quarta-feira, 23 de janeiro de 2019

Móvel


A Julia foi a única que realmente viu o durante. Passou aqui antes de um rolê e quis subir para “usar o banheiro”. Ela sempre dá um jeito de vir, querendo ver como andam as coisas, se está tudo certo, tudo no lugar comigo – é sem necessidade, porque aquela época durou só alguns meses, mas não me incomoda.
               Primeiro, só me encarou com os olhos meio arregalados, girando quase todo o corpo na minha direção, depois apontou para o espaço vazio – quer dizer, tinha uma cadeira e um banquinho lá – e só então perguntou, a voz um tom acima do normal: “Sofá?!”
               Respondi com aquele meio sorriso que não mostra os dentes, que acabou virando o meu depois de usar aparelho na adolescência e que também era o seu, ainda que só um dos seus tantos, um melhor que o outro. Ela entendeu que não teria maiores explicações.
               “Partiu, então?”
               “Você não tinha que ir no banheiro?”, perguntei sem olhar, enquanto pegava cervejas na geladeira para o caminho.
               “Ah, é!”, ela mentiu e foi. Vira e mexe ela passa alguns minutos no meu banheiro sem precisar, não sei como ainda não inventou outra desculpa para subir.

“Eu não sei como essa pizza consegue ser tão boa!”
               “É pizza, nunca é menos que tão boa.”
               “Eu sei, mas nossa!”
               Eu lembro de quando a Julia surgiu, nova no seu trabalho e na cidade, e eu não fui com a cara dela, mas você me pedia um esforço porque “ela é legal, você vai ver”. Quem diria que hoje eu escolho o sabor da pizza dela e acerto demais? Você diria, acho. É como se você soubesse.
               “Mas enfim, chega de me enrolar. Você trocou de sofá!”
               Fingi que a resposta seria só um sorriso outra vez, mas evitei ser xingado. “É. Sei lá. Acho que era na hora de mudar algo.”
               Algo!? Ainda tem absorvente no armário do seu banheiro, cara. Coisas são só coisas, já passou muito da hora.”
               “Primeiro, para de mexer nos meus armários. Segundo, você não conhece a história do sofá, né?”
               “Tá, vocês provavelmente viram muitos filmes juntos, dormiram várias noites nele, treparam pra cacete, mas não é o fim do mundo, sabe?”
               “Então”, expliquei, “quando a gente mudou pro apartamento, aquele sofá era a única coisa que a gente tinha. A única. E só porque já era dela antes, que ela tinha roubado da república onde ela morou na faculdade.”
               “Como assim roubado?”
               “Deviam pensar que já era dela, acho. Mas ela aproveitou que estava sozinha lá no dia da mudança e levou porque era confortável demais. E era. O pouco resto de coisas que ela tinha demorou dias pra chegar, e eu tinha umas roupas numa mochila e mais nada. A primeira noite a gente passou com uma pizza e vários vinhos naquele sofá. No dia seguinte, a gente adotou o Cosmo e então tinha um pote de água, um de comida e o sofá, que virou a cama dele pra sempre. E a casa inteira surgiu a partir dali.”
               Às vezes eu conto coisas assim e as pessoas precisam de alguns segundos em silêncio. Já me acostumei.
               “Mano!”, ela finalmente conseguiu dizer.
               “Pois é.”
               “Olha, eu sou super a favor de você seguir em frente, mas será que isso não é grande demais? Você falou com alguém sobre?”
               “Não. O Lê concordaria com você, a Bruna discordaria. O André ia só chorar. Mas não importa, tá feito. O sofá foi embora, qualquer hora eu compro outro.”
               “Você ainda não comprou outro?!”
               Eu não estava com a menor vontade de comprar outro, pra ser sincero. A cadeira e o banquinho eram extremamente desconfortáveis, mas já fazia muito tempo que tudo era extremamente desconfortável. O problema é que a Julia e o resto estavam começando a relaxar e baixar a guarda comigo, a se preocupar menos. Desistir de ter um sofá em casa levaria tudo de volta ao começo.
               “Ainda não. Amanhã ou depois eu vejo isso, preciso achar o aplicativo.”
               “Você vai comprar sofá por aplicativo?”
               “Não é assim que os jovens fazem hoje em dia?”
               “Para com isso. Não dá pra escolher sofá pelo celular. Tem que ver, pôr a mão, dar uma sentadinha.”
               “Tem certeza que você tá falando de comprar sofá?”
               “A gente pode ir amanhã! Depois nós almoçamos algo.”
               “Eu te mando fotos dos finalistas e deixo você dar palpite.”
               “Não...”
               “É pegar ou largar.”
               Ela não gostou, mas aceitou.

O sofá acabou de chegar. Escolhi sozinho. É bonito, confortável até, mas sem comparação. Talvez eu deva adotar um cachorro agora, ou um gato, me daria um charme todo novo, não? Será que o Cosmo me perdoaria? Duvido. Mas enfim, sem bichos por enquanto. Já decidi qual é o próximo passo. Eu preciso de uns dias, ou algumas semanas, mas prometo que vou fazer. Eu vou me livrar daqueles absorventes.

Tyler Bazz

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