quarta-feira, 5 de fevereiro de 2014

Uma proposta decente



Eu já tinha entrado e estava guardando uma mesa na pizzaria (não exatamente, era só um lugar que vende pizzas a pedaço) onde tinha combinado de comer com a Natália antes de irmos para o bar. Minha cerveja estava gelada e a noite de sexta prometia ser legal, para compensar o fiasco da noite anterior.

Foi quando a Natália entrou a passos largos, tão nervosa quanto a Joan Cusack naquela cena de Alta Fidelidade, mas não gritou. Sentou à minha frente e usou quase as mesmas palavras da Joan/Liz, praticamente me dando tiros com os olhos: “Tyler, seu puta babaca!”

“Oi pra você também,” eu tentei descontrair, porque imaginava do que ela estava falando.

“Eu to falando sério! Por isso que eu nunca apresento minhas amigas pra você!”

“Ok, o que foi que eu fiz?”

“Eu falei com a Maria hoje já. Ela disse que você não conversou nem cinco minutos com ela ontem e tentou levar ela pra cama!”

Era verdade, mas não tinha sido exatamente isso que aconteceu. “Não foi bem isso que aconteceu,” expliquei.

“Ah, não foi bem isso que aconteceu?”, a falta de paciência da Natália pra papo furado era mundialmente conhecida, e como ela parecia estar ficando cada vez mais puta comigo, resolvi explicar logo a coisa toda.

“Não. Quer dizer, foi. Mas não assim sem mais nem menos.”

Pra contextualizar vocês: na semana anterior a Natália fez aniversário e chamou todo mundo para o bar. Todo mundo mesmo, tinha gente pra cacete lá. Inclusive essa amiga dela, a Maria. Ela tinha outro compromisso e já estava de saída quando eu cheguei atrasado, então a gente só se conheceu e não trocou duas frases, mas eu comentei a Maria com a Natália no dia seguinte, a Maria me comentou com a Natália também, e acabou que nos encontramos – Maria e eu, sem Natália – em um café dias depois, no fim da tarde. Era isso que a Natália sabia. Isso e a versão da Maria de que eu tentei levá-la para a cama com nem cinco minutos de conversa. E a minha versão – o que realmente aconteceu – eu contei para a Natália assim:

“Nós entramos no café juntos e, como o lugar estava meio cheio, eu resolvi guardar a única mesa vazia, uma dessas com uma poltroninha de cada lado, enquanto ela entrou na fila pra pegar uma bebida. Foi bom isso, porque dois minutinhos sozinho com ar-condicionado me fizeram bem. Eu estava ansioso, ela estava ainda mais bonita que aquele dia no seu aniversário e eu queria muito que as coisas dessem certo.

“Ela voltou para a mesa e falou: ‘Isso aqui tá sempre tão cheio. Faz tempo que eu não sento e tomo um café sem fazer mais nada, é sempre uma correria! Ainda bem que você achou essa mesa,’ e se sentou à minha frente. ‘Pega algo lá pra você, eu espero.’

“Eu levantei, fui, comprei, voltei, sentei e sorri. Tudo certinho. Mas a cara dela era de que eu tinha feito algo errado, algo que ela não tinha entendido muito bem.

“Ela perguntou: ‘É um livro no seu bolso?’

“Eu respondi: ‘É,’ estendendo o livro para ela, ela não pegou. ‘Conhece?’

“Ela respondeu: ‘Não. Mas tipo... você trouxe um livro?’

E eu respondi: ‘Uhum. Eu carrego um sempre. Quase sempre, vai.’

“Ela falou: ‘Você saiu comigo e trouxe um livro, é isso?. Por acaso você acha que eu vou te entediar e você vai precisar de alguma coisa pra se distrair?’

“Eu expliquei: ‘Não! Mas assim, ok, a gente se encontrou na porta aqui, puta coincidência, mas imagina se eu chego dez minutos antes, eu teria algo pra ler. Ou se a gente vai pra algum lugar depois e eu tenho que pegar metrô pra voltar, ou ônibus.’

“E ela falou: ‘Ainda assim. É estranho você sair com uma pessoa e levar um livro, parece que ela não te interessa o bastante.’

“Então eu perguntei, na lata: ‘Quer ir pra minha casa fazer sexo?’

“Ela quase engasgou: ‘O quê?’

“Eu repeti: ‘Quer. ir. pra. minha. casa. fazer. sexo?’

“Ela parecia ofendida: ‘Eu entendi o que você falou! Você acha mesmo que eu vou simplesmente levantar e ir pra sua casa dar pra você?”

“Eu falei: ‘Não sei. Por isso eu perguntei.’

“Ela falou: ‘Você é algum tipo de idiota?’

“Eu falei: ‘E tão absurdo assim? Pensa bem. A gente nunca conversou, a gente se viu em um bar e se achou bonito, por isso que a gente tá aqui. Pura atração física. Aí a gente combinou de sair hoje – começaríamos aqui, provavelmente iríamos pra um bar depois. Pode ser que a gente se divertisse, tivesse ótimas conversas, descobrisse coisas em comum e discordasse em outras. Você riria das minhas piadas e seria interessante. Eu ouviria suas histórias e seria encantador. A gente trocaria uns beijos e talvez acabasse no meu apartamento, fazendo sexo.’

“Ela começou a falar: ‘Eu-‘

“Mas eu interrompi: ‘E não tem absolutamente nada de errado com isso! Nós somos duas pessoas de vinte e poucos anos, bonitas e solteiras em uma das cidades mais incríveis do mundo. A gente é o tipo de pessoa sobre quem fazem séries de tv!’

“Ela começou de novo: ‘Não faz...’

“Pensando agora na conversa, pode ser que eu estivesse num bom caminho. Mas eu estava muito empolgado e sem cabeça pra pensar direito, interrompi de novo e continuei falando: ‘MAS, deixa eu terminar. Se você não consegue achar normal que eu ande por aí com um livro, a gente dificilmente vai ter muitas coisas em comum. Aí vamos mais discordar do que concordar, eu não vou te achar tão interessante, você não vai se esforçar pra rir das minhas piadas, eu não vou ter motivação para ser encantador e a noite vai ser um desperdício. Então a gente pula a parte de se conhecer e vai direto para o fim da noite. Você me achou pegável, eu te achei gata, a gente ganha umas horas de sexo bom e cada um segue sua vida. Nós temos que sair e fazer essas coisas, é quase um dever nosso com as pessoas que não têm as mesmas oportunidades que a gente.’

“Eu estava quase ofegante, como se tivesse acabado de desvendar uma descoberta científica maravilhosa. Ela me olhou por alguns segundos, em silêncio, e embora eu goste de pensar que uma parte dela estava considerando a proposta, eu sei que na verdade todas as células do seu corpo estavam pensando em formas de me ofender. `Não sei porque eu ainda perco meu tempo,’ ela disse, finalmente, antes de levantar e sair, deixando o cappuccino praticamente intocado. Pelo menos eu ganhei uma bebida.”

“É verdade isso?”, a Natália me perguntou, sabendo que eu não mentia, mas que era bom em exagerar histórias.

“Juro, cada palavra. Tenho certeza que você concorda comigo.”

“Tá, verdade. Eu também carrego sempre um livro na bolsa, e não entendo ela achar isso tão absurdo.”

“Viu s-“

“MAS,” ela me interrompeu. “Deixa eu terminar.”

“Hm.”

“Você ainda é um puta babaca.”


Tyler Bazz

5 comentários:

littlemarininha disse...

Haha, ídolo!
Acho que todo mundo já quis dar uma de puta babaca com alguém que não tinha nada a ver, mas não fez pra não parecer um puta babaca. Noites e noites desperdiçadas e era só ter feito isso que você fez. Ídolo!
Não sei se a Máximo foi inspiração pro texto - acho que sim, mas, nossa, eu imaginei a cara dela ouvindo a história o tempo todo :P
Show

Tyler Bazz disse...

Má, eu to VENDO a Máximo falando "Tyler, seu puta babaca!" desde que escrevi o texto :DDD

Mara UDER disse...

e carregar um livro que era o absurdo, a princípio.
hahaha... excelente tática.

licensetoconfuse disse...

Eu sempre carrego um livro, o mesmo livro, há anos.
Ninguém nunca se ofendeu, mas também nunca entendeu. Se eu saísse com um cara que carregasse um livro, seria um ponto a mais.

Jullia Aranha disse...

Gênio.