segunda-feira, 8 de maio de 2017

Processo de composição



                Mateus conferiu mais uma vez a afinação da guitarra e olhou a seu redor, gesto que repetia com frequência quase obsessivo-compulsiva na última hora. A cada poucos minutos, às vezes segundos, corria os olhos pelo ambiente, reparando a presença de pessoas esperadas e inesperadas, e principalmente a ausência das que ainda não tinham chegado, algumas das quais não chegariam. Suas mãos transpiravam e seu corpo parecia vacilar, reações que já conhecia. Esses efeitos da ansiedade desapareciam assim que respirava fundo antes da primeira música.
                Abriu uma segunda cerveja, embora preferisse evitar beber antes de subir ao palco. Gostava da experiência mais pura, dizia, de poder ler o público sem filtros. Sentia-se mais nervoso do que achava normal. Sempre se sentia mais nervoso do que achava normal. Verificou a configuração dos pedais. Cada rosto familiar que encontrava – alguns amigos, cerca de três dezenas de conhecidos e até duas ex-namoradas – aumentava sua ansiedade.
                Conferiu mais uma vez a afinação da guitarra, a configuração dos pedais, a conexão dos cabos. Mexeu nos cabelos, respirou fundo e o nervosismo desapareceu. Era hora. Os outros dois terços da banda juntaram-se a ele. Começaram.
                As luzes do palco nunca lhe agradaram, e nunca esteve à vontade com toda a atenção de uma apresentação ao vivo. Nesta noite, porém, tocou com a cabeça ainda mais baixa do que de costume, dois passos mais próximo da bateria, como se a qualquer momento fosse saltar e se esconder atrás dela. Os olhares o perseguiam, tinha certeza, e apesar de ver que cabeças e corpos se deixavam levar pela música, estava convencido de que todos na plateia tinham incontáveis motivos para não gostar dele – inclusive o punhado de amigos, os quase cinquenta conhecidos e as agora três ex-namoradas.
                Tentou se lembrar de quando havia escrito as melodias que agora tocava. Não fazia tanto, mas elas lhe soavam como outro idioma, incapazes de dizer algo a qualquer uma daquelas pessoas que as ouviam. Era como se ele saísse do palco e passasse a falar esloveno em um bar no centro de São Paulo. Sentiu o distanciamento, seu peso, e sentiu falta de falar a mesma língua de quem o rodeava. Quando terminaram, esforçou um sorriso, acenou e demorou o quanto pôde para guardar seu equipamento, a ponto de irritar o artista que tocaria em seguida. Saiu escondido pelos fundos, escapando de qualquer olhar de aprovação, abraço ou elogio que não saberia dizer se era ou não sincero.
                Comprou um maço de cigarros e duas garrafas de vinho. Foi direto para casa. Tinha tanto a dizer àquelas pessoas, tanto às presentes quanto às ausentes. Precisava agradecer, cobrar, tirar pesos das costas, questionar e muito mais. Queria voltar a falar com cada uma delas, individualmente ou não, em sua própria língua. Sentou-se no colchão em que dormia na sala, caderno e lápis em mãos, conferiu a afinação do violão. Estava decidido e entusiasmado como há tempos não ficava. Escreveria um disco de cartas para as pessoas de sua vida, conseguiria de fato falar com cada uma delas. Um gênero diferente do seu, cara nova, tudo, e algo que todas elas entenderiam.
                Fumava na janela, alternando a vista entre o céu nublado e os prédios de janelas estreladas que formavam o horizonte. O vinho descia macio, deixando as canções mais claras, simples e prontas em sua cabeça. Ouviu Tom Waits para se inspirar, ouviu Leonard Cohen. Vai ficar tudo bem porque eu vou conseguir dizer tudo, pensou, e então a distância vai diminuir e ninguém vai ficar sozinho, e todo mundo vai se entender melhor. Levou o caderno à janela, até mesmo a luz dos apartamentos próximos ajudava. Acendeu mais um cigarro, serviu-se de mais vinho, chegou a se comover quando a lua apareceu entre as nuvens.
                Os cigarros acabaram, o vinho subiu e a adrenalina baixou. Dormiu ao lado do violão desafinado, o caderno em branco. Mateus não escreveu nenhuma canção.

Tyler Bazz

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