sexta-feira, 9 de setembro de 2016

Luzes

O celular vibrou no bolso de dentro da minha jaqueta e eu fingi que não era comigo. Ainda estava puto com ele por causa das notícias que tinha recebido mais cedo. Ele, o celular. Tenho certeza de que eu não sou o único que faz isso, associar sentimentos e acontecimentos a objetos e lugares e comidas. Sorte de quem não faz. E foi meio por isso, meio por burrice que, dez minutos antes de o celular me deixar puto, eu fui parar naquele bar que cheirava a fritura e pedi uma taça de vinho que custava mais do que deveria. Não que eu entenda alguma coisa de vinhos, mas eu sei que quando pago o que paguei pela taça, o vinho costuma ter um gosto melhor. Essa é uma das coisas que boas lembranças provocam, elas fazem a gente gastar dinheiro em tentativas ridículas de recordar ou reviver qualquer coisa, por menor que seja, de uma época, um evento, uma noite especial. O meu gasto desnecessário era para lembrar a sensação de estar no centro das atenções de alguém por algumas horas, esse tipo de coisa que faz a gente se sentir interessante.

Minha tentativa envolvia beber sozinho num bar praticamente vazio e frequentado por gente de quem eu não queria atenção nenhuma, mas isso não vem ao caso.

E eu não queria de fato reviver o que tinha acontecido. Mas eu estava tendo um dia difícil, a data trazia memórias demais à cabeça.

Meses antes, na noite com as sensações das quais eu queria me lembrar, ela e eu chegamos ali já meio bêbados. Eu mais que ela, desconfio até hoje. Fomos pela comida, um clássico, barato e que “não fica muito melhor que isso”. O vinho, apesar de não ser a harmonização ideal, por assim dizer, foi escolhido porque queríamos tirar a dúvida de tantas noites: é vinho depois de cerveja ou cerveja depois de vinho que te deixa mal? Não chegamos a nenhuma conclusão, esquecemos o assunto antes mesmo de a primeira taça acabar.

O celular vibrou outra vez, agora, insistindo. Atendi depois de ver quem era.

“É dois mil e dezesseis. Você é a única pessoa que ainda liga pra falar com alguém.”

“E uma das poucas que conseguem falar com quem quer, quando quer”, o João respondeu.

“Justo”, aceitei, enquanto pagava a conta com uma nota de vinte e deixava o troco para trás.

“Fala.”

“Onde você tá?”

“Tomando uma, na Augusta.”

“Boa. A gente tá indo pro Central. Passamos aí em três.”

“Cara, eu não sei se vai rolar.”

“Vai rolar sim.”

“Tá frio, tá chovendo e...”

“Eu não vou deixar você não ir. Eu sei que dia é hoje.”

O reflexo dos sinais de trânsito no chão molhado era bonito e me deixou um pouco menos deprimido. Uma onda de quase otimismo passou por mim. Talvez a noite acabasse melhor do que eu esperava, talvez eu não precisasse me sentir tão mal. Perceber que alguém se importava comigo o suficiente para ligar numa sexta à noite, naquela sexta à noite, e me obrigar a não ficar sozinho e triste chegou a me comover. Deixei de resistir e fui.


Era cedo e a entrada estava tranquila no Central, sem filas. Paulo, o segurança, perguntou como estávamos e jogou um pouco de conversa fora. Nós entrávamos sem ser revistados, um privilégio de poucos, mas que não fazia diferença alguma. Marina, a hostess, não me reconheceu, nem nos deu qualquer tipo de tratamento especial. O atendente do bar acenou assim que nos viu entrar, estendeu a cerveja quando cheguei ao balcão e me cumprimentou enquanto tomava o número da comanda.

Amigo do segurança, amigo do cara do bar, completamente ignorado pela hostess. Talvez isso seja um ótimo retrato de como andava minha relação com as mulheres.

Mas, em minha defesa, não é todo mundo que conversa com o segurança da balada, que só ouve a voz de muita gente em forma de desaforo. Não é todo mundo que passa boa parte da noite, toda semana, com os cotovelos apoiados no balcão do bar. Já a hostess tem que aturar, de cada homem que passa por ela, uma frase desnecessária, um sorriso ensaiado, um olhar longo demais. Ela precisa filtrar, bloquear e ignorar até mesmo quem frequenta o lugar mais do que deveria – o nosso caso. E mesmo que não fosse esse o motivo, quem vai dizer que ela é obrigada a fazer mais que seu trabalho?

Depois de um brinde discreto e mudo, João e eu fomos para a pista. Um dos motivos para frequentarmos tanto o Central era a música, que variava entre noites e também na mesma noite, cobrindo boa parte de tudo o que gostávamos e às vezes saindo um pouco do que a gente costumava ouvir. Som novo, fora da nossa zona de conforto.

Zona de conforto musical. Meu Deus.

O DJ, um semiconhecido meu, acenou com a cabeça quando passei por ele. Ninguém mais pareceu me notar ali, o que é algo entre um bom e um mau sinal quando se está numa pista de dança. O João encontrou um amigo, acompanhado de mais três ou quatro pessoas (eu nem sempre sabia quem estava no grupo e quem só estava por perto). Fomos até eles.

“Oi, prazer, tudo bem?...” etc., eu não ouvia o nome de ninguém, mas isso ainda conta como conhecer gente nova, certo? Espero que sim. Mas nem dois minutos depois eu já estava em silêncio, rodeado de pessoas dispostas a conversar. Esse é um problema de conhecer gente nova, para mim, eu nunca tenho algo interessante para dizer, então fico quieto. Talvez, se falasse coisas interessantes, eu não começaria noites de sexta pagando caro demais em vinhos e sonhando com o passado.

Quando ela foi embora, essa foi uma das poucas e vagas coisas que me disse, que eu não falava muito, que era quieto demais, que a gente quase não conversava. E talvez hoje ela esteja com um locutor de rádio, ou um desses caras que não param de falar nunca, monopolizam todas as conversas, convencidos de que o mundo gira a seu redor e de que é um privilégio que possam ouvi-los, mesmo que os ouvidos das pessoas ao redor comecem a sangrar. Seu típico Dean Moriarty. Sempre tive a impressão de que as pessoas dizem querer um bom ouvinte, até encontrarem um. Mas é assim o ditado, “cuidado com o que deseja”, certo?

O DJ tocou uma música dos Stones e eu comecei a dançar, ainda tímido, desajeitado por estar sóbrio, ou sem o inebriamento para disfarçar minha falta de jeito. Até hoje não sei qual é meu caso. Mas tenho certeza de que Keith Richards compõe para nós, os desajeitados – quanto aos sóbrios, eu não apostaria, mas quem sabe? Olhei em volta. Dentro ou fora do nosso meio círculo, nenhum olhar me procurava e nenhum sorriso era para mim, como eu declarava que normalmente acontecia, embora sempre me respondessem que as coisas não eram bem assim.

A música terminou e a seguinte era bem menos conhecida e um número razoável de pessoas deixou a pista. Um dos piores tipos de pessoas, as que só dançam as músicas que já conhecem. Quem sai de casa e paga – nem sempre pouco, diga-se – para entrar num lugar e ouvir suas músicas favoritas? Eu posso falhar na hora de conhecer novas pessoas, ou de lidar com coisas que aconteceram, e até mesmo em questão de gosto musical, mas sou incapaz de compreender quem faz isso. Resolvi dançar com mais vontade, tentando demonstrar minha indignação, mas minha cerveja me traiu e acabou. Eu ainda não estava pronto para não ter uma cerveja na mão, então cruzei a pista e fui até o bar.

“Mais uma”, pedi, estendendo a garrafa vazia sobre o balcão.

“Tudo certo, cara?”, Daniel, o bartender perguntou.

“Tudo tranquilo”, respondi.

“Tá com cara de desanimado.”

“É a vida”, ofereci minha melhor expressão de ‘fazer o quê?’, perfeita para transformar uma reclamação séria em brincadeira, conversa jogada fora.

“Toma isso aqui”, ele me entregou um copo de shot junto com a cerveja.

“Que porra é essa?”

“Rum.”

E eu bebi.

“Boa!”

“Não é? Esse rum tem uma história boa também.”

Mas o bar estava cheio de clientes e a história precisou ficar para outro dia. Voltei para a pista, já com um sorriso mais fácil no rosto, interagindo melhor com os amigos e as amigas do João e quem mais fosse. Algumas músicas depois, decidimos sair para fumar. Cruzei a pista abrindo um novo corredor entre as pessoas, joguei minha garrafa vazia no lixo e tomei o rumo da saída.

E talvez tenha sido a mistura de vinho, cerveja e rum. Talvez tenha sido meu subconsciente me convencendo de que eu precisava passar por aquilo. A questão é que quando eu vi a expressão de raiva em um rosto conhecido e descontrolado vindo em minha direção, pronto para destruir o copo na minha cara, eu tinha tempo, mas meu braço não fez menção nenhuma de se erguer.


Eu não sei se o copo chegou a quebrar, porque não achei nenhum caco de vidro no meu rosto. O fundo abriu um corte por onde o sangue escorria e a dor foi suficiente para me deixar fora de órbita por um tempo. Ao que me parecia, ele veio na minha direção, bateu o copo na minha cara e sumiu. E eu passei alguns minutos sem saber onde estava.

Quando a adrenalina baixou, percebi que estava atrás do bar, no banheiro dos funcionários – muito mais limpo que qualquer outro canto do Central. Marina estava lá. Mantinha um pedaço de pano sobre o corte com uma das mãos e segurava minha nuca com a outra, movendo os dedos com um toque leve demais para ser o de alguém que não se importava. Falava comigo e me chamava pelo nome. Eu sorri para ela, ela retribuiu.

“Tudo bem aí, cara?”, o Daniel surgiu na porta do banheiro.

“Acho que sim”, respondi, me levantando. Ele voltou para o bar, que agora parecia ainda mais movimentado.

“Caralho, meu! Que filho da puta sem noção! Você sabe quem é? Você deve tá querendo matar ele!”, ela disse, parada ao meu lado, enquanto eu olhava a situação pelo espelho.

Nada como um lugar limpo e bem-iluminado para colocar as coisas em perspectiva.

“Pra ser justo”, respondi, “eu merecia ter apanhado mais.”

“Como assim?”

“Eu meio que ajudei a ferrar com a vida do cara sem quase nenhum motivo,” tentei repetir a expressão ‘fazer o quê?’, mas acho que só consegui expressar dor.

Ela fixou o olhar no meu e pela primeira vez desde que a vi eu tive certeza de que nós treparíamos em algum momento da vida. Incrível como a filha-da-putagem pode ser atraente para algumas pessoas.

Quanto ao Fábio, meu agressor, bem... Não por minha causa, mas sem dúvida com grande participação, ele perdeu a namorada, o emprego e o respeito dos melhores amigos, tudo em um só movimento. Eu não cometi nenhum crime, nem menti sobre nada, mas forcei uma situação da qual era praticamente impossível que ele saísse ileso. E fiz isso só porque ele frequentava alguns dos mesmos círculos que eu. E ele me irrita um pouco. E eu quis me livrar dele. Quem não quebraria um copo na minha cara, né?

O João apareceu na porta, com cara de que só então começava a se acalmar, acompanhado do Paulo, cujo rosto mostrava o incômodo não comigo, mas pela parte cansativa da noite ter começado tão cedo.

“A gente tá segurando ele aí”, disse, “quer que chama a polícia?”

“Não, cara. Relaxa”, respondi.

“Sério mesmo?”, perguntou o João.

“Sério. Só faz a de vocês aí, proíbe o cara de voltar, sei lá. Eu não vou atrás dessa treta, não.”

Olhei para a Marina, sorrindo: “Eu só espero não ter que pagar pelo copo.”

Ela riu. “Nem o copo nem nada. Incluindo a saideira.”


Dez minutos e alguns quarteirões mais tarde, João e eu chegávamos a um bar onde estavam alguns amigos. A chuva causava uma ardência desagradável no meu rosto, mas não era forte o bastante para abrir o corte, que no fim das contas não foi tão profundo quanto poderia. Com uma cerveja na mão e uma diagonal de sangue recém-coagulado na testa, eu chamava alguma atenção.

Entre os amigos, os amigos dos amigos e os conhecidos que passaram por nossa mesa na calçada, contei a história da noite no mínimo três vezes. O João, outras tantas.

Todo mundo se interessava.


Tyler Bazz

quinta-feira, 23 de abril de 2015

Notinha segoviana

Tem um episódio do Chapolin em que ele vai parar em Vênus. Lá, descobre que as pedras venusianas são um tanto diferentes das da Terra. Algumas voam, algumas são invisíveis, algumas mudam de tamanho e, se não me engano, algumas até falam. Lembrei disso esses dias, sentado ao sol enquanto olhava o Aqueduto de Segovia. A parada foi construída pelos romanos há mais de dois mil anos, e quantas histórias não teriam suas pedras? Poderiam falar com propriedade de guerras ali travadas, reis que subiram ao poder e caíram, um amplo relato da cultura, sociedade e economia da região e, por que não, da Espanha. Além dos tantos amores nascidos e terminados sob os arcos. Fiquei me perguntando o que uma daquelas pedras diria pra mim se eu encostasse pra bater um papo, e é possível que eu tenha sonhado, mas me lembro de estar apoiado em uma das enormes colunas e ouvir uma voz grave, vinda de cima: "Tyler, seu puto inútil. Não consegue empilhar nem três latinhas sem derrubar tudo."

Fiquei tão chateado que voltei pra São Paulo, a desaguada.


Tyler Bazz

segunda-feira, 12 de janeiro de 2015

Manhã em Saint-Ambroise



“Dá pra você apagar essa merda?”, pediu Marie, ainda trêmula, ao ver Jean com um cigarro aceso no meio da sala. “Depois a casa inteira fica fedendo.”

“Acho que o cheiro do cigarro não devia ser sua maior preocupação agora, porra,” ele respondeu.

No sofá, coberto por um lençol, o corpo sem vida de Karim, que até poucas horas antes era o morador do apartamento em frente ao do casal. Pouco mais de um metro e meio separava suas portas. Na noite anterior, a música alta que Jean ouvia invadia o apartamento de Karim, que depois de muito tentar dormir decidiu que no dia seguinte tentaria mais uma vez argumentar e pedir ao vizinho que respeitasse o horário avançado. Jean não era um vizinho fácil, mas Karim sempre fora paciente e educado ao tentar resolver os problemas com ele.

Naquela manhã, porém, depois de dormir muito pouco e acordar mais cedo, Karim se exaltou. Foi Marie quem atendeu à porta, convidou-o a entrar e ofereceu café, que ele agradeceu, mas recusou. Jean veio do banheiro em seguida, acordado há alguns minutos pela luz do sol que penetrava na sala. Mal começou a falar, Karim foi interrompido, respirou fundo, tentou se manter calmo, mas na quarta ou quinta ofensa feita em poucos segundos à sua cor de pele, sua religião e sua “origem”, apesar de ser francês, perdeu a cabeça e foi para cima de Jean. Péssima decisão.

Jean era muito mais forte e, ao contrário de Karim, era um homem de natureza violenta. Com dois socos de revide Karim já estava praticamente desacordado e não ofereceu resistência alguma quando foi estrangulado até a morte por Jean, que agora apagava seu cigarro em um pires na pequena mesa que ficava encostada no balcão que separava sala e cozinha.

“O que a gente vai fazer?”, Marie perguntou.

“Não sei, caralho. Me deixa pensar.”

Depois de alguns segundos de silêncio total, Marie sugeriu que levassem o corpo até o apartamento de Karim, ou à entrada do prédio, e chamassem a polícia. Pensariam que foi um assalto, talvez.

“Isso, muito esperta! Você esqueceu como eu ganho dinheiro, porra? Você quer mesmo a polícia xeretando por aqui e fazendo perguntas?”

Jean vendia umas drogas. Não era um grande traficante, não chamava atenção nem tinha registro criminal por isso, mas vendia o suficiente para viver razoavelmente bem sem trabalhar. Mantinha em casa um pequeno estoque de maconha, cocaína e outras substâncias, além de um revólver pouco maior que uma tesoura de cozinha. O trabalho de Marie, como instrutora de hidromassagem, era uma boa fachada, além de mantê-la ocupada e fora de casa durante o dia.

“A gente coloca ele no porta-malas do carro e joga em algum terreno, ou no rio, bem longe daqui,” disse em voz baixa, mais para si mesmo, pensando alto, do que para responder a Marie. “Duvido que alguém vá dar falta dele logo,” – não era verdade – “e quando a polícia achar o corpo, vai perder um bom tempo tentando descobrir se o cara era terrorista. Devia ser mesmo. Eles todos são.”

Não era verdade. Karim levantava cedo todas as manhãs para trabalhar em uma empresa de tecnologia. À noite, ia à faculdade ou estudava em casa para completar sua pós-graduação. Boa parte do que ganhava era para ajudar a mãe e pagar os estudos da irmã, que viviam na periferia de Paris. Dormia cedo, tentava se alimentar bem e sempre prometia a si mesmo que começaria a fazer trabalho voluntário, embora nunca encontrasse tempo. Seu maior arrependimento era ter se afastado dos costumes da religião, que já não praticava, apesar de sentir que isso fazia falta em sua vida.

“E se a gente fosse para fora da cidade? Ele podia ter um enterro digno.”

“Haha! O que mais? Flores e uma bênção, como um bom cristão?” Jean respondeu quase saltando da cadeira, a corrente metálica com o crucifixo pulando junto em seu pescoço. Então se lembrou de baixar a voz. “A gente não devia nem ter que esconder. Fizemos um favor pra todo mundo, antes que ele saísse se explodindo por aí.”

Marie se virou de costas para a sala, mexendo aleatoriamente na pia enquanto Jean trocava de roupa apressadamente no quarto. Será que deveria rezar? Para quem? Desde o começo da adolescência não era religiosa, mas talvez essa fosse a hora de voltar a ser. Com tantos fanáticos por aí, a França e o mundo precisariam cada dia mais de Deus, pensou, enganada.

Jean voltou para a sala e começou a mexer no lençol. “Fica de olho nos corredores e na escada, vê se não tem ninguém. Eu vou ver se a garagem tá limpa, coloco ele no porta-malas e saio. Depois você pega o metrô e vai pro trabalho normalmente. Fica de olho no seu celular, eu te vejo à noite.”

Fizeram isso. Em alguns minutos Jean virava a esquina em seu carro, sem acelerar demais. Poucos segundos depois, a meio quarteirão dali, tiros foram ouvidos na redação do Charlie Hebdo.


Tyler Bazz

segunda-feira, 3 de novembro de 2014

Transa, casa ou mata?



Muitos de vocês devem estar familiarizados com “Transa, casa ou mata?”, um jogo bastante simples que, como a maioria de seu tipo, provoca questões filosóficas e sociais e grandes revelações pessoais. Uma brincadeira que nos propõe exames de consciência e dilemas éticos que poucas outras situações seriam capazes de criar.

A única regra explícita do jogo dita que devem ser indicadas três pessoas (geralmente, personalidades das artes, do entretenimento, dos esportes, etc. e celebridades), entre as quais o jogador da vez deverá apontar uma com quem transaria – verbo em desuso, que significa “fazer sexo” – uma com quem casaria – ato que curiosamente não cai em desuso; aqui, o mesmo que “morar junto” – e uma a quem ele mataria – que pode variar de um “nem fodendo” a um descarte com muito pesar.

Há também uma regra implícita, mas fundamental: NUNCA inclua amigos – seus ou do jogador – entre as pessoas indicadas.

Foi essa a regra quebrada em uma noite de sexta-feira, quando um grupo de amigos se reuniu na casa de um deles para comer, beber e bater papo até que acabasse a comida, a bebida ou o assunto. O jogo, iniciado havia pouco, fluía sem dramas, com trincas mais ou menos desafiadoras e respostas mais ou menos surpreendentes.

“Ok, João. Pra você,” anunciou Luíza. “Jennifer Aniston...”

“Hmm. Friends?”, disse Pedro para si mesmo, tentando adivinhar um tema para a trinca.

“Angeline Jolie...”

“Mulheres do Brad Pitt?!”, Heloísa também tentou.

“...e Brad Pitt.”

“Caramba, essa é foda! Haha! Vamos ver... Eu treparia com a Angelina, casaria com o Brad e mataria a Jennifer.”

“O quê?!”, alguém quase engasgou.

“Como assim?!”, e não foi sozinho.

“Você quer matar a Rachel!”, foi meio que uma surpresa geral.

“Desculpa, galera, mas eu tenho que escolher. E ele parece ser um ótimo marido.”

“Não pra Jennifer, né?”

E em meio ao riso geral João tomou a palavra. “Beleza, minha vez. Ricardo, Bruna, Maitê e Luíza.”

Todos estranharam a escolha. As três ali na sala, amigas há anos, entre si e de todos os presentes. Talvez João estivesse querendo criar polêmica, embora não fosse um tipo provocador. Ou talvez procurasse uma reação em alguma das meninas, quem sabe depois de conversar com Ricardo, que poderia ter mencionado uma vontade ou outra. Todos especularam em silêncio por alguns segundos.

Ricardo, que não havia pedido nada a João e estranhava aquilo tanto quanto qualquer um dos outros, decidiu que o melhor seria responder logo para levar o jogo adiante. “Mancada, mas vamos lá. Eu casaria com a Luíza, que ganha bem, mataria a Bruna, porque pegou meu último cigarro.”

“Porra!”, Bruna interrompeu. “Por causa de um cigarro?”

“Um último cigarro. E, bom, a Maitê...”

“Tá, sobrou a Maitê,” foi a vez de João interromper. “Você, Maitê. Paulo, Jorge e eu,” disse, com um meio sorriso no rosto.

Não fosse o fato de João não beber, alguém poderia achar que havia exagerado nas cervejas. Mas aquilo não era exatamente uma atitude de quem fica bêbado e faz merda, aquela era uma atitude de filho da puta.

Acontece que Maitê era casada com Paulo, que não estava presente, e se quebrar a regra #2 já era complicado, fazê-lo colocando a amiga em uma enorme saia justa beirava o mau-caratismo.

O desconforto na sala era visível. Olhares significativos foram trocados, outros foram desviados, e mais de uma pessoa achou o momento oportuno para um gole mais longo. Maitê agiu rápido, e antes que alguém pudesse interromper e terminar a não tão inofensiva brincadeira, fez o possível para aliviar o clima. “Nem fodendo eu vou responder,” sorriu. “Vai, Pedro: Jô Soares, Gugu e Faustão.”

“Porra! O que eu te fiz?”

“Ok. Ana Maria Braga, Marta Suplicy e-“

“Beleza! Volta a do Faustão!”

As risadas foram mais altas até que o desespero de Pedro. Enquanto isso, alguém carregou um vídeo engraçado no computador e desviou a noite do erro de João.

Erro cujo tamanho João só descobriria mais tarde, quando todos iam embora. Sozinho, quase na entrada do metrô, deu meia-volta e correu pelo caminho de Maitê, que morava a poucas quadras dali e caminhava até seu apartamento. Conseguiu alcançá-la e se desculpou, reconheceu que exagerou, definitivamente passou dos limites. Maitê aceitou as desculpas e disse-lhe que ficasse tranquilo, esquecesse aquilo, que estava tudo bem.

“Mas tem uma coisa que eu preciso te contar,” acrescentou.

“Hm,” João olhava a rua deserta que passava por baixo do viaduto onde estavam e não viu a velocidade e violência com que Maitê se lançou no pouco espaço que os separavam. Ao mesmo tempo em que o empurrou por sobre a grade, com toda a força que tinha, revelou: “Eu já dei pro Jorge.”

Nunca descobriram que foi ela.


Tyler Bazz

quarta-feira, 22 de outubro de 2014

A diferença

E quando o ônibus começou a andar, um rapaz surgiu correndo, ofegante e vermelho ao seu lado, batendo desesperado na porta. "Espera! Espera!", gritava. O motorista, que parou e abriu a porta a contragosto, atrasou trinta segundos em sua rota. Uma mulher que reclamou que aquilo era falta de consideração com os outros chegou ao trabalho no mesmo horário de sempre. E um senhor que xingou essa juventude de hoje em dia não se atrasou, porque estava apenas passeando pela cidade. Mas o rapaz, ele viu seu filho nascer.


Tyler Bazz

sexta-feira, 11 de julho de 2014

Um comentariozinho grande demais para o Twitter, e que eu vou postar aqui porque, bom, porque eu posso: esses dias eu estou lendo July, July, do Tim O'Brien. O livro é bom pra caralho. Mesmo. É realisticamente trágico e melancólico e, lendo, eu sou totalmente transportado para perto da vida dos personagens, com seus erros, dramas pessoais e derrotas para a vida. O problema é que, com a menor distração, eu lembro do título escrito na capa do livro, e aí é questão de meio segundo para que minha cabeça esteja cantando o tal título no ritmo do refrão de Ruby, dos Kaiser Chiefs. E esses são uns dos raros momentos em que eu queria muito mesmo ser normal.

Tyler Bazz

segunda-feira, 5 de maio de 2014

Porque...



Faz quase seis anos que não falo com meu irmão. Os dois primeiros porque eu e ele sempre fomos teimosos, orgulhosos e esquentadinhos demais. Começou com uma discussão dessas bobas que tivemos quando fui visitar minha família em um feriado no começo do meu segundo ano de faculdade, ou no fim do primeiro, tenho certeza de que alguns meses depois já não nos lembrávamos do motivo. Depois disso, fugimos da presença um do outro por um tempo – ele casado e cada vez mais próximo da família da esposa, eu estudando longe demais e cada vez menos disposta a encarar horas de estrada para voltar à cidade em que nasci – e quando não conseguíamos escapar, fingíamos que o outro não existia.

O resto do tempo é porque eu não costumo falar com os mortos, e meu irmão morreu há três anos e meio. Era o começo de uma madrugada de quarta-feira e ele voltava de uma curta viagem de trabalho. Não quis passar a noite em um hotel, gostava de dormir em casa e estava economizando para comprar um carro novo. Não encontraram sinais de outro carro, nada. Só ele e sua moto destruída. Até hoje não sabemos se ele cochilou, cansado, ou se tentou desviar de algum animal pequeno, pego tão de surpresa quanto ele à luz do farol, ou se simplesmente perdeu o controle, como às vezes acontece. Fui ao enterro não porque queria, mas porque precisava. Nunca deixei de amar meu irmão, mas era importante mostrar isso ao resto da família antes que pensassem que nunca nos perdoamos seja lá porque fosse que tínhamos nos afastado. Passei horas em pé em seu velório e ajudei a baixar seu caixão, sabendo o tempo todo que ele odiaria aquilo, que sempre quisera ser cremado.

Passei um tempo na casa dos meus pais depois disso. Menos pelo meu pai, que sofria em silêncio, mas aceitava a perda com mais naturalidade, como algo inevitável, que pela minha mãe, que ainda não havia se recuperado da gravidez frustrada da minha cunhada e precisava urgentemente de companhia, movimento, ocupação. Deixá-la sozinha com seus pensamentos naquela situação seria um convite à loucura, e já tínhamos atingido nossa cota de tragédias por um bom tempo. Foram dois meses que sofri para evitar maiores sofrimentos. Depois de enterrar meu irmão, me vi enterrada em uma cidade pequena, atrasada, que eu suportava cada vez menos desde minha adolescência. Tinha dificuldades até em resgatar memórias da infância que tive ali, quando as fronteiras da cidade ainda ficavam fora do meu alcance.

Seria difícil encontrar outro lugar tão bom para ser criança. Corríamos pelos quatro cantos da cidade e conhecíamos rigorosamente todos os moradores, dos velhinhos aposentados que às vezes brigavam com a gente, só porque essa era sua função como velhinhos aposentados, ao prefeito, que nos recebia sempre de sorriso aberto em seu gabinete, atento às nossas importantes reivindicações – uma pista de bicicleta na praça da Matriz (negada), bloquear a entrada de carros em uma das ruas uma vez por mês, para brincadeiras (concedida), uma pracinha com quadra de esportes (negada, mas a quadra da escola passou a poder ser usada quando não tinha aula), entre outras. Para nós, o mundo todo ficava ali, nos poucos blocos que rodeavam a praça central, estendendo-se até o sítio da minha avó, aonde chegávamos depois de quinze minutos pedalando sem parar por uma estrada de terra e onde passamos incontáveis tardes nos pendurando em árvores, mergulhando no lago, caçando passarinho para nunca colocar em gaiola, até a agridoce hora de ir embora, sempre antes de o sol se pôr. Nunca ninguém queria pedalar o caminho de volta, principalmente depois dos bolos (de fubá, laranja, chocolate) e do suco espremido na hora que a vovó fazia. Não importava quantas crianças estivessem espalhadas pelo gramado, e eram sempre muitas, contando eu, meu irmão e todos os nossos amigos e amigas, nunca faltava bolo ou suco para ninguém.

Quando eu tinha dezessete anos, a cidadezinha em que cresci deixou de ser meu endereço. E na cidade grande, enorme até mesmo para quem nasceu nela, onde fui estudar e crescer, bolo e suco eram só de caixinha. A correria que a vida nessa cidade gigante, com faculdade, amigos, estágio, namoro, trabalho me impôs, e que eu recebi de braços abertos, pronta para encarar tudo, me fez trocar o bolo recém-saído do forno por comida congelada, muitas vezes sem gosto, e o suco natural por muito, muito café. E eu amei cada segundo.

Foi amor à primeira vista. Na verdade, foram vários amores à primeira vista. Nunca foi ruim, nunca quis voltar ou desistir. Desde o primeiro dia eu e as ruas tão movimentadas, a vida noturna, os congestionamentos de carros, gente e coisas sempre acontecendo tão rápido nos demos bem. Parecia que a cidade estava me esperando, e que eu tinha crescido para ela. A inigualável sensação de encontrar seu lugar no mundo. A cidade me abraçou e me adotou quando vi minha família partir – irmão, mãe, pai – em um intervalo menor do que qualquer pessoa poderia suportar sozinha. Não me restavam laços em outro lugar.

E o primeiro e maior de todos os amores foi o mar, que eu não conhecia até chegar aqui. Encantada com sua cor, seu som, sua constante presença, ele foi meu refúgio sempre que precisei, até que se tornou minha única família. Perdi a conta de quantas vezes fugi para passar meia hora com ele, sentada nas pedras, observando as ondas batendo lá embaixo. Era perfeito. Era uma pausa da cidade sem sair dela, a inquestionável prova de sua perfeição, sua completude. E quando me apaixonei pelos amigos, pela carreira, pelo sexo oposto, o mar entendeu minha ausência, que nunca deixei ser grande demais. Perto do mar, satisfeita em todos os aspectos aos quais dava importância, eu me realizava, vivia o tipo de vida que as pessoas querem ter quando assistem às séries de tv. Mas se os personagens da tv vivem daquela forma por somente alguns minutos durante a semana, nos vivíamos o tempo todo.

Quando viva, minha avó sempre dizia que tudo o que é demais faz mal. Só hoje, talvez, eu consiga ver que tudo estava sendo demais por um tempo. Quantas noites seguidas uma pessoa pode passar dormindo apenas três horas ou menos? Eu devo ter batido algum tipo de recorde. Sabia o que estava fazendo e que aquilo não podia ser bom, mas ao mesmo tempo julgava necessário e até natural. Como, de outra forma, seria possível fazer todo o trabalho, manter uma vida social, tirar proveito de tudo o que a cidade tem a oferecer? Dias de café e noites de álcool, sem parar.

“Não tem nada errado com você, isso aqui não é mesmo pra qualquer um,” ouvi um amigo dizer certa vez em uma festa a uma conhecida nossa, que reclamava do quanto a cidade era cruel, pesada, e que estava pensando em se mudar, procurar outro lugar, uma cidade menos gigantesca, menos extrema, que também oferecesse muita coisa, mas onde fosse possível desacelerar, viver melhor. Ele estava certo. Por mais incrível que seja, esta não é uma cidade para todos. É desgastante, dura. Não há como bater de frente, você precisa se tornar parte dela, e isso significa endurecer também.

Eu me lembro de quando cheguei pela primeira vez, uma menina de dezessete anos crescida naquela cidadezinha do interior. Na rodoviária, vi um mendigo tão maltratado que quis me aproximar e perguntar o que tinha acontecido com ele. Não era a primeira vez que eu via alguém naquela situação, mas aquele homem parecia ter sido usado numa guerra como o próprio campo de batalha. Por medo, não falei com ele. E aos poucos fui compreendendo o que tinha acontecido àquele homem: nós. Não sei se é uma relação de codependência, causa e consequência, ou –improvável– coisas que ocorrem paralelamente no mesmo contexto, mas descobri que criamos um mundo em que para que haja pessoas como eu – ao menos como eu costumava ser – é preciso que existam pessoas como ele. Em algum ponto nós erramos feio, mas quem ainda não endureceu o bastante para achar isso um problema não pode fazer muita coisa, e quem tem o poder para mudar isso já não enxerga essas pessoas.

Às vezes me ocorria um rápido exame de consciência, em que olhava para o passado e quem eu era e para o presente e quem havia me tornado. Era inevitável sentir saudades de mim mesma, e acredito que a maioria das pessoas que compartilham minha situação passa pela mesma coisa. Nós somos bem sucedidos, cultos, capazes de reconhecer que estamos errando. Mas ao mesmo tempo estamos acelerados demais pela cafeína, anestesiados demais pelas drogas que usamos e as horas que não dormimos, e satisfeitos demais com a forma como as coisas estão, os tipos de luxo que temos e a vida que levamos. Se é possível encontrar conforto trabalhando dezesseis horas por dia e dormindo pouco mais que isso em toda uma semana? Endurecidos pela cidade e vendados pelas aparentes vantagens que tudo isso pode oferecer, todos diríamos que sim.

Existem alguns caminhos diferentes a partir dessa saudade que sentimos das pessoas que éramos, da vontade de ajudar um sem-teto, trabalhar menos e fazer algo bom ou simplesmente conseguir parar durante duas horas para comer um bolo caseiro e tomar um suco feito na hora. Há quem julgue impossível fazê-lo aqui, como a conhecida que pretendia se mudar; há quem se pegue pensando na situação e se convença de que tudo é besteira, que não se pode fazer nada; e há quem, como eu, não dá real atenção ao assunto até que o mundo em que vive começa a cair. Eu fui pega completamente de surpresa, não estava preparada, mas não sei se alguém em algum momento realmente está.

Foi tudo tão rápido quanto minha rotina. Em não mais que algumas semanas tudo acabou. O namorado fez o que não devia, com quem não devia, onde não devia. Fui demitida depois de uma série de decisões ruins no trabalho. A falta do emprego e do que ele me proporcionava afastou uma série de parasitas – alguns dos quais eu sabia que eram, outros me surpreenderam. Restaram poucos amigos, mas cujas vidas não poderiam parar por minha causa. Assim, pela primeira vez em muito tempo, cansada das festas, dos bares e das pessoas, me vi sozinha. No início, o choque foi enorme. Por dias pensei que não conseguiria viver sem tudo aquilo e, desesperada, cogitei desistir e comecei até mesmo a rascunhar as linhas que abrem este texto, mas com outra intenção. O mar, porém, me salvou. Depois de uma tarde com ele, respirando sua brisa, sentada nas pedras com um livro que finalmente tive tempo para ler e uma garrafa de suco preparado na hora, percebi que eu não precisava ser tão extrema o tempo todo, que a calmaria pode ser muito melhor que a correria.

Sem dinheiro, em vez de procurar alguém para dividir o apartamento em que morava, decidi me mudar para outra parte da cidade, mais barata e tranquila. Não é difícil ter acesso a cultura e diversão mesmo não estando enfiada o tempo todo no meio de tudo. Com muita coisa para pouco espaço na casa nova, descobri que boa parte do meu guarda-roupa consistia em peças que eu não gostava, não usaria nunca ou simplesmente não usaria mais. Doei não sei quantas caixas de roupas para bazares beneficentes, além de outros itens que encontrei pelo apartamento e não soube dizer por que os tinha. Decidida a mudar, fazia sentido começar pelo mais fácil, o material. Obviamente não seria possível mudar tudo, eu era quem era porque sou como sou, mas posso me esforçar para mudar as coisas que não me agradam. O segundo passo foi parar de fumar, e até o momento dá para dizer que estou indo bem, de chiclete em chiclete, de adesivo em adesivo.

Mas a continuação não depende só de mim. E assim chegamos aqui, a essa sala meio vazia, onde as três outras candidatas à vaga observam impressionadas há vinte minutos a velocidade com que minha caneta forma palavras. Elas terminaram há algum tempo, mas vocês não me deram limite, só uma folha em branco e a pergunta “Por que devo ser contratada?” Espero ter me explicado bem.

Obrigada,
Maria —


Tyler Bazz