, pelos puta shows


Para agradecer ao Pearl Jam, por me fazer sentir tanta coisa e tocar os melhores shows da minha vida



Para agradecer ao Truzzi, à Máximo e a quem esteve lá comigo esses dias. Eu prefiro assim do que sozinho – juro


Por que a gente encara a chuva fria, o lamaçal, o cheiro de estrume, o sol quente, o aperto e as filas enormes? Por que a gente gasta, em três dias, mais do que gasta em aluguel, condomínio, luz e telefone juntos? Por que a gente sofre o empurra-empurra de uma hora para entrar no metrô já pensando em voltar no dia seguinte? Por que no último dia a gente vai embora especulando como será no ano que vem?

Porque arte. Porque música.

Quanto a gente não pagaria para ver Picasso pintando ali, na nossa frente? Ou para ficar em silêncio, só assistindo Hemingway bater teclas? Muito. Eu, pelo menos. Quanto você pagaria, mesmo sabendo que talvez seja um preço injusto, inchado pela produtora, para ver Fernanda Montenegro no palco?

Exatamente.

E um palco de show é uma via de duas mãos. Não é a mesma coisa se a banda só toca, eles têm que falar com a gente. E a gente responde, e não para de bater palma, gritar, dançar. A gente prefere assim. As bandas preferem assim, basta ver quantos sorrisos arrancamos delas nesses três dias.

Não tem preço que pague. Não tem barato melhor. Porque aquela sensação que você tem quando está ali, a coisa de metros d’a banda, quando ouve o comecinho de uma Given To Fly – e dezenas de outras músicas de dezenas de outras bandas– , é algo que não te abandona nunca. É algo que divide o mundo entre pessoas que viveram aquilo e pessoas que não viveram aquilo.

Não é só a adrenalina, a alegria de estar ali, a saudade antecipada e aquele pensamento longe que insiste em aparecer. É também o vazio estranho de não saber quando você vai se sentir tão bem outra vez.

Por isso, na segunda-feira, a gente abre o extrato bancário e começa a fazer contas, planejar economias. Não pensando em pagar as contas do mês, investir ou comprar o presente mais legal do mundo para a sobrinha. Mas pensando nas próximas horas que vamos passar esmagados, tomando chuva, perdendo a voz. Pensando nas melhores horas da vida.



Tyler Bazz