segunda-feira, 5 de maio de 2014

Porque...



Faz quase seis anos que não falo com meu irmão. Os dois primeiros porque eu e ele sempre fomos teimosos, orgulhosos e esquentadinhos demais. Começou com uma discussão dessas bobas que tivemos quando fui visitar minha família em um feriado no começo do meu segundo ano de faculdade, ou no fim do primeiro, tenho certeza de que alguns meses depois já não nos lembrávamos do motivo. Depois disso, fugimos da presença um do outro por um tempo – ele casado e cada vez mais próximo da família da esposa, eu estudando longe demais e cada vez menos disposta a encarar horas de estrada para voltar à cidade em que nasci – e quando não conseguíamos escapar, fingíamos que o outro não existia.

O resto do tempo é porque eu não costumo falar com os mortos, e meu irmão morreu há três anos e meio. Era o começo de uma madrugada de quarta-feira e ele voltava de uma curta viagem de trabalho. Não quis passar a noite em um hotel, gostava de dormir em casa e estava economizando para comprar um carro novo. Não encontraram sinais de outro carro, nada. Só ele e sua moto destruída. Até hoje não sabemos se ele cochilou, cansado, ou se tentou desviar de algum animal pequeno, pego tão de surpresa quanto ele à luz do farol, ou se simplesmente perdeu o controle, como às vezes acontece. Fui ao enterro não porque queria, mas porque precisava. Nunca deixei de amar meu irmão, mas era importante mostrar isso ao resto da família antes que pensassem que nunca nos perdoamos seja lá porque fosse que tínhamos nos afastado. Passei horas em pé em seu velório e ajudei a baixar seu caixão, sabendo o tempo todo que ele odiaria aquilo, que sempre quisera ser cremado.

Passei um tempo na casa dos meus pais depois disso. Menos pelo meu pai, que sofria em silêncio, mas aceitava a perda com mais naturalidade, como algo inevitável, que pela minha mãe, que ainda não havia se recuperado da gravidez frustrada da minha cunhada e precisava urgentemente de companhia, movimento, ocupação. Deixá-la sozinha com seus pensamentos naquela situação seria um convite à loucura, e já tínhamos atingido nossa cota de tragédias por um bom tempo. Foram dois meses que sofri para evitar maiores sofrimentos. Depois de enterrar meu irmão, me vi enterrada em uma cidade pequena, atrasada, que eu suportava cada vez menos desde minha adolescência. Tinha dificuldades até em resgatar memórias da infância que tive ali, quando as fronteiras da cidade ainda ficavam fora do meu alcance.

Seria difícil encontrar outro lugar tão bom para ser criança. Corríamos pelos quatro cantos da cidade e conhecíamos rigorosamente todos os moradores, dos velhinhos aposentados que às vezes brigavam com a gente, só porque essa era sua função como velhinhos aposentados, ao prefeito, que nos recebia sempre de sorriso aberto em seu gabinete, atento às nossas importantes reivindicações – uma pista de bicicleta na praça da Matriz (negada), bloquear a entrada de carros em uma das ruas uma vez por mês, para brincadeiras (concedida), uma pracinha com quadra de esportes (negada, mas a quadra da escola passou a poder ser usada quando não tinha aula), entre outras. Para nós, o mundo todo ficava ali, nos poucos blocos que rodeavam a praça central, estendendo-se até o sítio da minha avó, aonde chegávamos depois de quinze minutos pedalando sem parar por uma estrada de terra e onde passamos incontáveis tardes nos pendurando em árvores, mergulhando no lago, caçando passarinho para nunca colocar em gaiola, até a agridoce hora de ir embora, sempre antes de o sol se pôr. Nunca ninguém queria pedalar o caminho de volta, principalmente depois dos bolos (de fubá, laranja, chocolate) e do suco espremido na hora que a vovó fazia. Não importava quantas crianças estivessem espalhadas pelo gramado, e eram sempre muitas, contando eu, meu irmão e todos os nossos amigos e amigas, nunca faltava bolo ou suco para ninguém.

Quando eu tinha dezessete anos, a cidadezinha em que cresci deixou de ser meu endereço. E na cidade grande, enorme até mesmo para quem nasceu nela, onde fui estudar e crescer, bolo e suco eram só de caixinha. A correria que a vida nessa cidade gigante, com faculdade, amigos, estágio, namoro, trabalho me impôs, e que eu recebi de braços abertos, pronta para encarar tudo, me fez trocar o bolo recém-saído do forno por comida congelada, muitas vezes sem gosto, e o suco natural por muito, muito café. E eu amei cada segundo.

Foi amor à primeira vista. Na verdade, foram vários amores à primeira vista. Nunca foi ruim, nunca quis voltar ou desistir. Desde o primeiro dia eu e as ruas tão movimentadas, a vida noturna, os congestionamentos de carros, gente e coisas sempre acontecendo tão rápido nos demos bem. Parecia que a cidade estava me esperando, e que eu tinha crescido para ela. A inigualável sensação de encontrar seu lugar no mundo. A cidade me abraçou e me adotou quando vi minha família partir – irmão, mãe, pai – em um intervalo menor do que qualquer pessoa poderia suportar sozinha. Não me restavam laços em outro lugar.

E o primeiro e maior de todos os amores foi o mar, que eu não conhecia até chegar aqui. Encantada com sua cor, seu som, sua constante presença, ele foi meu refúgio sempre que precisei, até que se tornou minha única família. Perdi a conta de quantas vezes fugi para passar meia hora com ele, sentada nas pedras, observando as ondas batendo lá embaixo. Era perfeito. Era uma pausa da cidade sem sair dela, a inquestionável prova de sua perfeição, sua completude. E quando me apaixonei pelos amigos, pela carreira, pelo sexo oposto, o mar entendeu minha ausência, que nunca deixei ser grande demais. Perto do mar, satisfeita em todos os aspectos aos quais dava importância, eu me realizava, vivia o tipo de vida que as pessoas querem ter quando assistem às séries de tv. Mas se os personagens da tv vivem daquela forma por somente alguns minutos durante a semana, nos vivíamos o tempo todo.

Quando viva, minha avó sempre dizia que tudo o que é demais faz mal. Só hoje, talvez, eu consiga ver que tudo estava sendo demais por um tempo. Quantas noites seguidas uma pessoa pode passar dormindo apenas três horas ou menos? Eu devo ter batido algum tipo de recorde. Sabia o que estava fazendo e que aquilo não podia ser bom, mas ao mesmo tempo julgava necessário e até natural. Como, de outra forma, seria possível fazer todo o trabalho, manter uma vida social, tirar proveito de tudo o que a cidade tem a oferecer? Dias de café e noites de álcool, sem parar.

“Não tem nada errado com você, isso aqui não é mesmo pra qualquer um,” ouvi um amigo dizer certa vez em uma festa a uma conhecida nossa, que reclamava do quanto a cidade era cruel, pesada, e que estava pensando em se mudar, procurar outro lugar, uma cidade menos gigantesca, menos extrema, que também oferecesse muita coisa, mas onde fosse possível desacelerar, viver melhor. Ele estava certo. Por mais incrível que seja, esta não é uma cidade para todos. É desgastante, dura. Não há como bater de frente, você precisa se tornar parte dela, e isso significa endurecer também.

Eu me lembro de quando cheguei pela primeira vez, uma menina de dezessete anos crescida naquela cidadezinha do interior. Na rodoviária, vi um mendigo tão maltratado que quis me aproximar e perguntar o que tinha acontecido com ele. Não era a primeira vez que eu via alguém naquela situação, mas aquele homem parecia ter sido usado numa guerra como o próprio campo de batalha. Por medo, não falei com ele. E aos poucos fui compreendendo o que tinha acontecido àquele homem: nós. Não sei se é uma relação de codependência, causa e consequência, ou –improvável– coisas que ocorrem paralelamente no mesmo contexto, mas descobri que criamos um mundo em que para que haja pessoas como eu – ao menos como eu costumava ser – é preciso que existam pessoas como ele. Em algum ponto nós erramos feio, mas quem ainda não endureceu o bastante para achar isso um problema não pode fazer muita coisa, e quem tem o poder para mudar isso já não enxerga essas pessoas.

Às vezes me ocorria um rápido exame de consciência, em que olhava para o passado e quem eu era e para o presente e quem havia me tornado. Era inevitável sentir saudades de mim mesma, e acredito que a maioria das pessoas que compartilham minha situação passa pela mesma coisa. Nós somos bem sucedidos, cultos, capazes de reconhecer que estamos errando. Mas ao mesmo tempo estamos acelerados demais pela cafeína, anestesiados demais pelas drogas que usamos e as horas que não dormimos, e satisfeitos demais com a forma como as coisas estão, os tipos de luxo que temos e a vida que levamos. Se é possível encontrar conforto trabalhando dezesseis horas por dia e dormindo pouco mais que isso em toda uma semana? Endurecidos pela cidade e vendados pelas aparentes vantagens que tudo isso pode oferecer, todos diríamos que sim.

Existem alguns caminhos diferentes a partir dessa saudade que sentimos das pessoas que éramos, da vontade de ajudar um sem-teto, trabalhar menos e fazer algo bom ou simplesmente conseguir parar durante duas horas para comer um bolo caseiro e tomar um suco feito na hora. Há quem julgue impossível fazê-lo aqui, como a conhecida que pretendia se mudar; há quem se pegue pensando na situação e se convença de que tudo é besteira, que não se pode fazer nada; e há quem, como eu, não dá real atenção ao assunto até que o mundo em que vive começa a cair. Eu fui pega completamente de surpresa, não estava preparada, mas não sei se alguém em algum momento realmente está.

Foi tudo tão rápido quanto minha rotina. Em não mais que algumas semanas tudo acabou. O namorado fez o que não devia, com quem não devia, onde não devia. Fui demitida depois de uma série de decisões ruins no trabalho. A falta do emprego e do que ele me proporcionava afastou uma série de parasitas – alguns dos quais eu sabia que eram, outros me surpreenderam. Restaram poucos amigos, mas cujas vidas não poderiam parar por minha causa. Assim, pela primeira vez em muito tempo, cansada das festas, dos bares e das pessoas, me vi sozinha. No início, o choque foi enorme. Por dias pensei que não conseguiria viver sem tudo aquilo e, desesperada, cogitei desistir e comecei até mesmo a rascunhar as linhas que abrem este texto, mas com outra intenção. O mar, porém, me salvou. Depois de uma tarde com ele, respirando sua brisa, sentada nas pedras com um livro que finalmente tive tempo para ler e uma garrafa de suco preparado na hora, percebi que eu não precisava ser tão extrema o tempo todo, que a calmaria pode ser muito melhor que a correria.

Sem dinheiro, em vez de procurar alguém para dividir o apartamento em que morava, decidi me mudar para outra parte da cidade, mais barata e tranquila. Não é difícil ter acesso a cultura e diversão mesmo não estando enfiada o tempo todo no meio de tudo. Com muita coisa para pouco espaço na casa nova, descobri que boa parte do meu guarda-roupa consistia em peças que eu não gostava, não usaria nunca ou simplesmente não usaria mais. Doei não sei quantas caixas de roupas para bazares beneficentes, além de outros itens que encontrei pelo apartamento e não soube dizer por que os tinha. Decidida a mudar, fazia sentido começar pelo mais fácil, o material. Obviamente não seria possível mudar tudo, eu era quem era porque sou como sou, mas posso me esforçar para mudar as coisas que não me agradam. O segundo passo foi parar de fumar, e até o momento dá para dizer que estou indo bem, de chiclete em chiclete, de adesivo em adesivo.

Mas a continuação não depende só de mim. E assim chegamos aqui, a essa sala meio vazia, onde as três outras candidatas à vaga observam impressionadas há vinte minutos a velocidade com que minha caneta forma palavras. Elas terminaram há algum tempo, mas vocês não me deram limite, só uma folha em branco e a pergunta “Por que devo ser contratada?” Espero ter me explicado bem.

Obrigada,
Maria —


Tyler Bazz

2 comentários:

Varotto disse...

Bonito...

aline marangoni disse...

fiquei deslumbrada.