segunda-feira, 3 de julho de 2017

Terminal



                Acordou e encontrou o espaço a seu lado na cama vazio. Ela já tinha se levantado, feito café, escolhido um dos livros novos sobre a cômoda e puxado uma cadeira da sala para o quarto. Tinham passado algumas noites juntos nas três semanas em que se conheciam, mas ela nunca tinha saído da cama sem ele, explorado o apartamento, feito café. Era sábado e ela se sentiu à vontade em sua casa. Aquilo não o incomodou.
                Ela levou uma xícara de café para ele. Colocou-a sobre o criado-mudo e pegou um dos livros da pequena pilha que havia ali.
                “Eu adorei esse livro. Você gostou?”
                “Eu parei antes da metade. Não curti.”
                Foi numa livraria que se conheceram. Conversaram entre cafés e estenderam aquele fim de tarde o máximo que puderam. Quando ele foi embora, depois de marcarem uma saída juntos na noite seguinte, ela comprou uma cópia do livro que ele estava levando. Parecia ser bom – e era! Ela leu em três dias e se apaixonou.
                “Acho que você devia dar outra chance pra ele.”
                “Eu também acho. Daqui uns dias, talvez.”
                Não era muito de dar segundas chances para livros dos quais desistia, principalmente tão cedo, mas não teve dificuldades para se convencer. Beijou-a na perna, terminou a xícara e foi até a cozinha buscar mais.
                Na sala, o telefone tocou. Voltou para o quarto minutos depois.
                “Aconteceu alguma coisa?”, ela perguntou ao ver seu rosto um pouco assustado, quase em choque, e triste.
                “O seu Antônio morreu.”
                “Quem?”
                “O seu Antônio da estação. Acho que não te contei a história.”
                “Não.”
                Ele começou a contar a história, mais ou menos assim:
                “Eu cresci numa cidade de quarenta, cinquenta mil habitantes. Saí de lá pra fazer faculdade aqui. Quando eu tinha uns dez anos, inventaram de construir uma nova estação de trem. Seria mais moderna, mais segura, boa para a cidade. Disseram que ia aumentar o turismo. Pra ver o quê, eu até hoje não sei.
                “A construção foi bem rápida, que eu me lembre. Fizeram a estação em um bairro novo da cidade, que foi crescendo junto com a obra. Abriram lojas, lanchonetes, alguns mercados, um hotelzinho, e muita gente resolveu morar por lá. Um pouco mais de dois anos depois do anúncio da obra, a nova estação tinha data de entrega e inauguração marcada. E quando esse dia chegou, o seu Antônio arrumou uma mala pequena e foi pra lá. Queria viajar no primeiro trem da estação nova.
                “Só faltava um detalhe. Os trilhos.”
                “Mentira!”
                “Sério. Precisavam construir os trilhos da entrada da cidade até a nova estação, e da nova estação até a saída da cidade. A prefeitura não tinha dinheiro. O governador do Estado ignorou os pedidos do prefeito, mesmo eles sendo do mesmo partido. E a empresa que cuidava da ferrovia disse que não estava nem sabendo de uma nova estação. Hoje eu sei que a estação deve ter sido esquema do prefeito pra desviar o que existia e o que não existia. Antigamente, precisava fazer umas obras grandes pra desviar dinheiro, roubar merenda de criança ainda não era algo aceito por tanta gente.
                “Enfim. Todo mundo já sabia que não ia ter inauguração nenhuma. A história tinha virado piada na cidade toda. Só o seu Antônio foi pra lá.”
                “Mas por quê?”
                “Deve ter ficado louco, dado alguma coisa na cabeça, não sei. Ele passou a noite na estação, dormindo num banco da plataforma, e no dia seguinte a mesma coisa. Ficou esperando. Avisaram a família e a polícia, que foram até lá, mas ele só dizia que não podia sair dali porque estava esperando o trem.
                “Ele tinha uns cinquenta anos e trabalhou na obra da estação com pequenos serviços. Também ajudou a construir quase todas as lojas que surgiram nas ruas do bairro. A dona Célia, esposa dele, dizia que ele acreditava que a nova estação seria boa para os negócios da cidade, que iria gerar dinheiro, que ele falava com brilho nos olhos do quanto a ferrovia tinha sido importante para a cidade onde cresceu, e que não tinha percebido nada de errado com o seu Antônio até o prédio ficar pronto e ele continuar ansioso para a inauguração que todo mundo sabia que não aconteceria. No dia marcado, ele arrumou a mala e foi para a estação.
                “E por lá ele ficou. Nunca saiu do prédio, nem mesmo quando a dona Célia morreu depois de uns anos. Dizem que ele não reconheceu o nome quando deram a notícia, mas pareceu ficar triste. Quando perguntaram se ele iria ao velório e o enterro, ele respondeu ‘É uma pena, mas eu preciso ficar aqui. Estou esperando um trem.’ Depois disso, o único filho do seu Antônio foi embora da cidade, acho que pra não voltar mais. Imagina a cabeça desse cara...”
                “Ninguém cuidava dele? Do seu Antônio?”
                “O pessoal do bairro e da cidade sempre levava comida pra ele, cobertor no frio, essas coisas. Era meio que parte da cidade, uma instituição. A estação abandonada e o seu Antônio.
                “Acabou virando um ótimo lugar pra brincar. De manhã, a estação vivia cheia de crianças correndo pra cima e pra baixo, enquanto o seu Antônio só falava pra gente tomar cuidado na plataforma. No fim da tarde, uma molecada mais velha ia lá pra fumar e beber escondido, o ele dizia que era errado e não fazia bem, mas sempre pedia um cigarrinho e vira-e-mexe aceitava uma dose de vodca. Não sei quantas vezes eu levantei meu copo pra ele e disse ‘Saúde, seu Antônio!’
                “Eu perdi bastante contato quando fui crescendo e nem lembrava dele direito depois que mudei pra cá. Perguntei dele pra minha mãe no último Natal e ela disse que estava na mesma. Ainda lá, esperando o trem. E ontem ele morreu. Foram levar algo pra ele almoçar e ele estava no banco da plataforma, sentado do lado da mala.”
                Ela havia ouvido a história quase em silêncio e tinha lágrimas nos olhos.
                “Que parada triste,” disse.
                “É mesmo,” disse ele. “A gente vai almoçar?”
                “Parece história de livro.”
                “Sério?”, ele perguntou.
                “Eu achei bem metafórica. Ele sabia o que queria, acreditava que aquilo seria bom pra ele e não se contentou com outra coisa. Ele fez o que podia, e quando não dependia dele, ele esperou. É bem triste, ainda mais porque é verdade, mas é muito bonito. Tem todo um significado.”
                “Nunca tinha pensado nisso.”
                “É que você faz parte da história. É normal.”
                Ele entrou no banheiro para escovar os dentes e fechou a porta.
                “Falei com as meninas aqui,” disse ela, terminando de se vestir, “elas querem comer feijoada e chamaram. Aí você aproveita e conhece elas. Vamos?”
                Ele saiu do banheiro já vestido e com o olhar distante, e triste, parecido com o que tinha ao desligar o telefone mais cedo.
                “Acho melhor você ir.”


Tyler Bazz

Nenhum comentário: