segunda-feira, 10 de março de 2014

Resgate



Quem é?”, a voz dela soou irritada pelo interfone.

“Sou eu. Me deixa entrar, por favor?”

Ir até lá foi difícil demais. Eu sabia disso, mas ela provavelmente não pensava assim, nem qualquer outra pessoa que soubesse nossa história. O apartamento ficava no segundo andar, mas subi de elevador. Antes mesmo de começar a procurar o 216 entre o que me parecia uma dezena de portas, ela abriu a dela quando percebeu que a luz do lado de fora se acendeu com a minha presença.

“Eu preciso muito passar a noite aqui hoje.”

Ela deixou a porta aberta para que eu entrasse e me deu as costas em direção à sala. Apesar da noite quase fria, usava um pijama curto, que eu conhecia. Ainda me lembrava em detalhes de suas pernas bastante brancas, cheias de pintas, e dos pés finos, delicados, com pequenas manchas vermelhas das sapatilhas que usava, mas meus olhos me traíram e ela, ao se dar conta, manteve discretamente em frente ao corpo uma das almofadas que tirou do sofá enquanto falava.

“Esse é o sofá. Ali é o banheiro. Ali a cozinha. Você precisa de alguma coisa?”

“Não, eu-“

“Então boa noite.”

“Nossa,” deixei escapar, em um sussurro alto demais.

“O quê?”

“Nada, deixa.”

“Puta que... porra, meu! Você esperava o quê? Do nada você aparece às duas da manhã me pedindo pra ficar aqui, depois de tudo o que você me fez, e achava que eu ia te receber com chá quentinho e flores?”

“Desculpa, mesmo. Obrigado por me deixar ficar.”

“Boa noite.” Ela bateu a mão no interruptor e foi para o quarto. Eu me sentei no sofá ainda com a camisa úmida da chuva de algumas horas antes, a camiseta que usava por baixo seca, mas fria, me incomodava, e naquele momento eu sentia que merecia. Fiquei imóvel por alguns minutos, tentando relaxar e absorver a sensação de segurança enquanto repassava a noite na minha cabeça, quando ouvi seus passos de volta à sala.

Ela vinha enrolada em um grosso edredom, que jogou sobre o meu ombro quando se sentou ao meu lado, passou-o sobre as nossas cabeças e nos cobriu completamente.

“O que aconteceu?”, ela agora falava baixo, quase no tom das nossas melhores épocas.

“Eu vim resolver umas coisas do trabalho, jantar com um dos chefes. A coisa acabou se estendendo, quando saí, eu tentei pegar o metrô, mas já estava fechado. Perdi o ônibus de volta porque não tinha dinheiro para ir de táxi até a rodoviária, meu cartão não anda muito no azul ultimamente. Tomei uma puta chuva e, tentando resolver o que fazer, quase fui assaltado, foi sorte eu conseguir fugir.”

“Mas por que você não foi pra casa do seu irmão?”

“Ele mudou daqui faz uns três meses.”

“E aqueles seus amigos, suas amigas?”

“Não tem ninguém. Só um monte de conhecidos de redes sociais, não sei nem telefone de ninguém. Você realmente era minha última opção.”

“Ah, estou lisonjeada.”

“Não é isso. Eu só não queria aparecer aqui...”

“...depois de tudo que você fez.”

“É. Mas sei lá. Eu fiquei pensando... se fosse o inverso, se você realmente estivesse precisando...”

“Você faria o mesmo, você me ajudaria e me salvaria. Porque na sua cabeça você é o cavaleiro real que vai salvar a pobre dama.”

“Talvez seja um pouco isso.”

“Não é. É culpa, na verdade. Você se imagina me ajudando, cheio de boa vontade, porque sabe que foi filho da puta comigo. Mas eu acho que não... Eu acho que você ficaria extremamente incomodado com a situação, daria um jeito de escapar, ou de se livrar de mim logo que eu chegasse...”

“Também não é assim.”

“...e eu só não faço isso porque ainda gosto de você.”

“Eu sei,” disse, mas me expliquei antes que ela se irritasse de vez, “quer dizer, não porque eu sou um filho da puta arrogante, não quanto a isso, pelo menos. Mas eu sempre acreditei em você quando você dizia que gostava de mim, e eu sei que esse tipo de coisa não desaparece de uma hora pra outra.”

“Ou depois de meses e meses.”

“Desculpa,” pedi.

“Por tudo o que você me fez?”

“Também.”

Passamos algum tempo em silêncio, pernas e ombros colados, apenas ouvindo a respiração um do outro e lidando com os furacões individuais nas nossas cabeças.

“Tá esfriando,” ela disse, “e eu só tenho esse edredom. A gente costumava dormir bem juntos.”

Respondi um “uhum” quase impossível de ouvir.

“Deixa essa camisa molhada em uma cadeira na cozinha e vem deitar,” ela disse e se levantou. Ainda imóvel, com os olhos um pouco acostumados ao escuro, vi seus pés cruzarem a sala até o quarto.

Pouco depois, me deitei ao seu lado. Ela se virou de frente para mim e se posicionou como dormíamos antes. “Boa noite”, disse.

“Boa noite”, respondi.

Dormimos. Mas antes demos as mãos, trocamos beijos, nos livramos de algumas peças de roupa entre carinhos. Finalmente, vencidos pelo cansaço, o sono e a consciência, dormimos, seminus e apertados um contra o outro.

Acordei cedo na manhã seguinte, fiz café para mim e saí, explicando em um bilhete que tinha que passar no trabalho e resolver os problemas da noite anterior, e que ligaria mais tarde. Acabei ligando só no dia seguinte, me desculpando pela demora e explicando a correria e a dor de cabeça que tudo me deu.

A princípio, continuamos conversando, e nas mensagens trocadas por redes sociais e telefone percebi o efeito daquela noite sobre ela – algo que eu até esperava, mas não desejava. Não foi de propósito, foi emergência seguida de descontrole. Conversávamos quando ela arrumava um assunto e perseverava contra minhas respostas monossilábicas de sempre. Mas ao fim de alguns dias, não sei se irritada, chateada ou simplesmente exausta, desistiu. Eu não queria de jeito nenhum magoá-la outra vez, e me odiava por ser uma pessoa ruim sempre que ela fazia parte da história. Ela agia bem, eu agia mal. Eu saía ileso e quase sempre ignorava a situação dela. Não era de propósito, mas eu não conseguia evitar.

Tyler Bazz

2 comentários:

M. disse...

Quando eu venho aqui e tem um texto comprido eu penso, vou ler o comecinho e depois termino, mas você sabe prender o leitor, né??
E sabe o que mais, se fosse mais comprido ainda (tipo um livro) eu ia gostar mais... Escreve?? haha
beijoo

Silvia disse...

Eu sempre volto aqui e cada vez mais me apaixono por um personagem filho-da-puta seu, igualmente me apaixono pelos caras que encontro na balada, e pior, metidos a cineastas. E eu acho que já lhe vi, 2, 3 vezes em uma balada descolada da Augusta e sempre fico com vontade de dar um oi acompanho de um soco, mas isso não seria muito bacana em um primeiro encontro.
Adoro seus textos!