quinta-feira, 2 de março de 2017

Cinco histórias de seis palavras (sobre os sentidos)


Audição: a Filarmônica não lhe emocionava.

     * * *

Olfato: nariz em pé, perfume falsificado.

     * * *

Paladar: sem sal, mesmo assim, cardíaco.

     * * *

Tato: pretenso Midas, Medusa do toque.

     * * *

Visão: míope, daltônico e ainda conservador.



Tyler Bazz

quarta-feira, 18 de janeiro de 2017

A última parada



As batidas na porta de casa aumentavam em frequência e intensidade, como os raios e trovões distantes que eu observava pela janela. Em cidades muito grandes – e poucas são maiores que a minha –, sempre fico imaginando onde é a chuva quando começo a ver relâmpagos. Em um bairro pode cair o mundo, enquanto em outro está nublado e num terceiro pode até fazer sol.

Três dias antes, eu estava em uma cidade tão pequena que qualquer chuva banharia seus quatro cantos ao mesmo tempo. Cheguei à hospedaria, que se anunciava como hotel e deve ser o menor que já vi, um sobrado com três suítes no andar de cima, a sala no andar de baixo funcionando como recepção e a cozinha indisponível para hóspedes. Ocupei o maior dos dois quartos com vista para a rua, não havia outro cliente. O cômodo tinha um banheiro simples e limpo, um armário pequeno – que abri com cuidado redobrado ao guardar a mochila – uma cama de casal e uma escrivaninha com cadeira em estilo antigo, onde passei um par de horas concentrado, traçando possíveis planos a lápis em papel de rascunho. Era isso que tinha feito durante boa parte do meu tempo acordado nesses últimos dias. Eu precisava me distrair.

Rasguei os papéis de rascunho, queimei com um isqueiro e joguei as cinzas pela descarga. O dia ainda estava claro, embora o relógio já indicasse noite, e saí em busca de uma cerveja. Andei até uma ponta da cidade e não achei nenhum tipo de comércio aberto, bar, nada, e com a perspectiva de não encontrar uma cerveja que fosse, comecei a ser tomado por uma preocupação que poderia ser vista como desproporcional, considerando minha situação.

A preocupação, porém, só aumentou meu alívio quando vi, já perto do canto oposto da cidade, um bar pequeno, com decoração que tentava se passar por moderna e mesinhas redondas na calçada. Fazia parte do segundo e maior hotel dali – este, numa casa de três andares! Me sentei do lado de fora, pedi um chope para a senhora simpática que cuidava tanto do bar quanto da recepção do hotel e tentei relaxar enquanto o sol se aproximava lentamente do horizonte.

O relaxamento durou pouco. Na metade da bebida, um táxi virou a esquina e veio em minha direção. Desloquei um pouco o corpo para fora da mesa e segurei firme o copo de vidro, por via das dúvidas. Também durou pouco minha tensão. Uma garota que não devia ter muito mais que vinte anos desceu do carro. Usava uma camiseta que dizia “Really good at bad decisions” e, enquanto entrava no hotel, me olhou como se estivesse pronta para tomar mais uma.

Eu poderia dizer que não me lembrava da última vez que tinha visto uma mulher tão linda, mas seria apenas força de expressão. Eu sabia cada detalhe, quando, onde, quem. Quando você perde tudo, fica difícil se esquecer das últimas vezes.

Pouco tempo depois ela saiu do hotel e parou na calçada por alguns segundos, observando a queda tardia da noite, antes de ir até a mesa onde eu estava e oferecer companhia. Aceitei e estava pronto para perguntar o que beberíamos quando a dona do hotel nos trouxe duas taças de vinho, que ela já havia pedido. De todos os planos que eu andava traçando em papel de rascunho, nenhum deles envolvia me apaixonar por alguém, nem mesmo me deixar encantar, mas ela já começava dificultando muito as coisas.

“E o que te traz aqui?”, perguntei, depois de nos apresentarmos.

Ela respirou fundo e bebeu um gole antes de responder: “Eu estive aqui por uns dias, três anos atrás. Aí quando as coisas não estão muito boas, ou sempre que eu posso, eu volto pra tentar viver um pouco daquela felicidade. Eu tenho lembranças muito boas daqui.”

Era mentira, eu sabia. Já tinha usado uma versão muito parecida da história em vários hotéis, hostels e cafés pelo mundo. É o tipo de coisa que você diz quando quer pegar alguém – porque se você convence a pessoa de que um lugar é especial para você, cheio de memórias felizes, e então convida essa pessoa para fazer parte da sua vida, do seu dia ou da sua noite, misturando-se com todas as boas lembranças do lugar, não costumam resistir. Aquele era o tipo de mentira que me deixava feliz.

“E você?”, ela perguntou.

“Exatamente a mesma coisa!”, respondi, com os olhos arregalados.

Ela riu e eu fiquei feliz outra vez.

“Meu carro quebrou aqui perto”, menti. “Tem conserto, mas só amanhã.”

“Que saco, hein?”

“Achei que seria pior.”

A cidadezinha ficava belíssima com as luzes acesas à noite. Havia dias que eu não ficava tão tranquilo, apesar da apreensão que percorria meu corpo cada vez que alguém passava pela rua, ou quando a outra mesa da calçada foi ocupada por três pessoas que demoraram a me convencer de que eram inofensivas. Com o tempo, relaxei de verdade. O vinho ajudou, a conversa e minha companhia também, e algumas taças e várias mentiras depois, subimos para o quarto dela.

Horas depois, eu me vestia e ela fumava um cigarro nua na cama, soltando a fumaça pela janela aberta, por onde entrava uma brisa com cheiro de chuva.

“Tyler...”, ela disse.

Se você está sozinho com uma pessoa e ela usa seu nome antes de dizer algo, em vez de simplesmente dizer, sempre é importante. Por isso nós temos essa sensação estranha quando nos chamam pelo nome. No meu caso, porém, a sensação foi bem pior que estranha. Quando ouvi meu nome verdadeiro, e não o que tinha dito a ela, minhas pernas perderam a firmeza, o suor ficou gelado sobre minha pele e eu me senti muito, muito mal. Tinha certeza de que as notícias não seriam nada boas. Eu queria mais vinho, precisava, até, mas não beberia se tivesse algum no quarto. Respirei fundo e estendi a mão pedindo um cigarro, não fazia mais sentido tentar parar.

“Já sabem?”, perguntei.

“Estão vindo atrás de você, e a ordem é não te deixar vivo.”

“E você?”

“Eu fiz uma puta cagada.”

Cruzei a pequena cidade com atenção triplicada e máximo cuidado ao dobrar cada esquina e passar por cada árvore, poste ou lugar escuro. Entrei no hotel pelos fundos, sem ser percebido por ninguém, e arrumei minhas coisas o mais rápido que pude. Fechei a janela e passei o que restava da noite sentado na cadeira, sem tirar os olhos da porta.

Antes de amanhecer, embarcava no primeiro ônibus. Ainda pegaria mais um para chegar a um dos últimos lugares onde me procurariam, acreditava eu. Minha cidade grande, enorme, com seus vários climas ao mesmo tempo.

Se era para ficar em perigo, eu ficaria em casa.


Tyler Bazz

sexta-feira, 9 de setembro de 2016

Luzes

O celular vibrou no bolso de dentro da minha jaqueta e eu fingi que não era comigo. Ainda estava puto com ele por causa das notícias que tinha recebido mais cedo. Ele, o celular. Tenho certeza de que eu não sou o único que faz isso, associar sentimentos e acontecimentos a objetos e lugares e comidas. Sorte de quem não faz. E foi meio por isso, meio por burrice que, dez minutos antes de o celular me deixar puto, eu fui parar naquele bar que cheirava a fritura e pedi uma taça de vinho que custava mais do que deveria. Não que eu entenda alguma coisa de vinhos, mas eu sei que quando pago o que paguei pela taça, o vinho costuma ter um gosto melhor. Essa é uma das coisas que boas lembranças provocam, elas fazem a gente gastar dinheiro em tentativas ridículas de recordar ou reviver qualquer coisa, por menor que seja, de uma época, um evento, uma noite especial. O meu gasto desnecessário era para lembrar a sensação de estar no centro das atenções de alguém por algumas horas, esse tipo de coisa que faz a gente se sentir interessante.

Minha tentativa envolvia beber sozinho num bar praticamente vazio e frequentado por gente de quem eu não queria atenção nenhuma, mas isso não vem ao caso.

E eu não queria de fato reviver o que tinha acontecido. Mas eu estava tendo um dia difícil, a data trazia memórias demais à cabeça.

Meses antes, na noite com as sensações das quais eu queria me lembrar, ela e eu chegamos ali já meio bêbados. Eu mais que ela, desconfio até hoje. Fomos pela comida, um clássico, barato e que “não fica muito melhor que isso”. O vinho, apesar de não ser a harmonização ideal, por assim dizer, foi escolhido porque queríamos tirar a dúvida de tantas noites: é vinho depois de cerveja ou cerveja depois de vinho que te deixa mal? Não chegamos a nenhuma conclusão, esquecemos o assunto antes mesmo de a primeira taça acabar.

O celular vibrou outra vez, agora, insistindo. Atendi depois de ver quem era.

“É dois mil e dezesseis. Você é a única pessoa que ainda liga pra falar com alguém.”

“E uma das poucas que conseguem falar com quem quer, quando quer”, o João respondeu.

“Justo”, aceitei, enquanto pagava a conta com uma nota de vinte e deixava o troco para trás.

“Fala.”

“Onde você tá?”

“Tomando uma, na Augusta.”

“Boa. A gente tá indo pro Central. Passamos aí em três.”

“Cara, eu não sei se vai rolar.”

“Vai rolar sim.”

“Tá frio, tá chovendo e...”

“Eu não vou deixar você não ir. Eu sei que dia é hoje.”

O reflexo dos sinais de trânsito no chão molhado era bonito e me deixou um pouco menos deprimido. Uma onda de quase otimismo passou por mim. Talvez a noite acabasse melhor do que eu esperava, talvez eu não precisasse me sentir tão mal. Perceber que alguém se importava comigo o suficiente para ligar numa sexta à noite, naquela sexta à noite, e me obrigar a não ficar sozinho e triste chegou a me comover. Deixei de resistir e fui.


Era cedo e a entrada estava tranquila no Central, sem filas. Paulo, o segurança, perguntou como estávamos e jogou um pouco de conversa fora. Nós entrávamos sem ser revistados, um privilégio de poucos, mas que não fazia diferença alguma. Marina, a hostess, não me reconheceu, nem nos deu qualquer tipo de tratamento especial. O atendente do bar acenou assim que nos viu entrar, estendeu a cerveja quando cheguei ao balcão e me cumprimentou enquanto tomava o número da comanda.

Amigo do segurança, amigo do cara do bar, completamente ignorado pela hostess. Talvez isso seja um ótimo retrato de como andava minha relação com as mulheres.

Mas, em minha defesa, não é todo mundo que conversa com o segurança da balada, que só ouve a voz de muita gente em forma de desaforo. Não é todo mundo que passa boa parte da noite, toda semana, com os cotovelos apoiados no balcão do bar. Já a hostess tem que aturar, de cada homem que passa por ela, uma frase desnecessária, um sorriso ensaiado, um olhar longo demais. Ela precisa filtrar, bloquear e ignorar até mesmo quem frequenta o lugar mais do que deveria – o nosso caso. E mesmo que não fosse esse o motivo, quem vai dizer que ela é obrigada a fazer mais que seu trabalho?

Depois de um brinde discreto e mudo, João e eu fomos para a pista. Um dos motivos para frequentarmos tanto o Central era a música, que variava entre noites e também na mesma noite, cobrindo boa parte de tudo o que gostávamos e às vezes saindo um pouco do que a gente costumava ouvir. Som novo, fora da nossa zona de conforto.

Zona de conforto musical. Meu Deus.

O DJ, um semiconhecido meu, acenou com a cabeça quando passei por ele. Ninguém mais pareceu me notar ali, o que é algo entre um bom e um mau sinal quando se está numa pista de dança. O João encontrou um amigo, acompanhado de mais três ou quatro pessoas (eu nem sempre sabia quem estava no grupo e quem só estava por perto). Fomos até eles.

“Oi, prazer, tudo bem?...” etc., eu não ouvia o nome de ninguém, mas isso ainda conta como conhecer gente nova, certo? Espero que sim. Mas nem dois minutos depois eu já estava em silêncio, rodeado de pessoas dispostas a conversar. Esse é um problema de conhecer gente nova, para mim, eu nunca tenho algo interessante para dizer, então fico quieto. Talvez, se falasse coisas interessantes, eu não começaria noites de sexta pagando caro demais em vinhos e sonhando com o passado.

Quando ela foi embora, essa foi uma das poucas e vagas coisas que me disse, que eu não falava muito, que era quieto demais, que a gente quase não conversava. E talvez hoje ela esteja com um locutor de rádio, ou um desses caras que não param de falar nunca, monopolizam todas as conversas, convencidos de que o mundo gira a seu redor e de que é um privilégio que possam ouvi-los, mesmo que os ouvidos das pessoas ao redor comecem a sangrar. Seu típico Dean Moriarty. Sempre tive a impressão de que as pessoas dizem querer um bom ouvinte, até encontrarem um. Mas é assim o ditado, “cuidado com o que deseja”, certo?

O DJ tocou uma música dos Stones e eu comecei a dançar, ainda tímido, desajeitado por estar sóbrio, ou sem o inebriamento para disfarçar minha falta de jeito. Até hoje não sei qual é meu caso. Mas tenho certeza de que Keith Richards compõe para nós, os desajeitados – quanto aos sóbrios, eu não apostaria, mas quem sabe? Olhei em volta. Dentro ou fora do nosso meio círculo, nenhum olhar me procurava e nenhum sorriso era para mim, como eu declarava que normalmente acontecia, embora sempre me respondessem que as coisas não eram bem assim.

A música terminou e a seguinte era bem menos conhecida e um número razoável de pessoas deixou a pista. Um dos piores tipos de pessoas, as que só dançam as músicas que já conhecem. Quem sai de casa e paga – nem sempre pouco, diga-se – para entrar num lugar e ouvir suas músicas favoritas? Eu posso falhar na hora de conhecer novas pessoas, ou de lidar com coisas que aconteceram, e até mesmo em questão de gosto musical, mas sou incapaz de compreender quem faz isso. Resolvi dançar com mais vontade, tentando demonstrar minha indignação, mas minha cerveja me traiu e acabou. Eu ainda não estava pronto para não ter uma cerveja na mão, então cruzei a pista e fui até o bar.

“Mais uma”, pedi, estendendo a garrafa vazia sobre o balcão.

“Tudo certo, cara?”, Daniel, o bartender perguntou.

“Tudo tranquilo”, respondi.

“Tá com cara de desanimado.”

“É a vida”, ofereci minha melhor expressão de ‘fazer o quê?’, perfeita para transformar uma reclamação séria em brincadeira, conversa jogada fora.

“Toma isso aqui”, ele me entregou um copo de shot junto com a cerveja.

“Que porra é essa?”

“Rum.”

E eu bebi.

“Boa!”

“Não é? Esse rum tem uma história boa também.”

Mas o bar estava cheio de clientes e a história precisou ficar para outro dia. Voltei para a pista, já com um sorriso mais fácil no rosto, interagindo melhor com os amigos e as amigas do João e quem mais fosse. Algumas músicas depois, decidimos sair para fumar. Cruzei a pista abrindo um novo corredor entre as pessoas, joguei minha garrafa vazia no lixo e tomei o rumo da saída.

E talvez tenha sido a mistura de vinho, cerveja e rum. Talvez tenha sido meu subconsciente me convencendo de que eu precisava passar por aquilo. A questão é que quando eu vi a expressão de raiva em um rosto conhecido e descontrolado vindo em minha direção, pronto para destruir o copo na minha cara, eu tinha tempo, mas meu braço não fez menção nenhuma de se erguer.


Eu não sei se o copo chegou a quebrar, porque não achei nenhum caco de vidro no meu rosto. O fundo abriu um corte por onde o sangue escorria e a dor foi suficiente para me deixar fora de órbita por um tempo. Ao que me parecia, ele veio na minha direção, bateu o copo na minha cara e sumiu. E eu passei alguns minutos sem saber onde estava.

Quando a adrenalina baixou, percebi que estava atrás do bar, no banheiro dos funcionários – muito mais limpo que qualquer outro canto do Central. Marina estava lá. Mantinha um pedaço de pano sobre o corte com uma das mãos e segurava minha nuca com a outra, movendo os dedos com um toque leve demais para ser o de alguém que não se importava. Falava comigo e me chamava pelo nome. Eu sorri para ela, ela retribuiu.

“Tudo bem aí, cara?”, o Daniel surgiu na porta do banheiro.

“Acho que sim”, respondi, me levantando. Ele voltou para o bar, que agora parecia ainda mais movimentado.

“Caralho, meu! Que filho da puta sem noção! Você sabe quem é? Você deve tá querendo matar ele!”, ela disse, parada ao meu lado, enquanto eu olhava a situação pelo espelho.

Nada como um lugar limpo e bem-iluminado para colocar as coisas em perspectiva.

“Pra ser justo”, respondi, “eu merecia ter apanhado mais.”

“Como assim?”

“Eu meio que ajudei a ferrar com a vida do cara sem quase nenhum motivo,” tentei repetir a expressão ‘fazer o quê?’, mas acho que só consegui expressar dor.

Ela fixou o olhar no meu e pela primeira vez desde que a vi eu tive certeza de que nós treparíamos em algum momento da vida. Incrível como a filha-da-putagem pode ser atraente para algumas pessoas.

Quanto ao Fábio, meu agressor, bem... Não por minha causa, mas sem dúvida com grande participação, ele perdeu a namorada, o emprego e o respeito dos melhores amigos, tudo em um só movimento. Eu não cometi nenhum crime, nem menti sobre nada, mas forcei uma situação da qual era praticamente impossível que ele saísse ileso. E fiz isso só porque ele frequentava alguns dos mesmos círculos que eu. E ele me irrita um pouco. E eu quis me livrar dele. Quem não quebraria um copo na minha cara, né?

O João apareceu na porta, com cara de que só então começava a se acalmar, acompanhado do Paulo, cujo rosto mostrava o incômodo não comigo, mas pela parte cansativa da noite ter começado tão cedo.

“A gente tá segurando ele aí”, disse, “quer que chama a polícia?”

“Não, cara. Relaxa”, respondi.

“Sério mesmo?”, perguntou o João.

“Sério. Só faz a de vocês aí, proíbe o cara de voltar, sei lá. Eu não vou atrás dessa treta, não.”

Olhei para a Marina, sorrindo: “Eu só espero não ter que pagar pelo copo.”

Ela riu. “Nem o copo nem nada. Incluindo a saideira.”


Dez minutos e alguns quarteirões mais tarde, João e eu chegávamos a um bar onde estavam alguns amigos. A chuva causava uma ardência desagradável no meu rosto, mas não era forte o bastante para abrir o corte, que no fim das contas não foi tão profundo quanto poderia. Com uma cerveja na mão e uma diagonal de sangue recém-coagulado na testa, eu chamava alguma atenção.

Entre os amigos, os amigos dos amigos e os conhecidos que passaram por nossa mesa na calçada, contei a história da noite no mínimo três vezes. O João, outras tantas.

Todo mundo se interessava.


Tyler Bazz

quinta-feira, 23 de abril de 2015

Notinha segoviana

Tem um episódio do Chapolin em que ele vai parar em Vênus. Lá, descobre que as pedras venusianas são um tanto diferentes das da Terra. Algumas voam, algumas são invisíveis, algumas mudam de tamanho e, se não me engano, algumas até falam. Lembrei disso esses dias, sentado ao sol enquanto olhava o Aqueduto de Segovia. A parada foi construída pelos romanos há mais de dois mil anos, e quantas histórias não teriam suas pedras? Poderiam falar com propriedade de guerras ali travadas, reis que subiram ao poder e caíram, um amplo relato da cultura, sociedade e economia da região e, por que não, da Espanha. Além dos tantos amores nascidos e terminados sob os arcos. Fiquei me perguntando o que uma daquelas pedras diria pra mim se eu encostasse pra bater um papo, e é possível que eu tenha sonhado, mas me lembro de estar apoiado em uma das enormes colunas e ouvir uma voz grave, vinda de cima: "Tyler, seu puto inútil. Não consegue empilhar nem três latinhas sem derrubar tudo."

Fiquei tão chateado que voltei pra São Paulo, a desaguada.


Tyler Bazz

segunda-feira, 12 de janeiro de 2015

Manhã em Saint-Ambroise



“Dá pra você apagar essa merda?”, pediu Marie, ainda trêmula, ao ver Jean com um cigarro aceso no meio da sala. “Depois a casa inteira fica fedendo.”

“Acho que o cheiro do cigarro não devia ser sua maior preocupação agora, porra,” ele respondeu.

No sofá, coberto por um lençol, o corpo sem vida de Karim, que até poucas horas antes era o morador do apartamento em frente ao do casal. Pouco mais de um metro e meio separava suas portas. Na noite anterior, a música alta que Jean ouvia invadia o apartamento de Karim, que depois de muito tentar dormir decidiu que no dia seguinte tentaria mais uma vez argumentar e pedir ao vizinho que respeitasse o horário avançado. Jean não era um vizinho fácil, mas Karim sempre fora paciente e educado ao tentar resolver os problemas com ele.

Naquela manhã, porém, depois de dormir muito pouco e acordar mais cedo, Karim se exaltou. Foi Marie quem atendeu à porta, convidou-o a entrar e ofereceu café, que ele agradeceu, mas recusou. Jean veio do banheiro em seguida, acordado há alguns minutos pela luz do sol que penetrava na sala. Mal começou a falar, Karim foi interrompido, respirou fundo, tentou se manter calmo, mas na quarta ou quinta ofensa feita em poucos segundos à sua cor de pele, sua religião e sua “origem”, apesar de ser francês, perdeu a cabeça e foi para cima de Jean. Péssima decisão.

Jean era muito mais forte e, ao contrário de Karim, era um homem de natureza violenta. Com dois socos de revide Karim já estava praticamente desacordado e não ofereceu resistência alguma quando foi estrangulado até a morte por Jean, que agora apagava seu cigarro em um pires na pequena mesa que ficava encostada no balcão que separava sala e cozinha.

“O que a gente vai fazer?”, Marie perguntou.

“Não sei, caralho. Me deixa pensar.”

Depois de alguns segundos de silêncio total, Marie sugeriu que levassem o corpo até o apartamento de Karim, ou à entrada do prédio, e chamassem a polícia. Pensariam que foi um assalto, talvez.

“Isso, muito esperta! Você esqueceu como eu ganho dinheiro, porra? Você quer mesmo a polícia xeretando por aqui e fazendo perguntas?”

Jean vendia umas drogas. Não era um grande traficante, não chamava atenção nem tinha registro criminal por isso, mas vendia o suficiente para viver razoavelmente bem sem trabalhar. Mantinha em casa um pequeno estoque de maconha, cocaína e outras substâncias, além de um revólver pouco maior que uma tesoura de cozinha. O trabalho de Marie, como instrutora de hidromassagem, era uma boa fachada, além de mantê-la ocupada e fora de casa durante o dia.

“A gente coloca ele no porta-malas do carro e joga em algum terreno, ou no rio, bem longe daqui,” disse em voz baixa, mais para si mesmo, pensando alto, do que para responder a Marie. “Duvido que alguém vá dar falta dele logo,” – não era verdade – “e quando a polícia achar o corpo, vai perder um bom tempo tentando descobrir se o cara era terrorista. Devia ser mesmo. Eles todos são.”

Não era verdade. Karim levantava cedo todas as manhãs para trabalhar em uma empresa de tecnologia. À noite, ia à faculdade ou estudava em casa para completar sua pós-graduação. Boa parte do que ganhava era para ajudar a mãe e pagar os estudos da irmã, que viviam na periferia de Paris. Dormia cedo, tentava se alimentar bem e sempre prometia a si mesmo que começaria a fazer trabalho voluntário, embora nunca encontrasse tempo. Seu maior arrependimento era ter se afastado dos costumes da religião, que já não praticava, apesar de sentir que isso fazia falta em sua vida.

“E se a gente fosse para fora da cidade? Ele podia ter um enterro digno.”

“Haha! O que mais? Flores e uma bênção, como um bom cristão?” Jean respondeu quase saltando da cadeira, a corrente metálica com o crucifixo pulando junto em seu pescoço. Então se lembrou de baixar a voz. “A gente não devia nem ter que esconder. Fizemos um favor pra todo mundo, antes que ele saísse se explodindo por aí.”

Marie se virou de costas para a sala, mexendo aleatoriamente na pia enquanto Jean trocava de roupa apressadamente no quarto. Será que deveria rezar? Para quem? Desde o começo da adolescência não era religiosa, mas talvez essa fosse a hora de voltar a ser. Com tantos fanáticos por aí, a França e o mundo precisariam cada dia mais de Deus, pensou, enganada.

Jean voltou para a sala e começou a mexer no lençol. “Fica de olho nos corredores e na escada, vê se não tem ninguém. Eu vou ver se a garagem tá limpa, coloco ele no porta-malas e saio. Depois você pega o metrô e vai pro trabalho normalmente. Fica de olho no seu celular, eu te vejo à noite.”

Fizeram isso. Em alguns minutos Jean virava a esquina em seu carro, sem acelerar demais. Poucos segundos depois, a meio quarteirão dali, tiros foram ouvidos na redação do Charlie Hebdo.


Tyler Bazz

segunda-feira, 3 de novembro de 2014

Transa, casa ou mata?



Muitos de vocês devem estar familiarizados com “Transa, casa ou mata?”, um jogo bastante simples que, como a maioria de seu tipo, provoca questões filosóficas e sociais e grandes revelações pessoais. Uma brincadeira que nos propõe exames de consciência e dilemas éticos que poucas outras situações seriam capazes de criar.

A única regra explícita do jogo dita que devem ser indicadas três pessoas (geralmente, personalidades das artes, do entretenimento, dos esportes, etc. e celebridades), entre as quais o jogador da vez deverá apontar uma com quem transaria – verbo em desuso, que significa “fazer sexo” – uma com quem casaria – ato que curiosamente não cai em desuso; aqui, o mesmo que “morar junto” – e uma a quem ele mataria – que pode variar de um “nem fodendo” a um descarte com muito pesar.

Há também uma regra implícita, mas fundamental: NUNCA inclua amigos – seus ou do jogador – entre as pessoas indicadas.

Foi essa a regra quebrada em uma noite de sexta-feira, quando um grupo de amigos se reuniu na casa de um deles para comer, beber e bater papo até que acabasse a comida, a bebida ou o assunto. O jogo, iniciado havia pouco, fluía sem dramas, com trincas mais ou menos desafiadoras e respostas mais ou menos surpreendentes.

“Ok, João. Pra você,” anunciou Luíza. “Jennifer Aniston...”

“Hmm. Friends?”, disse Pedro para si mesmo, tentando adivinhar um tema para a trinca.

“Angeline Jolie...”

“Mulheres do Brad Pitt?!”, Heloísa também tentou.

“...e Brad Pitt.”

“Caramba, essa é foda! Haha! Vamos ver... Eu treparia com a Angelina, casaria com o Brad e mataria a Jennifer.”

“O quê?!”, alguém quase engasgou.

“Como assim?!”, e não foi sozinho.

“Você quer matar a Rachel!”, foi meio que uma surpresa geral.

“Desculpa, galera, mas eu tenho que escolher. E ele parece ser um ótimo marido.”

“Não pra Jennifer, né?”

E em meio ao riso geral João tomou a palavra. “Beleza, minha vez. Ricardo, Bruna, Maitê e Luíza.”

Todos estranharam a escolha. As três ali na sala, amigas há anos, entre si e de todos os presentes. Talvez João estivesse querendo criar polêmica, embora não fosse um tipo provocador. Ou talvez procurasse uma reação em alguma das meninas, quem sabe depois de conversar com Ricardo, que poderia ter mencionado uma vontade ou outra. Todos especularam em silêncio por alguns segundos.

Ricardo, que não havia pedido nada a João e estranhava aquilo tanto quanto qualquer um dos outros, decidiu que o melhor seria responder logo para levar o jogo adiante. “Mancada, mas vamos lá. Eu casaria com a Luíza, que ganha bem, mataria a Bruna, porque pegou meu último cigarro.”

“Porra!”, Bruna interrompeu. “Por causa de um cigarro?”

“Um último cigarro. E, bom, a Maitê...”

“Tá, sobrou a Maitê,” foi a vez de João interromper. “Você, Maitê. Paulo, Jorge e eu,” disse, com um meio sorriso no rosto.

Não fosse o fato de João não beber, alguém poderia achar que havia exagerado nas cervejas. Mas aquilo não era exatamente uma atitude de quem fica bêbado e faz merda, aquela era uma atitude de filho da puta.

Acontece que Maitê era casada com Paulo, que não estava presente, e se quebrar a regra #2 já era complicado, fazê-lo colocando a amiga em uma enorme saia justa beirava o mau-caratismo.

O desconforto na sala era visível. Olhares significativos foram trocados, outros foram desviados, e mais de uma pessoa achou o momento oportuno para um gole mais longo. Maitê agiu rápido, e antes que alguém pudesse interromper e terminar a não tão inofensiva brincadeira, fez o possível para aliviar o clima. “Nem fodendo eu vou responder,” sorriu. “Vai, Pedro: Jô Soares, Gugu e Faustão.”

“Porra! O que eu te fiz?”

“Ok. Ana Maria Braga, Marta Suplicy e-“

“Beleza! Volta a do Faustão!”

As risadas foram mais altas até que o desespero de Pedro. Enquanto isso, alguém carregou um vídeo engraçado no computador e desviou a noite do erro de João.

Erro cujo tamanho João só descobriria mais tarde, quando todos iam embora. Sozinho, quase na entrada do metrô, deu meia-volta e correu pelo caminho de Maitê, que morava a poucas quadras dali e caminhava até seu apartamento. Conseguiu alcançá-la e se desculpou, reconheceu que exagerou, definitivamente passou dos limites. Maitê aceitou as desculpas e disse-lhe que ficasse tranquilo, esquecesse aquilo, que estava tudo bem.

“Mas tem uma coisa que eu preciso te contar,” acrescentou.

“Hm,” João olhava a rua deserta que passava por baixo do viaduto onde estavam e não viu a velocidade e violência com que Maitê se lançou no pouco espaço que os separavam. Ao mesmo tempo em que o empurrou por sobre a grade, com toda a força que tinha, revelou: “Eu já dei pro Jorge.”

Nunca descobriram que foi ela.


Tyler Bazz

quarta-feira, 22 de outubro de 2014

A diferença

E quando o ônibus começou a andar, um rapaz surgiu correndo, ofegante e vermelho ao seu lado, batendo desesperado na porta. "Espera! Espera!", gritava. O motorista, que parou e abriu a porta a contragosto, atrasou trinta segundos em sua rota. Uma mulher que reclamou que aquilo era falta de consideração com os outros chegou ao trabalho no mesmo horário de sempre. E um senhor que xingou essa juventude de hoje em dia não se atrasou, porque estava apenas passeando pela cidade. Mas o rapaz, ele viu seu filho nascer.


Tyler Bazz

sexta-feira, 11 de julho de 2014

Um comentariozinho grande demais para o Twitter, e que eu vou postar aqui porque, bom, porque eu posso: esses dias eu estou lendo July, July, do Tim O'Brien. O livro é bom pra caralho. Mesmo. É realisticamente trágico e melancólico e, lendo, eu sou totalmente transportado para perto da vida dos personagens, com seus erros, dramas pessoais e derrotas para a vida. O problema é que, com a menor distração, eu lembro do título escrito na capa do livro, e aí é questão de meio segundo para que minha cabeça esteja cantando o tal título no ritmo do refrão de Ruby, dos Kaiser Chiefs. E esses são uns dos raros momentos em que eu queria muito mesmo ser normal.

Tyler Bazz