segunda-feira, 3 de novembro de 2014

Transa, casa ou mata?



Muitos de vocês devem estar familiarizados com “Transa, casa ou mata?”, um jogo bastante simples que, como a maioria de seu tipo, provoca questões filosóficas e sociais e grandes revelações pessoais. Uma brincadeira que nos propõe exames de consciência e dilemas éticos que poucas outras situações seriam capazes de criar.

A única regra explícita do jogo dita que devem ser indicadas três pessoas (geralmente, personalidades das artes, do entretenimento, dos esportes, etc. e celebridades), entre as quais o jogador da vez deverá apontar uma com quem transaria – verbo em desuso, que significa “fazer sexo” – uma com quem casaria – ato que curiosamente não cai em desuso; aqui, o mesmo que “morar junto” – e uma a quem ele mataria – que pode variar de um “nem fodendo” a um descarte com muito pesar.

Há também uma regra implícita, mas fundamental: NUNCA inclua amigos – seus ou do jogador – entre as pessoas indicadas.

Foi essa a regra quebrada em uma noite de sexta-feira, quando um grupo de amigos se reuniu na casa de um deles para comer, beber e bater papo até que acabasse a comida, a bebida ou o assunto. O jogo, iniciado havia pouco, fluía sem dramas, com trincas mais ou menos desafiadoras e respostas mais ou menos surpreendentes.

“Ok, João. Pra você,” anunciou Luíza. “Jennifer Aniston...”

“Hmm. Friends?”, disse Pedro para si mesmo, tentando adivinhar um tema para a trinca.

“Angeline Jolie...”

“Mulheres do Brad Pitt?!”, Heloísa também tentou.

“...e Brad Pitt.”

“Caramba, essa é foda! Haha! Vamos ver... Eu treparia com a Angelina, casaria com o Brad e mataria a Jennifer.”

“O quê?!”, alguém quase engasgou.

“Como assim?!”, e não foi sozinho.

“Você quer matar a Rachel!”, foi meio que uma surpresa geral.

“Desculpa, galera, mas eu tenho que escolher. E ele parece ser um ótimo marido.”

“Não pra Jennifer, né?”

E em meio ao riso geral João tomou a palavra. “Beleza, minha vez. Ricardo, Bruna, Maitê e Luíza.”

Todos estranharam a escolha. As três ali na sala, amigas há anos, entre si e de todos os presentes. Talvez João estivesse querendo criar polêmica, embora não fosse um tipo provocador. Ou talvez procurasse uma reação em alguma das meninas, quem sabe depois de conversar com Ricardo, que poderia ter mencionado uma vontade ou outra. Todos especularam em silêncio por alguns segundos.

Ricardo, que não havia pedido nada a João e estranhava aquilo tanto quanto qualquer um dos outros, decidiu que o melhor seria responder logo para levar o jogo adiante. “Mancada, mas vamos lá. Eu casaria com a Luíza, que ganha bem, mataria a Bruna, porque pegou meu último cigarro.”

“Porra!”, Bruna interrompeu. “Por causa de um cigarro?”

“Um último cigarro. E, bom, a Maitê...”

“Tá, sobrou a Maitê,” foi a vez de João interromper. “Você, Maitê. Paulo, Jorge e eu,” disse, com um meio sorriso no rosto.

Não fosse o fato de João não beber, alguém poderia achar que havia exagerado nas cervejas. Mas aquilo não era exatamente uma atitude de quem fica bêbado e faz merda, aquela era uma atitude de filho da puta.

Acontece que Maitê era casada com Paulo, que não estava presente, e se quebrar a regra #2 já era complicado, fazê-lo colocando a amiga em uma enorme saia justa beirava o mau-caratismo.

O desconforto na sala era visível. Olhares significativos foram trocados, outros foram desviados, e mais de uma pessoa achou o momento oportuno para um gole mais longo. Maitê agiu rápido, e antes que alguém pudesse interromper e terminar a não tão inofensiva brincadeira, fez o possível para aliviar o clima. “Nem fodendo eu vou responder,” sorriu. “Vai, Pedro: Jô Soares, Gugu e Faustão.”

“Porra! O que eu te fiz?”

“Ok. Ana Maria Braga, Marta Suplicy e-“

“Beleza! Volta a do Faustão!”

As risadas foram mais altas até que o desespero de Pedro. Enquanto isso, alguém carregou um vídeo engraçado no computador e desviou a noite do erro de João.

Erro cujo tamanho João só descobriria mais tarde, quando todos iam embora. Sozinho, quase na entrada do metrô, deu meia-volta e correu pelo caminho de Maitê, que morava a poucas quadras dali e caminhava até seu apartamento. Conseguiu alcançá-la e se desculpou, reconheceu que exagerou, definitivamente passou dos limites. Maitê aceitou as desculpas e disse-lhe que ficasse tranquilo, esquecesse aquilo, que estava tudo bem.

“Mas tem uma coisa que eu preciso te contar,” acrescentou.

“Hm,” João olhava a rua deserta que passava por baixo do viaduto onde estavam e não viu a velocidade e violência com que Maitê se lançou no pouco espaço que os separavam. Ao mesmo tempo em que o empurrou por sobre a grade, com toda a força que tinha, revelou: “Eu já dei pro Jorge.”

Nunca descobriram que foi ela.


Tyler Bazz

Um comentário:

Jullia Aranha disse...

Afinal, o João que perguntou, né?