Quarta-feira, 8 de Julho de 2009

Reparando.

E aquela menina loira, bonita e cheirosa que ia trabalhar sempre no mesmo ônibus que eu sumiu de repente. Teria ela morrido, me perguntei, ou mudado de cidade, ou perdido o emprego. Criei teorias e hipóteses para explicar a mim mesmo o sumiço. Precisei de seis meses para descobrir que ela só tinha mudado a cor do cabelo.


Tyler Bazz

Domingo, 28 de Junho de 2009

Marcela - Despertando Paixões

Por um tempo, comecei a achar que a Marcela estava sendo perseguida. Onde ela fosse, nos shoppings, nos bares, lá estava um menino com os olhos fixos nela. Me certifiquei de que não era um ataque de ciúmes meu e fui falar com a Marcela, avisar para ela ter cuidado, essas coisas...

"Sabe aquele cara ali, Má?"

"Hum..."

"Faz dias já que ele sempre aparece onde você está. Não tira os olhos de cima de você. Outro dia no cinema ele sentou bem atrás da gente..."

"É."

"Você já tinha reparado?"

"Querido... tem um menino me seguindo! Óbvio que eu reparei."

Perguntei então se ela não ficava com medo, disse para ela ter cuidado, não andar sozinha à noite. Ela estava bem tranquila, e quase conseguiu me convencer de que o cara era meio que apaixonado por ela. A Marcela, sendo ela, parecia gostar da situação.

"Ele é bonito, não é?"

"Tá brincado que você tá afim de algo?!"

"Não sei... mas eu acho ele fofo."

Como se tivesse ouvido nossa conversa, o perseguidor se aproximou de nós e abriu o coração. Disse à Marcela que ela era linda, que não conseguia tirá-la da cabeça desde a primeira vez que a viu... Os olhos dele brilhavam e a Marcela o olhava, sorrindo. Ela então respirou, pegou na minha mão e disparou contra o garoto:

"Você é louco, menino? Não tá vendo que eu tenho namorado? Ridículo! Nunca que eu ia querer nada com alguém igual você! Agora vê se para de me perseguir antes que eu chame a polícia!"

O rosto do menino ficou vermelho e ele saiu andando rápido, quase em desespero; eu fiquei com a já conhecida cara de quem não entendeu nada, mas não estava surpreso; a Marcela soltou imediatamente minha mão e levantou, quase rindo: "Quero comer pizza, vamos?"


Tyler Bazz

Domingo, 21 de Junho de 2009

Hotel Quiroga

agradecimentos ao Bonaldi e ao Danilo,
que participaram de todo o nonsense.


O Hotel Quiroga oferece o melhor e mais privado ambiente para sua morte.

Localizado no bairro mais perigoso da cidade, o Hotel Quiroga é de difícil acesso, e em momento algum pode-se garantir que você chegue ao local em segurança, sem ser atingido por uma bala perdida ou envolver-se em um capotamento.

Os funcionários do Hotel Quiroga andam todos armados e são conhecidos por sua falta de senso de humor e pavio curto. Qualquer comentário pode ser interpretado como extremamente ofensivo. Além disso, mantemos programas de recrutamento em presídios de segurança máxima e manicômios, sempre buscando excelência em nosso staff.

Nossa cozinha conta com facas, cutelos e outros objetos perfurantes, além de um vasto cardápio que atende a todos os tipos de alergia (também oferecemos pacotes sem refeições ou qualquer tipo de alimentação incluída).

As suítes são nosso grande diferencial, com fios desencapados e pregos enferrujados por todo o lugar. No banheiro temos uma forca pronta e uma banheira ideal para afogamentos, além de navalhas e seringas que podem ser encontradas no armário. As camas são extremamente desconfortáveis, impedindo que se durma, e todo o incômodo pode chegar ao fim graças ao revólver habilmente posicionado sobre o criado-mudo. O frigobar conta com doses de cianureto e arsênico, além de garrafas de whisky e vodka, caso sua ideia seja morrer como um rockstar. Localizados sempre acima do terceiro andar, todos os quartos têm janelas grandes e convidativas, com vista para um lugar melhor.

Aceitamos reservas para todo o ano (inclusive o Natal), que podem ser feitas por telefone ou internet. Mas mantemos também quartos emergenciais disponíveis. Afinal, nunca se sabe quando um surto depressivo virá. O pagamento, por motivos óbvios, é sempre adiantado.

Nós, do Hotel Quiroga, servimos bem para servir uma vez só.
Venha e descanse em paz! (ou não, se você crê na bíblia)

Hotel Quiroga
It’s to die inn!


Tyler Bazz

(Se você não entendeu, dê uma pesquisada sobre a vida e a obra do escritor uruguaio Horácio Quiroga. É coisa da melhor qualidade.)

Sexta-feira, 12 de Junho de 2009

Um Texto Ridículo.

Would you fall in love with someone who's just like you?
He'd always thought he wouldn't.

Não se sabe exatamente quando foi que começou. Que hoje em dia, com essa história de internet, vê-se muita coisa, muito rápido, mas o que vale mesmo é o contato pessoal direto (alguém acredita nisso?). Ela diz que foi lá atrás, antes mesmo de tudo começar, será? Ele tem certeza quando foi. Já tinham avisado, "ela é bonita, você vai gostar dela". E do momento em que ele a viu, não conseguia nem queria mais deviar os olhos. E foram dias (será?) olhando, de longe.

Então o contato pessoal direto tornou-se realmente direto. Já sabiam-se os nomes, as terras natais, tudo o que precisa-se saber. Era a hora da sesta, era calor, era ela tão comunicativa e simpática que ele chegou à mais óbvia e nada paranoica das conclusões: "ela me odeia."

A certeza só se confirmou no tempo seguinte. As horas à toa banhadas em litros e litros de Coca, as reclamações sem fim, a preguiça que assusta os desavisados, tudo deixava cada vez mais claro o ódio que nascia. Era tanto ódio que chegava a criar ciúmes. (de quê mesmo?)

Eram tão, tão, tão parecidos em tudo, que ficaram ali, sem fazer nada. Mas já dizia ele (e ela, provavelmente): a beleza está na lerdeza. Há vantagem em demorar três meses para fazer o que qualquer um resolve em meia hora. Já começaram com três meses de experiência em gostar um do outro.

E se começou lento, que agora seja rápido. Porque já se sabe que é. E que é como é. E que (tomara!) é certo e vai durar até...

E ele, que sempre se achou tão chato, insuportável, quando achou uma menina tão, tão, tão parecida, se apaixonou. Tanto que todo mundo dizia que ele andava mais feliz. Se apaixonou, não por ele mesmo, nem por uma menina muito parecida com ele, mas por ela, e só por ela, do jeito que ela é.


Tyler Bazz
(e Feliz Dia dos Namorados. Não pra vocês, mas pra ela e pra mim.)
(deu pra perceber que o texto é pessoal? :D)

Segunda-feira, 8 de Junho de 2009

Previsões

Uma velhinha com cara de simpática, mas de expressão preocupada, olhou bem nos meus olhos e disse:

"Totalmente nublado, tempestades e risco de furacões."

"Previsão do tempo?", perguntei.

"Da vida", ela respondeu.

"E teremos sol no fim da tarde?"

"Não."


Tyler Bazz

Sábado, 30 de Maio de 2009

Genética

A cidade começava a acordar na quarta-feira, o sol um pouco mais fraco que no dia anterior e uma brisa discreta mexendo os galhos, quando as primeiras pessoas o notaram. Não foi outro o assunto durante a compra do pão; as crianças que iam para a escola olhavam fascinadas e quase esqueciam de andar, mas saiam correndo logo que lembravam dos avisos das mães, dizendo para não chegarem perto. Chegou-se à conclusão de que havia aparecido ali no intervalo de duas horas entre o boteco fechar e a padaria abrir, visto por ninguém. Afinal, a cidade se perguntava, por que tem um gigante na nossa praça?

Tinha um pouco mais de quatro metros de altura e um corpo enorme, forte, coberto por uma pele bastante queimada de sol. Sentado nos degraus do coreto, observava com olhos bem vivos e rosto neutro o movimento da cidade. As poucas portas de comércio se abrindo, os poucos carros passando, as pessoas indo trabalhar, todas olhando-o curiosas e meio assustadas. Disseram que devia ser o prefeito, mas ele se negou, com medo, então acabou indo o dono do mercadinho falar com o gigante.

“Bom dia”, disse, se aproximando. A resposta foi apenas um aceno de cabeça. “De onde o senhor é?”, continuou.

“Da capital”, a voz soava ainda mais forte do que o tamanho do homem sugeria. Grave, ecoante, arrepiava e fazia tremer os órgãos de quem ouvia pela primeira vez.

“E o senhor veio fazer o quê aqui? Está procurando alguém?”

“Só vim visitar”, tudo que o gigante dizia ganhava um tom ameaçador, como se a qualquer momento ele fosse se levantar e destruir a cidade.

O que se viu nos dias seguintes, no entanto, foi a boa e velha queda de preconceitos. O gigante mostrou-se amável, generoso, prestativo, e rapidamente se tornou parte da rotina da cidadezinha. Até dispensaram o carro de bombeiros que haviam pedido da cidade vizinha no primeiro dia. Ajudava no que podia, e em troca davam-lhe comida e boa conversa. Tirava frutas e gatos do alto das árvores, trocava as lâmpadas dos postes, pintava as poucas fachadas do comércio... passava o tempo livre sentado nos mesmos degraus do coreto, sob o sol, olhando o pouco movimento. Certo dia o padre da cidade levou-lhe uma bíblia; o gigante até tentou ler, mas suas mãos enormes acabaram rasgando aquelas páginas tão finas. Apesar de ter se desculpado várias vezes, o padre nunca mais voltou a falar com ele. Às vezes o gigante sumia por dois ou três dias. Voltava sempre com um aspecto exausto, os pés enormes sujos de terra, os grossos cabelos pretos endurecidos de suor. Apesar da aparência cansada, nunca cheirava mal.

Mas essa história precisa ir a algum lugar, e o gigante se apaixonou.

Foi pela moça mais bonita da cidade, que todos os dias atravessava a praça com seu sorriso e seus olhos verdes e aquelas sardas quase invisíveis que encantavam tanto o gigante. Ele olhava e suspirava toda vez que a via; seguia-a com os olhos o tempo todo, imaginava poemas para ela, e dedicava mentalmente todas as músicas bonitas que conhecia. Numa manhã de sol, apareceu em frente à casa da moça um galho de ipê totalmente florido – mesmo sem cartão, todos sabiam de quem era o presente. A cidade comentava. A moça foi pisando duro até o gigante, que com um olhar doce e esperançoso se declarou. Ela não reagiu bem; pelo contrário. Humilhou o gigante na frente de todos, disse-lhe que ele era louco por sonhar que ela pudesse um dia se relacionar com aquela... aberração!

O gigante saiu da cidade correndo, envergonhado. Toda a cidade – quase toda – reprovou a atitude da moça. Naquela noite choveu muito, e os zeladores da escola viram que o gigante se protegia sob a cobertura da quadra de esportes. A mulher do zelador levou para ele um bom prato de comida, e jurou depois que os olhos do gigante pareciam inchados de tanto chorar.

A manhã seguinte começou nublada e, na quadra de esportes, não havia nada além do prato vazio e uma pequena flor amarela; nem sinal do gigante. Os dias passavam e ele continuava desaparecido, até que chegou à cidade um cartão-postal de uma cidade nos Andes, com o gigante agradecendo a todos pela hospitalidade e explicando que precisou de uma mudança de ares.

Um mês depois, a moça se casou com o filho do vice-prefeito, e a vida da cidade seguiu por algum tempo sem grandes eventos, pacata como sempre havia sido. Quase não se falava no antigo hóspede. Só lembraram mesmo do gigante quando, oito meses após sua partida, a tal moça morreu. Foi durante o trabalho de parto, do qual nasceu um bebê de oitenta centímetros.


Tyler Bazz

Sábado, 16 de Maio de 2009

Não tenho um título pra essa.

Duas amigas que não se viam há coisa de quatro dias se encontram:

"Miii! Que saudade! Como você tá?"

"Ai, tô gorda..."

"Eu também."

E o fato é que estavam mesmo.


Tyler Bazz

Sábado, 9 de Maio de 2009

Espinhos.

Tinham todas as manhãs uma mesma rotina. Não daquelas maçantes que viram desculpas para traição, mas sim uma daquelas que fazem bem a quem participa, aquela que faz falta se um dia não acontece.

Ele acordava mais cedo que ela, sempre, não importava o horário. Tomava banho, ligava a cafeteira, ia até a padaria e voltava. Levava o café para ela na cama, todos os dias; o café, algo para comer, que sempre variava, e uma rosa, às vezes vermelha, outras amarela, outras cor-de-rosa, mas sempre uma rosa. Ela sorria, beijava-o e dizia que o amava. Assim começavam todos os dias.

Eram uma espécie de casal perfeito, que vivia em harmonia... perfeita, em todos os aspectos. Gostavam dos mesmos filmes e dos mesmos amigos, ouviam o mesmo tipo de música, tinham a mesma opinião sobre livros e autores. Nada de pequenas brigas, que só fazem bem a quem esquece rápido porque sente pouco. Causavam inveja em todo mundo que os visse juntos. E na cama também pareciam ter sido desenhados um para o outro.

Tão grande era a sintonia dos dois que ele não entendeu nada quando, com os olhos cheios de lágrimas, ela resolveu terminar tudo. Foram horas de choro, pedidos de explicação sem resposta... ela garantiu que nada podia ser feito, que aquele era o fim. Então ele exigiu.

"Você não vai simplesmente chegar e terminar tudo. Eu preciso pelo menos saber porque está sendo assim."

"É que...", ela soluçava, "eu detesto rosas."


Tyler Bazz

Sábado, 2 de Maio de 2009

Marcela - Questão de (res)peito.

Marcela tinha peitos grandes. Não imensos, daqueles que desfiguram o corpo; mas, em sua magreza, Marcela tinha dois peitos perfeitamente grandes. Marcela tinha peitos grandes e sabia usá-los em seu favor, como tantas fazem, mas não gostava muito disso.

Esse assunto surgiu numa tranquila noite de sexta, quando a Marcela e eu saímos com uma conhecida nossa. Lê, a tal menina, também tinha peitos grandes, e adorava usá-los em seu favor. "É coisa de juvenil", disse a Marcela, "já passei dessa fase." Ao ouvir isso, o chopp desceu mais gostoso pela minha garganta, pois eu sabia que aquilo não ia parar por ali. A Lê, que era quase um ano mais velha que a Marcela, protestou, discutiu, não aceitou muito bem.

Minha testosterona estava em nível altíssimo. Sendo o único homem por perto, eu mal podia esperar pelo momento em que elas decidiriam que eu é quem deveria julgar seja-lá-o-que-fosse, e então eu veria os peitos da Marcela (não seria a primeira, nem a segunda vez), e os peitos da Lê (o que faria a Marcela surtar de algum jeito).

É claro que, para minha desgraça, esse momento nunca chegou. Para minha desgraça ainda maior, elas se lembraram de uma festa que rolava na cidade aquela noite, cujos convites haviam se esgotado um mês antes, e resolveram que seria lá que testariam seus métodos bústicos.

Chegamos os três à entrada da festa e paramos em frente ao segurança. A Lê, com os peitos morenos quase pulando pra fora do decote, sorriu e pediu com voz melosa se podia entrar, chegou até a encostar os peitões no cara que, babando, disse sim. O olhar da Lê para a Marcela quase me fez rir, mas eu morreria ali mesmo. Foi quando Marcela, bem calma, tirou do bolso uma nota de cinquenta e, enquanto colocava-a dentro do bolso do paletó do segurança, perguntou, séria: "Posso entrar?", entrou.

"Teve que gastar cinquentinha", Lê se gabava.

"É", respondeu a Marcela. "Mas ele ainda me respeita." E as duas continuaram a discussão dentro da festa.

Eu? Eu adoraria saber o que aconteceu depois, mas fui pra casa. Não tinha dinheiro nem peitos grandes.


Tyler Bazz

Sábado, 25 de Abril de 2009

Curta História de Franclin

Franclin - assim escrito na certidão de nascimento - era um menininho de sete anos, preto, pobre e sem pai, que queria ser rapper. Mal pensava em outra coisa, e era quase impossível alguém trocar mais de três palavras com ele sem ouvir: "eu quero fazer rap!"

Andava para cima e para baixo pela favela, só com gente mais velha, com os rimadores do morro, de quem era fã, e vivia tentando arranjar as poucas palavras que conhecia em verso. "Eu quero fazer rap!", falou para um antigo morador da favela, que visitava os antigos amigos após gravar seu primeiro cd. O menininho tinha futuro, disseram os amigos do quase-famoso rapper, e garantiram que ainda se ouviria muito do Franclin se ele não tomasse nenhum rumo errado nessa vida.

Numa tarde bem quente, enquanto Franclin e outras crianças chutavam bola na rua, ouviram-se tiros vindo do alto do morro e logo depois a sirene do carro de polícia, que entrou rápido demais. O menino foi atingido em cheio e morreu na hora.

Poucos minutos depois, um carro de repórter se enfiava devagar no tumulto. A moça se aproximou do pequeno corpo e da poça de sangue. "Eu vou tentar falar com esse menininho aqui, ao vivo. O carro da polícia pegou seu amiguinho? Como você chama?"

Os olhos da criança, ao ver o microfone, brilharam. O menino esqueceu os tiros, as sirenes, o coleguinha morto, e respondeu: "É Franclin. Eu quero fazer rap!"


Tyler Bazz

Terça-feira, 14 de Abril de 2009

poeminho de hoje

A chuva cai forte lá fora, mas
Não tem raios, nem trovões, só
Aqui dentro.


Tyler Bazz, o offline

Sábado, 28 de Fevereiro de 2009

Auto-conhecimento.

E ali, no alto do prédio de vinte andares, enxugava as últimas lágrimas, que corriam não por um motivo único e forte, mas pelo conjunto da obra, o encadeamento de fatos infelizes e sonhos não realizados em que sua vida havia se transformado. Como as coisas chegaram aquele ponto? Não sabia, há muito tempo não sabia de mais nada.


Muita gente achava exagero, acusavam-no de viver uma ótima vida e só reclamar à toa. Ninguém sabe de nada, pensou, puxando como exemplo a conversa ao telefone de poucos minutos antes, quando a mãe ligou para, mais uma vez, questionar o que ele andava fazendo com a própria vida. Já parou de fumar?, ela perguntava como se fosse essa a solução para tudo. Você precisa é arrumar uma namorada, uma esposa, quem sabe assim toma jeito na vida. Mas com esse cheiro de cigarro fica difícil até alguém falar com você. Também já passou da hora de procurar um trabalho melhor, e depois mudar de apartamento, que moça nenhuma vai querer casar e morar nesse apartamento velho com um atendente de loja de ferramentas.


O maldito emprego, lembrou, olhando as estrelas que insistiam em aparecer por trás das nuvens. Trabalhava muito, ganhava pouco, e tinha que aturar o chefe, que pensava ser o rei do mundo, dono da verdade, sabe-tudo, mas nem mesmo era capaz de perceber os chifres que a esposa gostosa lhe colocava. Tinha vontade de bater nele até não aguentar mais, sentir o cheiro de sangue sair do rosto gordo do chefe, mas o azar era tanto que o homem era do tamanho de uma kombi. O filho da puta levaria uns três dias para tomar uma atitude quanto ao sumiço do empregado. Quando ligassem para saber o que se passava, já estaria podre.


Bebeu o último gole do último café, encarou o fundo da caneca e quando viu, já pensava nela. Ela, sempre tem que ter uma. Ela, a real razão de tudo aquilo, o maior de todos os problemas, a pior das dores. Lembrou de quando se conheceram, na escola, com onze ou dez anos de idade, e de como cresceram juntos e dividiram o primeiro beijo, e a primeira sessão de cinema, e a nervosa primeira vez na cama, e tudo. E lembrou como era boa a vida com ela, e como tudo teria saído bem melhor se as coisas acontecessem como ele queria, e não como ela decidiu. Ela fez dezoito anos numa sexta-feira, ainda lembrava, e no domingo, soluçando lágrimas que deviam ser falsas, comunicou que estava se mudando, que ia fazer aquela faculdade que ele nunca nem pensou em fazer, e que não queria ficar presa ao passado, que era ele. Então ela foi embora, e absolutamente mais nada deu certo nos três anos seguintes, levando a história para ali, no alto do prédio de vinte andares.


Queria ter escrito pelo menos uma carta pra ela, pensou, enquanto se levantava e jogava para o lado a caneca, que explodiu em cacos. Não escreveu porque sabia que, se escrevesse, desistiria, e não queria de jeito nenhum desistir, não podia desistir. Caminhou decidido até a beirada do telhado, olhou mais uma vez o céu, tentou não olhar para o chão, o próximo destino, mas não conseguiu e encarou com firmeza a calçada vazia. Fechou os olhos e pulou. Pulou e descobriu: podia voar.



Tyler Bazz
(recebi uns três ou quatro selos desde que a vida offline começou, agradeço imenso e prometo que, quando voltar de vez, posto os selos com os respectivos remetentes e destinatários ;P)

Domingo, 1 de Fevereiro de 2009

Cinema Independente

Nota de suicídio deixada pelo senhor Pedro H. Silva, 48 anos: "Há pouco mais de dez dias sofri um acidente que me deixou à beira da morte. Toda minha vida passou diante dos meus olhos, e o filme era chato demais".

Tyler Bazz (que continua sem internet, e sem previsão de volta)

Quarta-feira, 21 de Janeiro de 2009

A Declaração de Amor

Cinco minutos, eu tinha, em contagem regressiva. Não sabia nem por onde começar, mas sabia que tinha que fazer, dizer. A situação, obviamente, não ajudava: nós dois, amarrados, no meio do nada, de frente um para o outro, nervosos, desesperados, a bomba cuidadosamente colocada entre nossos umbigos. O tempo passava e ela se agarrava com mais e mais força a mim, talvez desejando que eu tivesse algo que não tenho, ou que eu surgisse com uma manobra miraculosa que nos salvaria. Esse não era eu, ela era assim. Por dez anos corremos para cima e para baixo pelo mundo, lidando com gente da pior espécie, fazendo negócios de moral duvidosa, quebrando regras e acreditando em nossa própria justiça; eu tinha o cérebro e algum charme, o que ajudava; ela tinha o cérebro, o charme, a força, a beleza, o corpo, o cheiro, tudo. É claro, é óbvio, é ridículo e adolescente: me apaixonei por ela, e nunca disse nada a respeito. Agora, enquanto nossos últimos minutos corriam, ela chorava e eu tremia, a única coisa em minha cabeça era como eu poderia dizer a ela tudo que senti, e qual seria sua reação. Com sorte, terminaríamos num beijo lindo, que culminaria com nossos corpos pelos ares e nossas almas de mãos dadas na porta do inferno. Eu não disse nada; só a abracei, senti suas lágrimas em meu rosto, e disse que tudo ficaria bem. Clichê? Clássico. Cinco minutos, eu tive. A bomba? A bomba explodiu.

Tyler Bazz

Sexta-feira, 16 de Janeiro de 2009

Tricot

D. Maria tricotava. Tricotava muito. Eram cachecóis, casaquinhos, pulôvers, luvas, sapatinhos de bebê, mantinhas, de tudo! Por várias horas do dia, lá estava ela, na cadeira de varanda, o fio de lã passado por trás do pescoço, as longas agulhas passeando entre dedos. O chato é que, onde D. Maria morava, nunca fazia frio.

Tyler Bazz

Terça-feira, 13 de Janeiro de 2009

Crônica de uma Morte Irritante

Era sexta-feira e Rafael entrou no bar com uma boa vontade que nem ele esperava. Há tempos não tinha uma semana tão ruim: o namoro recém-terminado ainda causava danos (principalmente porque a Lilian insistia em procurá-lo); o trabalho continuava uma merda, pagando pouco e estressando muito; em casa as coisas também não agradavam, como sempre. Relutou um pouco quando a Silvinha chamou, mas cedeu, afinal ele precisava se divertir um pouco, e gostava tanto dela que não conseguiria dizer não dessa vez.

Ela já estava lá, sempre numa mesa cheia de gente. Rafael reconheceu duas outras meninas, tinha ainda mais uma que ele não conhecia, e dois ou três meninos que ele não se lembrava de ter visto antes. Se juntou ao pessoal da mesa e estava até se divertindo, menos quando um dos caras resolvia falar com ele.

Era um puta mala, o menino. Encanou com o Rafael e não saía de perto; só falava de coisa chata, alto demais, rindo demais. Tentando não ver a noite ir pelo ralo, Rafael tentava se afastar, conversar com outra pessoa, e começou a ser o mais seco que podia com o chato. Não adiantou muita coisa, ele não se tocava. Quando o menino estragou o jogo de sinuca e furou o olho de um amigo, Rafael percebeu que não era só ele quem não suportava mais.

Mesmo assim, não queria briga e não tomou atitude nenhuma. A cerveja foi ficando menos gelada, a música foi parando de agradar, nem mesmo os sorrisos da Silvinha pareciam mais valer a pena. Rafael foi ficando cada vez mais quieto, cada vez mais ranzinza.

"Eu vou indo já", disse à Silvinha após uma meia-hora de paciência esgotada. Ela tentou persuadi-lo a ficar, mas ele acabou vencendo. "Ah, então tá, querido.. tchau", abraçou-o e, durante o abraço, ouviram a voz do mala. "Tá indo já cara? Onde você mora?"; Rafael respondeu; "É perto de casa! Me dá uma carona?"; Rafael respirou fundo, Silvinha olhava-o, seu rosto se desculpava. Saíram juntos do bar, Rafael e o mala.

No caminho, pouca coisa mudou, parecia uma cena única, de poucos segundos, repetida várias vezes. O mala fazia algum comentário idiota e ria histericamente em seguida, Rafael dava uma resposta curta, grossa e sem graça, ou apenas grunhia qualquer coisa, ou não falava nada. No entanto, certo de que o pesadelo se aproximava do fim, seus músculos começavam a relaxar, e ele já se sentia até mesmo capaz de sorrir. Foi quando o pneu do carro furou.

"Inferno!", gritava Rafael enquanto descia para ver o estrago, "inferno! inferno! inferno!" O mala achou graça, disse para o 'amigo' ficar calmo, blablablá, Rafael nem ouviu. Foi até o porta-malas, puxou o estepe com raiva, decidiu não usar o triângulo luminoso. Não precisava, a rua era deserta. Sentou-se próximo ao pneu furado e esbravejou mais uma vez. "Pega a chave-de-roda ali atrás pra mim."

O mala pegou a ferramenta, pensando que Rafael podia ter pelo menos dito "por favor", andou devagar até o dono do carro, que olhava para o pneu, murchos. "Cara, você é muito chato", disse, e a chave-de-roda desceu algumas vezes na cabeça e nas costas de Rafael.

Tyler Bazz

Sexta-feira, 9 de Janeiro de 2009

Marcela - Utopia.

Marcela e eu, altamente envolvidos em uma das nossas discussões que, quase sempre, não levavam a lugar algum:

"E não me vem falar de utopia, que você não sabe nada de utopia!"

"Claro que sei, Má... é-", ela interrompeu, claro.

"Dá um exemplo, então."

"Ok, deixa eu ver... bancos. Como é pagar uma conta em um banco? Eu vou até a agência, entro, passo pelos caixas eletrônicos e vou até a porta da agência propriamente dita, aquela que é fechada às quatro. O ar-condicionado ainda não fez efeito e uma gota de suor desce pelo meu rosto. Eu vejo a fila, penso que não deve demorar demais, e começo ir em direção a ela quando sou parado por um funcionário do banco. Ele pergunta o que é, eu respondo, ele diz que eu posso pagar nos correios, numa lotérica, na megaloja ao lado e até no caixa do supermercado. Eu agradeço e continuo até a fila. Pego minha senha; dizem que só posso ficar quinze minutos na fila, mentira. Logo vem uma mocinha do banco, de prancheta na mão, mesma ladainha: ela pergunta o que é, eu respondo, ela me oferece dezoito opções de lugares com filas maiores onde eu posso pagar minha conta. Eu escolhi pagar ali, no banco, será que eu posso? Depois de um tempo na fila eu sou atendido em cinco minutos por um cara feio, de cara feia, e vou embora.

A utopia seria o quê? Seria como? Bem mais simples. Eu entro no banco, sem suar porque não faz calor, e sou recebido por uma atendente linda, simpática, sorridente, que me encaminha imediatamente para o setor de clientes especiais. Lá, sou atendido por outra mulher linda, com um belo decote, que resolve tudo em trinta segundos, depois me convida para um café na área vip da agência. Fim"

"Isso não é utopia, besta. É só uma melhoria. É difícil, certo, mas eles poderiam implantar tal sistema."

"Ah, sim, claro. Eu tô errado, sempre."

"Nem sempre. Quase sempre", ela dizia isso com um sorriso tão lindo que acabava soando como elogio.

"Vai, então, explica aí o que é utopia."

"Utopia seria se você, meu melhor amigo, além de ser essa gracinha que é, e bom de cama, como ouvi por aí, tivesse um pinto enorme e fosse absurdamente atraente, gostoso, sexy, sabe?"

"Pode não ser utopia, Má. Se dizem que sou bom de cama, não vai ser uma decepção; você pode conferir o tamanho do pinto, ué."

"Ok, pode até ser grande. Mas é utopia, porque pra eu comprovar o tamanho, eu teria que ter um mínimo de vontade. Utopia."

Tyler Bazz

Quinta-feira, 8 de Janeiro de 2009

03 anos?! Já come de garfo e faca???

08 de janeiro de 1935, nasce Elvis Presley.


08 de janeiro de 1947, nasce David Bowie.

08 de janeiro de 2006, nasce o blog do Tyler.

*** 3 anos!!! ***

Agradecemos a todos os leitores: os que comentam, os que não comentam, os que vêm sempre, os que vêm às vezes, os que gostam, os que criticam, e até mesmo os que odeiam o autor e vêm só pra ter o que falar.

:)

Tyler Bazz


* o título todo criativo na verdade é um plágio. hehehehe

Sábado, 3 de Janeiro de 2009

O cliente quase perde a razão.

Entrei no primeiro bar que encontrei no centro da cidade, entre uma farmácia e uma loja de artigos para cozinha, o suor escorrendo pelos cabelos e a camiseta já úmida, devido ao sol do meio-dia. Era um lugar apertado, não tinha nem cinco metros de largura, mas alongava-se bastante para o fundo; à esquerda, um balcão em 'L' que lá no fim se fechava, com o caixa; à direita, uma fila de mesas encostadas à parede. Decidi sentar no balcão, perto da porta, com as costas para a rua.

Sentei-me num banquinho manco, apoiei o braço esquerdo no balcão, e já tirava a mochila das costas para também colocá-la ali quando o reflexo da luz me fez mudar de idéia. O lugar não via um pano com Veja havia já uns oito anos. O braço quase não desgrudou do balcão, mas com algum esforço consegui puxá-lo. Olhei; ao lado dos porta-guardanapos cor de prata, imundos, obviamente vazios ou quase, havia um pote fechado, cheio daquela coisa que um dia foi água e que hoje provavelmente corrói papel, dentro, salsichas, diziam, mas juro ter visto algo se movendo; também em cima do balcão um arame cheio de pacotes de torresmo, à venda, e um prato, provavelmente a coisa mais limpa do lugar, cheio de guimbas e palitos de fósforos queimados.

A pia estava forrada de pratos, talheres, e copos sujos, sabe-se lá a quantos dias. A moça que ali trabalhava, vestindo avental, olhava a pia tentando se convencer a começar a limpeza; estava de costas para mim. Vi sua bunda e na hora me lembrei daquele filme, nacional (se você estiver no Brasil), eu podia ficar horas olhando aquela bunda, eu me casaria com aquela bunda. Eu não queria pedir, não ligava para seus cabelos negros ou para seu jeans velho, eu só queria olhar a bunda; então, ela se virou e veio me atender. "Vai querer alguma coisa?" - Seu rosto era desagradrável; não exatamente feio, mas como se alguma coisa estivesse fora do lugar, sem que fosse possível saber o quê.

"Uma Coca", respondi, desviando o olhar de sua cara e esperando que ela se virasse para pegar a Coca, e mostrar a bunda. "Não tem Coca", respondeu, eu bufei. "Que é que tem, então?"

"Tem café, suco, cerveja conhaque pinga cachaça leite água e licor."

"Refrigerante, não tem nenhum?"

"Não senhor. Só tem café, suco, leite e bebida. Ah, e água."

Respirei fundo, estranhando o fato de as paredes estarem cheias de banners de refrigerantes, anunciando promoções. Baixei os olhos, fixei-os em lugar nenhum entre a cintura da moça e a pilha de copos sujos. O calor entrava pela porta às minhas costas, enquanto o ventilador no teto do bar empurrava rajadas de vento quente contra meu rosto. "Vai querer o quê?", ela perguntou e eu fiquei quieto. Percebi que a irritei um pouco, perguntou então outra vez, mais alto. "Ainda não decidi", respondi em voz baixa; foi quando um outro homem entroue ela foi atendê-lo. Fiquei olhando a bunda trabalhar. Ele pediu, ela abaixou - maravilha! - e serviu, geladíssima, uma garrafa de Coca.

Precisei me segurar para não voar por cima do balcão e socar a cara da menina, e logo depois pegar em sua bunda. Respirei fundo e só protestei, em voz alta o suficiente para que o bar todo ouvisse: "Você falou que não tinha Coca nenhuma!" - Ela se aproximou, sorrindo, o que tornava seu rosto ainda mais desagradável, "desculpa, é que eu não posso servir refrigerante pro senhor." Não sei o que me irritava mais, aquela palhaçada com a Coca ou ela ficar chamando alguém mais novo que ela de senhor.

"E por que não? Porra!"

"É que... é... eu não posso servir refrigerante pra pessoa de óculos. Só café, suco, bebida e água. Ah, e leite."

"Quer dizer que se eu tivesse entrado sem óculos eu tomava a Coca?"

"É", ela sorriu outra vez.

Tirei meus óculos. "Pronto, agora não tem mais óculos. Eu quero uma Coca."

"Não vai dar não", seu rosto era de alguém que queria me dar a Coca, mas que por algum motivo insano e obscuro não podia, "porque eu já sei que o senhor usa óculos."

Saí do bar puto da vida, acho até que derrubei o tal banco. Achei outro bar e tomei minha Coca, depois, passando por uma ótica, quase entrei e comprei lentes de contato. Mas não, não e não.


Tyler Bazz

Quarta-feira, 31 de Dezembro de 2008

2008

2008 acaba e fim.

Foi o ano mais produtivo aqui do blog: 78 posts, sem contar esse último.

A Marcela continuou na ativa, confundindo tudo e todos; o Louis Fernán estreou, resolvendo (ou não) mistérios e crimes da cidade de São Paulo; a Bárbara agora tem três empregos e faz faculdade (ou seja, não faz mais nada direito), mas eu é que não tenho coragem de me livrar dela; e eu.

Foi, também, um ano de experiências novas (ui!) por aqui:

Em Junho, surgiu "O Triste Fim de Carolina Villenflusser", blog multiautoral, escrito por gente de moral duvidosa, e por mim. A coisa está parada, mas eu vivo me prometendo que vou escrever algo para lá.

No fim de Julho, saímos da blogosfera e fomos encher o bucho! O que rendeu, no início de Agosto, a inovadora saga "Meeting Rob Gordon". Inovadora porque é talvez a primeira vez que uma mesma história é contada simultaneamente em dois blogs, escrita por dois autores, cada um escrevendo sua versão à sua maneira. Enquanto eu contava as coisas por aqui, o Rob comandava a "Meeting Tyler Bazz" no Champ.

Em Outubro, declarações de amor bonitinhas me mostraram que eu tenho leitores que nunca imaginei que tinha; e acabou que eu saí ganhando. No mesmo mês, dois textos meus ganharam versões em papel, na revista literária da faculdade, enchendo todo mundo eu de orgulho.

Novembro também me deixou orgulhosinho, pois fui convidado a ser um dos autores do Diários Roubados, mostrando pra todo mundo o que se passa em algumas páginas de diários por aí. Blog bom, de gente boa! Podem ler.

2008 veio e passou rápido.
E 2009 chegou. O "blog do Tyler" chega logo no início do ano ao terceiro aniversário, e é tudo isso que eu sei.

Aos amigos, feliz ano novo! Que as coisas dêem certo pra vocês.
Aos inimigos, morram. Lenta e dolorosamente.

Tyler Bazz