terça-feira, 16 de abril de 2019

A decisão


Centenas de bandeiras dançavam e as mais de quarenta mil vozes donas do estádio não deixavam de cantar, não só por dedicação e amor, mas também tentando impedir que a tensão e o nervosismo se transformassem em desespero. Muitos comiam as unhas, outros tantos se benziam.
               Falta pela banda direita, jogo parado, trinta e sete do segundo tempo e o placar indicava um zero a zero que significava derrota para o time da casa. Um gol valeria o título, mas a bola parecia brigada com as redes em um jogo de arrancar os cabelos. Bolas na trave, chances claras perdidas, milagres do goleiro rival, já havia acontecido de um tudo.
               Ao time não faltava empenho ou qualidade, mas o futebol tem dessas coisas, nem sempre quem está melhor consegue vencer. Em alguns casos, é questão de alguém bater no peito, chamar a responsabilidade. “Deixa vomigo”, pensou o improvável herói antes de avançar pela direita, passar por um, dois adversários, cortar para dentro e soltar a canhota num chute cruzado com endereço mais que certo.
               Após um breve silêncio incrédulo, a torcida explodiu. Grito uníssono, canto, palmas, abraços, beijos e muitas, muitas lágrimas. Os jogadores da casa sorriam emocionados, chegando a rir enquanto se abraçavam. Os adversários, inconformados, rodeavam o juiz – tem que chamar o bandeira! O VAR! O Papa!
               Ajoelhado ante parte da torcida, braços abertos em glória, o artilheiro foi rapidamente subjugado. Acompanhados por vaias e todo tipo de xingamento em altíssimo volume, os seguranças o retiraram dali sem a menor demonstração de sensibilidade, provavelmente para ser agredido sabe-se lá onde.
               O jogo recomeçaria com zero a zero ainda no marcador. Porque, talvez infelizmente, gol de torcedor que invade o campo ainda não vale.

Tyler Bazz

quarta-feira, 23 de janeiro de 2019

Móvel


A Julia foi a única que realmente viu o durante. Passou aqui antes de um rolê e quis subir para “usar o banheiro”. Ela sempre dá um jeito de vir, querendo ver como andam as coisas, se está tudo certo, tudo no lugar comigo – é sem necessidade, porque aquela época durou só alguns meses, mas não me incomoda.
               Primeiro, só me encarou com os olhos meio arregalados, girando quase todo o corpo na minha direção, depois apontou para o espaço vazio – quer dizer, tinha uma cadeira e um banquinho lá – e só então perguntou, a voz um tom acima do normal: “Sofá?!”
               Respondi com aquele meio sorriso que não mostra os dentes, que acabou virando o meu depois de usar aparelho na adolescência e que também era o seu, ainda que só um dos seus tantos, um melhor que o outro. Ela entendeu que não teria maiores explicações.
               “Partiu, então?”
               “Você não tinha que ir no banheiro?”, perguntei sem olhar, enquanto pegava cervejas na geladeira para o caminho.
               “Ah, é!”, ela mentiu e foi. Vira e mexe ela passa alguns minutos no meu banheiro sem precisar, não sei como ainda não inventou outra desculpa para subir.

“Eu não sei como essa pizza consegue ser tão boa!”
               “É pizza, nunca é menos que tão boa.”
               “Eu sei, mas nossa!”
               Eu lembro de quando a Julia surgiu, nova no seu trabalho e na cidade, e eu não fui com a cara dela, mas você me pedia um esforço porque “ela é legal, você vai ver”. Quem diria que hoje eu escolho o sabor da pizza dela e acerto demais? Você diria, acho. É como se você soubesse.
               “Mas enfim, chega de me enrolar. Você trocou de sofá!”
               Fingi que a resposta seria só um sorriso outra vez, mas evitei ser xingado. “É. Sei lá. Acho que era na hora de mudar algo.”
               Algo!? Ainda tem absorvente no armário do seu banheiro, cara. Coisas são só coisas, já passou muito da hora.”
               “Primeiro, para de mexer nos meus armários. Segundo, você não conhece a história do sofá, né?”
               “Tá, vocês provavelmente viram muitos filmes juntos, dormiram várias noites nele, treparam pra cacete, mas não é o fim do mundo, sabe?”
               “Então”, expliquei, “quando a gente mudou pro apartamento, aquele sofá era a única coisa que a gente tinha. A única. E só porque já era dela antes, que ela tinha roubado da república onde ela morou na faculdade.”
               “Como assim roubado?”
               “Deviam pensar que já era dela, acho. Mas ela aproveitou que estava sozinha lá no dia da mudança e levou porque era confortável demais. E era. O pouco resto de coisas que ela tinha demorou dias pra chegar, e eu tinha umas roupas numa mochila e mais nada. A primeira noite a gente passou com uma pizza e vários vinhos naquele sofá. No dia seguinte, a gente adotou o Cosmo e então tinha um pote de água, um de comida e o sofá, que virou a cama dele pra sempre. E a casa inteira surgiu a partir dali.”
               Às vezes eu conto coisas assim e as pessoas precisam de alguns segundos em silêncio. Já me acostumei.
               “Mano!”, ela finalmente conseguiu dizer.
               “Pois é.”
               “Olha, eu sou super a favor de você seguir em frente, mas será que isso não é grande demais? Você falou com alguém sobre?”
               “Não. O Lê concordaria com você, a Bruna discordaria. O André ia só chorar. Mas não importa, tá feito. O sofá foi embora, qualquer hora eu compro outro.”
               “Você ainda não comprou outro?!”
               Eu não estava com a menor vontade de comprar outro, pra ser sincero. A cadeira e o banquinho eram extremamente desconfortáveis, mas já fazia muito tempo que tudo era extremamente desconfortável. O problema é que a Julia e o resto estavam começando a relaxar e baixar a guarda comigo, a se preocupar menos. Desistir de ter um sofá em casa levaria tudo de volta ao começo.
               “Ainda não. Amanhã ou depois eu vejo isso, preciso achar o aplicativo.”
               “Você vai comprar sofá por aplicativo?”
               “Não é assim que os jovens fazem hoje em dia?”
               “Para com isso. Não dá pra escolher sofá pelo celular. Tem que ver, pôr a mão, dar uma sentadinha.”
               “Tem certeza que você tá falando de comprar sofá?”
               “A gente pode ir amanhã! Depois nós almoçamos algo.”
               “Eu te mando fotos dos finalistas e deixo você dar palpite.”
               “Não...”
               “É pegar ou largar.”
               Ela não gostou, mas aceitou.

O sofá acabou de chegar. Escolhi sozinho. É bonito, confortável até, mas sem comparação. Talvez eu deva adotar um cachorro agora, ou um gato, me daria um charme todo novo, não? Será que o Cosmo me perdoaria? Duvido. Mas enfim, sem bichos por enquanto. Já decidi qual é o próximo passo. Eu preciso de uns dias, ou algumas semanas, mas prometo que vou fazer. Eu vou me livrar daqueles absorventes.

Tyler Bazz

quinta-feira, 16 de agosto de 2018

Check-in


                Minha última lembrança era abrir mais uma garrafa de vinho, cerca de duas da manhã. Agora, tinha acordado fazia pouco menos de uma hora, num canto afastado de uma das áreas de espera do aeroporto, sem a menor ideia de como tinha ido parar lá e com um peso cinza estranho nos ombros. Observava os destinos e horários girando no painel de embarque quando ouvi sua voz: “Ei!” Reconheci no mesmo segundo. Ela já vinha na minha direção, sorrindo e desviando das malas e carrinhos de bagagem, e minha reação mais sincera e até inevitável – e eu não tentei evitar – também foi sorrir, apesar de saber que na situação contrária eu fingiria não tê-la visto e sumiria dali.
                “Você veio mesmo!”, ela disse, antes de me dar um abraço tímido.
                Eu tinha ido, não desmenti.
               Pouco depois estávamos em uma cafeteria. Ela com pães de queijo, um croissant, um cookie e um chá de ervas, eu só com a garrafa de água que tinha comprado antes, tentando diminuir a dor de cabeça e tirar o gosto de ressaca da boca.
                “Indo pra onde?”, perguntei assim que a garçonete se afastou com a bandeja vazia.
                Ela respondeu como se fosse óbvio. Eu conhecia o lugar e morria de vontade de visitar outra vez, mas não tive tempo para pensar nisso, entendendo tudo cada vez menos e também achando um pouco rude ela não ter perguntado para onde eu, que também estava no aeroporto, ia.
                “Uau!”, meu entusiasmo não era fingido, apesar da falta de foco. “Vai comer bem lá, hein?”
                “Nossa, sim. Mas minhas roupas precisam servir um bom tempo ainda, que essa coisa de trocar de país custa um dinheiro meio sem noção, então não muito.”
                “Boa sorte”, respondi com um princípio de riso. Bebi mais um gole de água enquanto ela comia o croissant e a encarei, sem saber o que dizer. Ela teria que se virar com os nossos silêncios.
                “A gente não precisa ter nenhuma conversa séria”, ela disse, se interrompendo com um gole de chá. “Só me conta o que você tem feito, como anda a vida, sei lá.”
                “Não mudou muita coisa”, dei de ombros. “Eu só trabalho bastante e me distraio um pouco.”
                “Já é algo. E o que mais?”
                “Nada de útil. Aprendi a falar francês.”
                “Isso não é inútil! Tudo bem que vai ser quando você for me visitar, mas não é inútil, não.”
                “Eu vou te visitar?”, por um momento, tive medo por talvez ter esquecido passagem e passaporte, o que não fazia nenhum sentido.
                “Para de ser besta. Me fala algo em francês.”
                “Nem fodendo.”
                “É, valia a pena tentar. Mas aprendeu por quê? Tá pensando em ir pra lá?”
                “Não, só aprendi mesmo. Sem planos.”
                “Não é possível que você continue sendo assim.”
                “Assim como?”, aceitei um pedaço de pão de queijo que ela oferecia. Estava quase péssimo.
                “Não planejando, só fazendo as coisas sem pensar em nada além da próxima sexta-feira.”
                “Não é desse jeito, também.”
                “Não!? Então você não vai vivendo a vida sem nenhum plano, sem objetivo nenhum, sem ter uma mínima perspectiva de futuro que seja?”
                “Agora você tá só tentando me deprimir e me jogar no buraco.”
                “Chumbo trocado com atraso também não dói.”
                Ela sorriu mais que eu. Seria o momento para um pedido de desculpas, eu sabia, mas não disse nada. Eram anos demais de atraso, e no final das contas a gente estava ali, seria estranho dar um passo atrás. Desnecessário. Mas é óbvio que eu pensaria assim.
                Nossa conversa durou um pouco mais que o chá. Ela insistia em querer saber de mim, ignorando que era ela quem estava a ponto de trocar de continente e tinha coisas realmente interessantes para contar. “Não mudou nada nessas horas”, me disse. “Só que agora parece que ficou tudo mais no lugar.” Que horas? Que lugar? Por que ela parecia saber que não estávamos ali por acaso enquanto eu começava a me perguntar se teria morrido e ido para algum tipo de purgatório? Socorro.
                Na entrada da área de segurança, ela me apertou num abraço e me deu dois beijos no mesmo lado do rosto. “Eu adorei que você veio. Me deixou muito mais leve. Vai pra lá me ver, não demora.” Etc. E nos despedimos.
                Se ela ficou mais leve, o peso nas minhas costas era enorme. Eu não sabia como estava no aeroporto, por que tinha me encontrado com ela depois de tantos anos, por que ela falava de visitas como se fosse algo natural e esperado. E também não entendia como, no meio daquela confusão toda, um risquinho de sol conseguiu cruzar a nuvem pesada que andava comigo.
                Vaguei um pouco pelo aeroporto, sem dar muita atenção às despedidas, corridas para o check-in ou avisos de atraso e embarque imediato. Comprei um livro e um chiclete e já estava na fila dos táxis quando me lembrei do trem. Não era perto, mas eu tinha tempo de sobra.
                Já no vagão, em direção ao centro da cidade, o celular vibrou. Era uma mensagem dela, com beijos e um aviso de que já decolava. Foi quando descobri algo que explicou tantas coisas quanto confundiu ainda mais minha cabeça. Tínhamos nos falado por quase uma hora, às quatro da manhã. Ligação dela, menos mal.
                Abri o livro, que em tese era fácil de ler, mas não conseguia me concentrar em duas frases. Não tinha nenhuma lembrança de chegar ao aeroporto, de sair de casa, de falar com ela. Na minha cabeça, fui direto do som da rolha na sacada para a área de embarque. Eu precisava de ajuda.
                E cacete, eu precisava de um café.

Tyler Bazz