quarta-feira, 18 de janeiro de 2017

A última parada



As batidas na porta de casa aumentavam em frequência e intensidade, como os raios e trovões distantes que eu observava pela janela. Em cidades muito grandes – e poucas são maiores que a minha –, sempre fico imaginando onde é a chuva quando começo a ver relâmpagos. Em um bairro pode cair o mundo, enquanto em outro está nublado e num terceiro pode até fazer sol.

Três dias antes, eu estava em uma cidade tão pequena que qualquer chuva banharia seus quatro cantos ao mesmo tempo. Cheguei à hospedaria, que se anunciava como hotel e deve ser o menor que já vi, um sobrado com três suítes no andar de cima, a sala no andar de baixo funcionando como recepção e a cozinha indisponível para hóspedes. Ocupei o maior dos dois quartos com vista para a rua, não havia outro cliente. O cômodo tinha um banheiro simples e limpo, um armário pequeno – que abri com cuidado redobrado ao guardar a mochila – uma cama de casal e uma escrivaninha com cadeira em estilo antigo, onde passei um par de horas concentrado, traçando possíveis planos a lápis em papel de rascunho. Era isso que tinha feito durante boa parte do meu tempo acordado nesses últimos dias. Eu precisava me distrair.

Rasguei os papéis de rascunho, queimei com um isqueiro e joguei as cinzas pela descarga. O dia ainda estava claro, embora o relógio já indicasse noite, e saí em busca de uma cerveja. Andei até uma ponta da cidade e não achei nenhum tipo de comércio aberto, bar, nada, e com a perspectiva de não encontrar uma cerveja que fosse, comecei a ser tomado por uma preocupação que poderia ser vista como desproporcional, considerando minha situação.

A preocupação, porém, só aumentou meu alívio quando vi, já perto do canto oposto da cidade, um bar pequeno, com decoração que tentava se passar por moderna e mesinhas redondas na calçada. Fazia parte do segundo e maior hotel dali – este, numa casa de três andares! Me sentei do lado de fora, pedi um chope para a senhora simpática que cuidava tanto do bar quanto da recepção do hotel e tentei relaxar enquanto o sol se aproximava lentamente do horizonte.

O relaxamento durou pouco. Na metade da bebida, um táxi virou a esquina e veio em minha direção. Desloquei um pouco o corpo para fora da mesa e segurei firme o copo de vidro, por via das dúvidas. Também durou pouco minha tensão. Uma garota que não devia ter muito mais que vinte anos desceu do carro. Usava uma camiseta que dizia “Really good at bad decisions” e, enquanto entrava no hotel, me olhou como se estivesse pronta para tomar mais uma.

Eu poderia dizer que não me lembrava da última vez que tinha visto uma mulher tão linda, mas seria apenas força de expressão. Eu sabia cada detalhe, quando, onde, quem. Quando você perde tudo, fica difícil se esquecer das últimas vezes.

Pouco tempo depois ela saiu do hotel e parou na calçada por alguns segundos, observando a queda tardia da noite, antes de ir até a mesa onde eu estava e oferecer companhia. Aceitei e estava pronto para perguntar o que beberíamos quando a dona do hotel nos trouxe duas taças de vinho, que ela já havia pedido. De todos os planos que eu andava traçando em papel de rascunho, nenhum deles envolvia me apaixonar por alguém, nem mesmo me deixar encantar, mas ela já começava dificultando muito as coisas.

“E o que te traz aqui?”, perguntei, depois de nos apresentarmos.

Ela respirou fundo e bebeu um gole antes de responder: “Eu estive aqui por uns dias, três anos atrás. Aí quando as coisas não estão muito boas, ou sempre que eu posso, eu volto pra tentar viver um pouco daquela felicidade. Eu tenho lembranças muito boas daqui.”

Era mentira, eu sabia. Já tinha usado uma versão muito parecida da história em vários hotéis, hostels e cafés pelo mundo. É o tipo de coisa que você diz quando quer pegar alguém – porque se você convence a pessoa de que um lugar é especial para você, cheio de memórias felizes, e então convida essa pessoa para fazer parte da sua vida, do seu dia ou da sua noite, misturando-se com todas as boas lembranças do lugar, não costumam resistir. Aquele era o tipo de mentira que me deixava feliz.

“E você?”, ela perguntou.

“Exatamente a mesma coisa!”, respondi, com os olhos arregalados.

Ela riu e eu fiquei feliz outra vez.

“Meu carro quebrou aqui perto”, menti. “Tem conserto, mas só amanhã.”

“Que saco, hein?”

“Achei que seria pior.”

A cidadezinha ficava belíssima com as luzes acesas à noite. Havia dias que eu não ficava tão tranquilo, apesar da apreensão que percorria meu corpo cada vez que alguém passava pela rua, ou quando a outra mesa da calçada foi ocupada por três pessoas que demoraram a me convencer de que eram inofensivas. Com o tempo, relaxei de verdade. O vinho ajudou, a conversa e minha companhia também, e algumas taças e várias mentiras depois, subimos para o quarto dela.

Horas depois, eu me vestia e ela fumava um cigarro nua na cama, soltando a fumaça pela janela aberta, por onde entrava uma brisa com cheiro de chuva.

“Tyler...”, ela disse.

Se você está sozinho com uma pessoa e ela usa seu nome antes de dizer algo, em vez de simplesmente dizer, sempre é importante. Por isso nós temos essa sensação estranha quando nos chamam pelo nome. No meu caso, porém, a sensação foi bem pior que estranha. Quando ouvi meu nome verdadeiro, e não o que tinha dito a ela, minhas pernas perderam a firmeza, o suor ficou gelado sobre minha pele e eu me senti muito, muito mal. Tinha certeza de que as notícias não seriam nada boas. Eu queria mais vinho, precisava, até, mas não beberia se tivesse algum no quarto. Respirei fundo e estendi a mão pedindo um cigarro, não fazia mais sentido tentar parar.

“Já sabem?”, perguntei.

“Estão vindo atrás de você, e a ordem é não te deixar vivo.”

“E você?”

“Eu fiz uma puta cagada.”

Cruzei a pequena cidade com atenção triplicada e máximo cuidado ao dobrar cada esquina e passar por cada árvore, poste ou lugar escuro. Entrei no hotel pelos fundos, sem ser percebido por ninguém, e arrumei minhas coisas o mais rápido que pude. Fechei a janela e passei o que restava da noite sentado na cadeira, sem tirar os olhos da porta.

Antes de amanhecer, embarcava no primeiro ônibus. Ainda pegaria mais um para chegar a um dos últimos lugares onde me procurariam, acreditava eu. Minha cidade grande, enorme, com seus vários climas ao mesmo tempo.

Se era para ficar em perigo, eu ficaria em casa.


Tyler Bazz

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