sexta-feira, 13 de dezembro de 2013

Previsão



Prometia chover.

E muito, ambos viram de suas janelas, que ficavam uma de frente para a outra, mas separadas por um pedação de cidade. Decidiram deixar o cinema e a cerveja para outro dia, para escapar do caos, e passaram a noite se falando pela internet, sonhando em como deve ser agitada a vida noturna, ironicamente, em Londres.

Acabaram não se apaixonando. Se tivessem saído, ele estaria fascinante, com o timing perfeito para qualquer comentário e dominando a conversa com equilíbrio, no ponto exato entre respeitar a timidez dela e não parecer um chato egocêntrico que não deixa ninguém falar. Ela estaria encantadora, com cada sorriso, movimento e observação se encaixando perfeitamente na noite, como se o mundo a habitasse, e não o contrário. Quando conseguiram remarcar, coisa de quinze dias depois, já não foi assim. Ela, estressada e com a cabeça nas bombas que haviam explodido aquele dia no trabalho, ele já com pouco foco, pensando mais na amiga de uma amiga, que conhecera dias antes em um bar.

O filme escolhido se tornaria um dos favoritos dela, meses depois, quando o assistiu sozinha, em casa, no computador. Mas sem nenhuma lembrança especial para a primeira vez que o viu, como teria se tivessem saído aquela noite, apesar da chuva que prometia cair. Ele nunca chegou a ver o filme, que com ela, entre pequenos comentários na sala de cinema, lhe abriria os olhos, daria um tapa e o faria mudar uma ou outra coisa em sua vida, incluindo perder o medo e deixar alguém fazer parte dela, e por que não aquela moça de cabelos curtos que ria com tanto gosto?

Como ficaram em casa porque prometia chover, não saíram do cinema com fome, e em vez de um bar decidiram tomar aquela cerveja em uma lanchonete pequena e simpática, de comida excelente e que passava quase despercebida. Ali, sendo dois dos pouquíssimos clientes, acabariam engatando uma conversa com o dono do lugar, que os faria trocar olhares tímidos ao comentar que formavam um bonito casal antes de lhes dar um desconto na hora do pagamento, pelo papo bom e para garantir o boca-a-boca. Ela daria a dica a uma amiga que escrevia sobre culinária, e a lanchonete aos poucos ganharia fama, viraria um dos lugares da moda, e ele seria o primeiro artista a ter várias de suas pinturas exibidas nas paredes, uma parceria com o dono-amigo que daria certo e mudaria de vez sua sorte como artista.

Mas prometia chover, e eles não se conheceram em um dia tão bom para os dois, não viram juntos aquele filme tão importante, não comeram um hambúrguer tão incrível feito por um cara tão legal que merecia ser conhecido por mais e mais gente, não se abriram e falaram mais de si mesmos do que estavam acostumados ao andar pela cidade, não se beijaram antes de ela sair do metrô e não chegaram em casa com a sensação de terem tido uma noite perfeita.

E no fim das contas, nem choveu.


Tyler Bazz

4 comentários:

Maria disse...

Sabe, eu não gosto de tirar lições de histórias, histórias são o que elas são, mas imagino que a lição desta história seja de que não devemos perder oportunidades, cada dia é um novo dia etc etc. Por causa disso, fiquei com muita pena do dono da lanchonete, porque afinal ele não perdeu uma oportunidade, a oportunidade é quem perdeu ele.
Eu sei que ele não existe, mas... tadinho!

beijo!

M. disse...

^ eu!

Tyler Bazz disse...

Alguém se importou com o dono da lanchonete! \o/

Bonaldi disse...

O dono da lanchonete merece participação em outro conto. Naquele em que choveu, se pá.