sexta-feira, 9 de setembro de 2016

Luzes

O celular vibrou no bolso de dentro da minha jaqueta e eu fingi que não era comigo. Ainda estava puto com ele por causa das notícias que tinha recebido mais cedo. Ele, o celular. Tenho certeza de que eu não sou o único que faz isso, associar sentimentos e acontecimentos a objetos e lugares e comidas. Sorte de quem não faz. E foi meio por isso, meio por burrice que, dez minutos antes de o celular me deixar puto, eu fui parar naquele bar que cheirava a fritura e pedi uma taça de vinho que custava mais do que deveria. Não que eu entenda alguma coisa de vinhos, mas eu sei que quando pago o que paguei pela taça, o vinho costuma ter um gosto melhor. Essa é uma das coisas que boas lembranças provocam, elas fazem a gente gastar dinheiro em tentativas ridículas de recordar ou reviver qualquer coisa, por menor que seja, de uma época, um evento, uma noite especial. O meu gasto desnecessário era para lembrar a sensação de estar no centro das atenções de alguém por algumas horas, esse tipo de coisa que faz a gente se sentir interessante.

Minha tentativa envolvia beber sozinho num bar praticamente vazio e frequentado por gente de quem eu não queria atenção nenhuma, mas isso não vem ao caso.

E eu não queria de fato reviver o que tinha acontecido. Mas eu estava tendo um dia difícil, a data trazia memórias demais à cabeça.

Meses antes, na noite com as sensações das quais eu queria me lembrar, ela e eu chegamos ali já meio bêbados. Eu mais que ela, desconfio até hoje. Fomos pela comida, um clássico, barato e que “não fica muito melhor que isso”. O vinho, apesar de não ser a harmonização ideal, por assim dizer, foi escolhido porque queríamos tirar a dúvida de tantas noites: é vinho depois de cerveja ou cerveja depois de vinho que te deixa mal? Não chegamos a nenhuma conclusão, esquecemos o assunto antes mesmo de a primeira taça acabar.

O celular vibrou outra vez, agora, insistindo. Atendi depois de ver quem era.

“É dois mil e dezesseis. Você é a única pessoa que ainda liga pra falar com alguém.”

“E uma das poucas que conseguem falar com quem quer, quando quer”, o João respondeu.

“Justo”, aceitei, enquanto pagava a conta com uma nota de vinte e deixava o troco para trás.

“Fala.”

“Onde você tá?”

“Tomando uma, na Augusta.”

“Boa. A gente tá indo pro Central. Passamos aí em três.”

“Cara, eu não sei se vai rolar.”

“Vai rolar sim.”

“Tá frio, tá chovendo e...”

“Eu não vou deixar você não ir. Eu sei que dia é hoje.”

O reflexo dos sinais de trânsito no chão molhado era bonito e me deixou um pouco menos deprimido. Uma onda de quase otimismo passou por mim. Talvez a noite acabasse melhor do que eu esperava, talvez eu não precisasse me sentir tão mal. Perceber que alguém se importava comigo o suficiente para ligar numa sexta à noite, naquela sexta à noite, e me obrigar a não ficar sozinho e triste chegou a me comover. Deixei de resistir e fui.


Era cedo e a entrada estava tranquila no Central, sem filas. Paulo, o segurança, perguntou como estávamos e jogou um pouco de conversa fora. Nós entrávamos sem ser revistados, um privilégio de poucos, mas que não fazia diferença alguma. Marina, a hostess, não me reconheceu, nem nos deu qualquer tipo de tratamento especial. O atendente do bar acenou assim que nos viu entrar, estendeu a cerveja quando cheguei ao balcão e me cumprimentou enquanto tomava o número da comanda.

Amigo do segurança, amigo do cara do bar, completamente ignorado pela hostess. Talvez isso seja um ótimo retrato de como andava minha relação com as mulheres.

Mas, em minha defesa, não é todo mundo que conversa com o segurança da balada, que só ouve a voz de muita gente em forma de desaforo. Não é todo mundo que passa boa parte da noite, toda semana, com os cotovelos apoiados no balcão do bar. Já a hostess tem que aturar, de cada homem que passa por ela, uma frase desnecessária, um sorriso ensaiado, um olhar longo demais. Ela precisa filtrar, bloquear e ignorar até mesmo quem frequenta o lugar mais do que deveria – o nosso caso. E mesmo que não fosse esse o motivo, quem vai dizer que ela é obrigada a fazer mais que seu trabalho?

Depois de um brinde discreto e mudo, João e eu fomos para a pista. Um dos motivos para frequentarmos tanto o Central era a música, que variava entre noites e também na mesma noite, cobrindo boa parte de tudo o que gostávamos e às vezes saindo um pouco do que a gente costumava ouvir. Som novo, fora da nossa zona de conforto.

Zona de conforto musical. Meu Deus.

O DJ, um semiconhecido meu, acenou com a cabeça quando passei por ele. Ninguém mais pareceu me notar ali, o que é algo entre um bom e um mau sinal quando se está numa pista de dança. O João encontrou um amigo, acompanhado de mais três ou quatro pessoas (eu nem sempre sabia quem estava no grupo e quem só estava por perto). Fomos até eles.

“Oi, prazer, tudo bem?...” etc., eu não ouvia o nome de ninguém, mas isso ainda conta como conhecer gente nova, certo? Espero que sim. Mas nem dois minutos depois eu já estava em silêncio, rodeado de pessoas dispostas a conversar. Esse é um problema de conhecer gente nova, para mim, eu nunca tenho algo interessante para dizer, então fico quieto. Talvez, se falasse coisas interessantes, eu não começaria noites de sexta pagando caro demais em vinhos e sonhando com o passado.

Quando ela foi embora, essa foi uma das poucas e vagas coisas que me disse, que eu não falava muito, que era quieto demais, que a gente quase não conversava. E talvez hoje ela esteja com um locutor de rádio, ou um desses caras que não param de falar nunca, monopolizam todas as conversas, convencidos de que o mundo gira a seu redor e de que é um privilégio que possam ouvi-los, mesmo que os ouvidos das pessoas ao redor comecem a sangrar. Seu típico Dean Moriarty. Sempre tive a impressão de que as pessoas dizem querer um bom ouvinte, até encontrarem um. Mas é assim o ditado, “cuidado com o que deseja”, certo?

O DJ tocou uma música dos Stones e eu comecei a dançar, ainda tímido, desajeitado por estar sóbrio, ou sem o inebriamento para disfarçar minha falta de jeito. Até hoje não sei qual é meu caso. Mas tenho certeza de que Keith Richards compõe para nós, os desajeitados – quanto aos sóbrios, eu não apostaria, mas quem sabe? Olhei em volta. Dentro ou fora do nosso meio círculo, nenhum olhar me procurava e nenhum sorriso era para mim, como eu declarava que normalmente acontecia, embora sempre me respondessem que as coisas não eram bem assim.

A música terminou e a seguinte era bem menos conhecida e um número razoável de pessoas deixou a pista. Um dos piores tipos de pessoas, as que só dançam as músicas que já conhecem. Quem sai de casa e paga – nem sempre pouco, diga-se – para entrar num lugar e ouvir suas músicas favoritas? Eu posso falhar na hora de conhecer novas pessoas, ou de lidar com coisas que aconteceram, e até mesmo em questão de gosto musical, mas sou incapaz de compreender quem faz isso. Resolvi dançar com mais vontade, tentando demonstrar minha indignação, mas minha cerveja me traiu e acabou. Eu ainda não estava pronto para não ter uma cerveja na mão, então cruzei a pista e fui até o bar.

“Mais uma”, pedi, estendendo a garrafa vazia sobre o balcão.

“Tudo certo, cara?”, Daniel, o bartender perguntou.

“Tudo tranquilo”, respondi.

“Tá com cara de desanimado.”

“É a vida”, ofereci minha melhor expressão de ‘fazer o quê?’, perfeita para transformar uma reclamação séria em brincadeira, conversa jogada fora.

“Toma isso aqui”, ele me entregou um copo de shot junto com a cerveja.

“Que porra é essa?”

“Rum.”

E eu bebi.

“Boa!”

“Não é? Esse rum tem uma história boa também.”

Mas o bar estava cheio de clientes e a história precisou ficar para outro dia. Voltei para a pista, já com um sorriso mais fácil no rosto, interagindo melhor com os amigos e as amigas do João e quem mais fosse. Algumas músicas depois, decidimos sair para fumar. Cruzei a pista abrindo um novo corredor entre as pessoas, joguei minha garrafa vazia no lixo e tomei o rumo da saída.

E talvez tenha sido a mistura de vinho, cerveja e rum. Talvez tenha sido meu subconsciente me convencendo de que eu precisava passar por aquilo. A questão é que quando eu vi a expressão de raiva em um rosto conhecido e descontrolado vindo em minha direção, pronto para destruir o copo na minha cara, eu tinha tempo, mas meu braço não fez menção nenhuma de se erguer.


Eu não sei se o copo chegou a quebrar, porque não achei nenhum caco de vidro no meu rosto. O fundo abriu um corte por onde o sangue escorria e a dor foi suficiente para me deixar fora de órbita por um tempo. Ao que me parecia, ele veio na minha direção, bateu o copo na minha cara e sumiu. E eu passei alguns minutos sem saber onde estava.

Quando a adrenalina baixou, percebi que estava atrás do bar, no banheiro dos funcionários – muito mais limpo que qualquer outro canto do Central. Marina estava lá. Mantinha um pedaço de pano sobre o corte com uma das mãos e segurava minha nuca com a outra, movendo os dedos com um toque leve demais para ser o de alguém que não se importava. Falava comigo e me chamava pelo nome. Eu sorri para ela, ela retribuiu.

“Tudo bem aí, cara?”, o Daniel surgiu na porta do banheiro.

“Acho que sim”, respondi, me levantando. Ele voltou para o bar, que agora parecia ainda mais movimentado.

“Caralho, meu! Que filho da puta sem noção! Você sabe quem é? Você deve tá querendo matar ele!”, ela disse, parada ao meu lado, enquanto eu olhava a situação pelo espelho.

Nada como um lugar limpo e bem-iluminado para colocar as coisas em perspectiva.

“Pra ser justo”, respondi, “eu merecia ter apanhado mais.”

“Como assim?”

“Eu meio que ajudei a ferrar com a vida do cara sem quase nenhum motivo,” tentei repetir a expressão ‘fazer o quê?’, mas acho que só consegui expressar dor.

Ela fixou o olhar no meu e pela primeira vez desde que a vi eu tive certeza de que nós treparíamos em algum momento da vida. Incrível como a filha-da-putagem pode ser atraente para algumas pessoas.

Quanto ao Fábio, meu agressor, bem... Não por minha causa, mas sem dúvida com grande participação, ele perdeu a namorada, o emprego e o respeito dos melhores amigos, tudo em um só movimento. Eu não cometi nenhum crime, nem menti sobre nada, mas forcei uma situação da qual era praticamente impossível que ele saísse ileso. E fiz isso só porque ele frequentava alguns dos mesmos círculos que eu. E ele me irrita um pouco. E eu quis me livrar dele. Quem não quebraria um copo na minha cara, né?

O João apareceu na porta, com cara de que só então começava a se acalmar, acompanhado do Paulo, cujo rosto mostrava o incômodo não comigo, mas pela parte cansativa da noite ter começado tão cedo.

“A gente tá segurando ele aí”, disse, “quer que chama a polícia?”

“Não, cara. Relaxa”, respondi.

“Sério mesmo?”, perguntou o João.

“Sério. Só faz a de vocês aí, proíbe o cara de voltar, sei lá. Eu não vou atrás dessa treta, não.”

Olhei para a Marina, sorrindo: “Eu só espero não ter que pagar pelo copo.”

Ela riu. “Nem o copo nem nada. Incluindo a saideira.”


Dez minutos e alguns quarteirões mais tarde, João e eu chegávamos a um bar onde estavam alguns amigos. A chuva causava uma ardência desagradável no meu rosto, mas não era forte o bastante para abrir o corte, que no fim das contas não foi tão profundo quanto poderia. Com uma cerveja na mão e uma diagonal de sangue recém-coagulado na testa, eu chamava alguma atenção.

Entre os amigos, os amigos dos amigos e os conhecidos que passaram por nossa mesa na calçada, contei a história da noite no mínimo três vezes. O João, outras tantas.

Todo mundo se interessava.


Tyler Bazz

Um comentário:

Marina disse...

Tinha esquecido de como gostava dos teus textos. Foi bom lembrar.
;)