segunda-feira, 12 de janeiro de 2015

Manhã em Saint-Ambroise



“Dá pra você apagar essa merda?”, pediu Marie, ainda trêmula, ao ver Jean com um cigarro aceso no meio da sala. “Depois a casa inteira fica fedendo.”

“Acho que o cheiro do cigarro não devia ser sua maior preocupação agora, porra,” ele respondeu.

No sofá, coberto por um lençol, o corpo sem vida de Karim, que até poucas horas antes era o morador do apartamento em frente ao do casal. Pouco mais de um metro e meio separava suas portas. Na noite anterior, a música alta que Jean ouvia invadia o apartamento de Karim, que depois de muito tentar dormir decidiu que no dia seguinte tentaria mais uma vez argumentar e pedir ao vizinho que respeitasse o horário avançado. Jean não era um vizinho fácil, mas Karim sempre fora paciente e educado ao tentar resolver os problemas com ele.

Naquela manhã, porém, depois de dormir muito pouco e acordar mais cedo, Karim se exaltou. Foi Marie quem atendeu à porta, convidou-o a entrar e ofereceu café, que ele agradeceu, mas recusou. Jean veio do banheiro em seguida, acordado há alguns minutos pela luz do sol que penetrava na sala. Mal começou a falar, Karim foi interrompido, respirou fundo, tentou se manter calmo, mas na quarta ou quinta ofensa feita em poucos segundos à sua cor de pele, sua religião e sua “origem”, apesar de ser francês, perdeu a cabeça e foi para cima de Jean. Péssima decisão.

Jean era muito mais forte e, ao contrário de Karim, era um homem de natureza violenta. Com dois socos de revide Karim já estava praticamente desacordado e não ofereceu resistência alguma quando foi estrangulado até a morte por Jean, que agora apagava seu cigarro em um pires na pequena mesa que ficava encostada no balcão que separava sala e cozinha.

“O que a gente vai fazer?”, Marie perguntou.

“Não sei, caralho. Me deixa pensar.”

Depois de alguns segundos de silêncio total, Marie sugeriu que levassem o corpo até o apartamento de Karim, ou à entrada do prédio, e chamassem a polícia. Pensariam que foi um assalto, talvez.

“Isso, muito esperta! Você esqueceu como eu ganho dinheiro, porra? Você quer mesmo a polícia xeretando por aqui e fazendo perguntas?”

Jean vendia umas drogas. Não era um grande traficante, não chamava atenção nem tinha registro criminal por isso, mas vendia o suficiente para viver razoavelmente bem sem trabalhar. Mantinha em casa um pequeno estoque de maconha, cocaína e outras substâncias, além de um revólver pouco maior que uma tesoura de cozinha. O trabalho de Marie, como instrutora de hidromassagem, era uma boa fachada, além de mantê-la ocupada e fora de casa durante o dia.

“A gente coloca ele no porta-malas do carro e joga em algum terreno, ou no rio, bem longe daqui,” disse em voz baixa, mais para si mesmo, pensando alto, do que para responder a Marie. “Duvido que alguém vá dar falta dele logo,” – não era verdade – “e quando a polícia achar o corpo, vai perder um bom tempo tentando descobrir se o cara era terrorista. Devia ser mesmo. Eles todos são.”

Não era verdade. Karim levantava cedo todas as manhãs para trabalhar em uma empresa de tecnologia. À noite, ia à faculdade ou estudava em casa para completar sua pós-graduação. Boa parte do que ganhava era para ajudar a mãe e pagar os estudos da irmã, que viviam na periferia de Paris. Dormia cedo, tentava se alimentar bem e sempre prometia a si mesmo que começaria a fazer trabalho voluntário, embora nunca encontrasse tempo. Seu maior arrependimento era ter se afastado dos costumes da religião, que já não praticava, apesar de sentir que isso fazia falta em sua vida.

“E se a gente fosse para fora da cidade? Ele podia ter um enterro digno.”

“Haha! O que mais? Flores e uma bênção, como um bom cristão?” Jean respondeu quase saltando da cadeira, a corrente metálica com o crucifixo pulando junto em seu pescoço. Então se lembrou de baixar a voz. “A gente não devia nem ter que esconder. Fizemos um favor pra todo mundo, antes que ele saísse se explodindo por aí.”

Marie se virou de costas para a sala, mexendo aleatoriamente na pia enquanto Jean trocava de roupa apressadamente no quarto. Será que deveria rezar? Para quem? Desde o começo da adolescência não era religiosa, mas talvez essa fosse a hora de voltar a ser. Com tantos fanáticos por aí, a França e o mundo precisariam cada dia mais de Deus, pensou, enganada.

Jean voltou para a sala e começou a mexer no lençol. “Fica de olho nos corredores e na escada, vê se não tem ninguém. Eu vou ver se a garagem tá limpa, coloco ele no porta-malas e saio. Depois você pega o metrô e vai pro trabalho normalmente. Fica de olho no seu celular, eu te vejo à noite.”

Fizeram isso. Em alguns minutos Jean virava a esquina em seu carro, sem acelerar demais. Poucos segundos depois, a meio quarteirão dali, tiros foram ouvidos na redação do Charlie Hebdo.


Tyler Bazz

Um comentário:

Marina disse...

Os males das generalizações. Bem pertinente o post. Tinha certeza de que teria um fim genial.