quinta-feira, 16 de agosto de 2018

Check-in


                Minha última lembrança era abrir mais uma garrafa de vinho, cerca de duas da manhã. Agora, tinha acordado fazia pouco menos de uma hora, num canto afastado de uma das áreas de espera do aeroporto, sem a menor ideia de como tinha ido parar lá e com um peso cinza estranho nos ombros. Observava os destinos e horários girando no painel de embarque quando ouvi sua voz: “Ei!” Reconheci no mesmo segundo. Ela já vinha na minha direção, sorrindo e desviando das malas e carrinhos de bagagem, e minha reação mais sincera e até inevitável – e eu não tentei evitar – também foi sorrir, apesar de saber que na situação contrária eu fingiria não tê-la visto e sumiria dali.
                “Você veio mesmo!”, ela disse, antes de me dar um abraço tímido.
                Eu tinha ido, não desmenti.
               Pouco depois estávamos em uma cafeteria. Ela com pães de queijo, um croissant, um cookie e um chá de ervas, eu só com a garrafa de água que tinha comprado antes, tentando diminuir a dor de cabeça e tirar o gosto de ressaca da boca.
                “Indo pra onde?”, perguntei assim que a garçonete se afastou com a bandeja vazia.
                Ela respondeu como se fosse óbvio. Eu conhecia o lugar e morria de vontade de visitar outra vez, mas não tive tempo para pensar nisso, entendendo tudo cada vez menos e também achando um pouco rude ela não ter perguntado para onde eu, que também estava no aeroporto, ia.
                “Uau!”, meu entusiasmo não era fingido, apesar da falta de foco. “Vai comer bem lá, hein?”
                “Nossa, sim. Mas minhas roupas precisam servir um bom tempo ainda, que essa coisa de trocar de país custa um dinheiro meio sem noção, então não muito.”
                “Boa sorte”, respondi com um princípio de riso. Bebi mais um gole de água enquanto ela comia o croissant e a encarei, sem saber o que dizer. Ela teria que se virar com os nossos silêncios.
                “A gente não precisa ter nenhuma conversa séria”, ela disse, se interrompendo com um gole de chá. “Só me conta o que você tem feito, como anda a vida, sei lá.”
                “Não mudou muita coisa”, dei de ombros. “Eu só trabalho bastante e me distraio um pouco.”
                “Já é algo. E o que mais?”
                “Nada de útil. Aprendi a falar francês.”
                “Isso não é inútil! Tudo bem que vai ser quando você for me visitar, mas não é inútil, não.”
                “Eu vou te visitar?”, por um momento, tive medo por talvez ter esquecido passagem e passaporte, o que não fazia nenhum sentido.
                “Para de ser besta. Me fala algo em francês.”
                “Nem fodendo.”
                “É, valia a pena tentar. Mas aprendeu por quê? Tá pensando em ir pra lá?”
                “Não, só aprendi mesmo. Sem planos.”
                “Não é possível que você continue sendo assim.”
                “Assim como?”, aceitei um pedaço de pão de queijo que ela oferecia. Estava quase péssimo.
                “Não planejando, só fazendo as coisas sem pensar em nada além da próxima sexta-feira.”
                “Não é desse jeito, também.”
                “Não!? Então você não vai vivendo a vida sem nenhum plano, sem objetivo nenhum, sem ter uma mínima perspectiva de futuro que seja?”
                “Agora você tá só tentando me deprimir e me jogar no buraco.”
                “Chumbo trocado com atraso também não dói.”
                Ela sorriu mais que eu. Seria o momento para um pedido de desculpas, eu sabia, mas não disse nada. Eram anos demais de atraso, e no final das contas a gente estava ali, seria estranho dar um passo atrás. Desnecessário. Mas é óbvio que eu pensaria assim.
                Nossa conversa durou um pouco mais que o chá. Ela insistia em querer saber de mim, ignorando que era ela quem estava a ponto de trocar de continente e tinha coisas realmente interessantes para contar. “Não mudou nada nessas horas”, me disse. “Só que agora parece que ficou tudo mais no lugar.” Que horas? Que lugar? Por que ela parecia saber que não estávamos ali por acaso enquanto eu começava a me perguntar se teria morrido e ido para algum tipo de purgatório? Socorro.
                Na entrada da área de segurança, ela me apertou num abraço e me deu dois beijos no mesmo lado do rosto. “Eu adorei que você veio. Me deixou muito mais leve. Vai pra lá me ver, não demora.” Etc. E nos despedimos.
                Se ela ficou mais leve, o peso nas minhas costas era enorme. Eu não sabia como estava no aeroporto, por que tinha me encontrado com ela depois de tantos anos, por que ela falava de visitas como se fosse algo natural e esperado. E também não entendia como, no meio daquela confusão toda, um risquinho de sol conseguiu cruzar a nuvem pesada que andava comigo.
                Vaguei um pouco pelo aeroporto, sem dar muita atenção às despedidas, corridas para o check-in ou avisos de atraso e embarque imediato. Comprei um livro e um chiclete e já estava na fila dos táxis quando me lembrei do trem. Não era perto, mas eu tinha tempo de sobra.
                Já no vagão, em direção ao centro da cidade, o celular vibrou. Era uma mensagem dela, com beijos e um aviso de que já decolava. Foi quando descobri algo que explicou tantas coisas quanto confundiu ainda mais minha cabeça. Tínhamos nos falado por quase uma hora, às quatro da manhã. Ligação dela, menos mal.
                Abri o livro, que em tese era fácil de ler, mas não conseguia me concentrar em duas frases. Não tinha nenhuma lembrança de chegar ao aeroporto, de sair de casa, de falar com ela. Na minha cabeça, fui direto do som da rolha na sacada para a área de embarque. Eu precisava de ajuda.
                E cacete, eu precisava de um café.

Tyler Bazz

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