terça-feira, 10 de dezembro de 2013

Musa, #2



Nós nunca chegamos a nos tocar.

Ela se mudou três semanas depois de mim. Do dia para a noite, a sala vazia que eu via quando fumava ou bebia um café no parapeito da janela apareceu cheia de caixas de papelão, e de novo do dia para a noite tudo virou uma casa, ou pelo menos uma sala de estar bem arrumada. Nossas janelas se encontravam, formando um ângulo de noventa graus, mas por alguma manobra arquitetônica do prédio antigo nossas portas ficavam em blocos diferentes, não compartilhávamos nem mesmo a entrada da rua.

“Bom dia, vizinho”, ouvi sua voz por volta das 11 da manhã, enquanto eu lia um rascunho num bloco de papel e ela bebia chá.

“Oi... oi!”, seus cabelos eram de um castanho claro que eu não me lembrava de ter visto em outro lugar, os olhos eram escuríssimos e a pele branca exibia uma ou outra pinta – na maçã do rosto, no pescoço, nos braços.

“Eu finalmente consegui colocar a casa em ordem, acho que o próximo passo é conhecer os vizinhos, né? Bom, meu nome é Maria, e eu preciso saber o seu pra parar de me referir mentalmente a você como ‘o vizinho escritor’.”

Arregalei os olhos. Ela riu.

“Desculpa. É que sempre que eu te vi sem querer você estava escrevendo ou lendo alguma coisa, aí entre as coisas que você poderia ser, escritor era a mais legal. Acertei?”

“Dá pra dizer que sim”, eu já tentava encaixá-la em toda e qualquer história que eu já tivesse escrito ou começado.

“E o que você escreve?”

“Contos, e crônicas,” acenei com o bloco na minha mão direita, “essa aqui, por exemplo, é pra um site.”

“E deixa eu adivinhar: você tá escrevendo seu primeiro livro, e o protagonista é um jovem escritor.”

“Não,” respondi, apertando um pouco os olhos, franzindo ligeiramente a testa, balançando levemente a cabeça, como se a ideia fosse absurda, como se pelo menos 83% dos caras escritores mais ou menos da minha idade não estivessem trabalhando em seus primeiros livros cujos protagonistas eram jovens escritores. Mas minha resposta era sincera, eu estava satisfeito com meus contos, minhas crônicas, meus textos curtos metidos a engraçadinhos que saiam aqui e ali de vez em quando e que, se não me sustentavam –eu dava aulas para pagar as contas– ajudavam a tomar umas cervejas. É claro que eu pensava em escrever um livro, um romance, mas pensava nisso sempre no futuro.

“Ok. Erro meu. Posso ler esse aí?”

“É só um rascunho.”

“Não tem problema.”

Estiquei o bloco, na mão direita, o máximo que pude. Ela fez o mesmo com sua mão esquerda. A distância parecia ter sido definida de propósito – era curta o bastante para que conseguíssemos passar objetos um para o outro, mas não o suficiente para que nossas mãos se tocassem. Desde que jogava basquete na escola eu não queria tanto ser cinco centímetros mais alto.

Ela passou os olhos pelo texto, assentiu com a cabeça aqui, deixou escapar um risinho ali, me devolveu o bloco com um sorriso. “Olha! Gostei.”

“É isso que eu escrevo.”

“Vou querer ler mais, mas agora eu preciso ir.”

“Eu também. Entrego isso aqui meio-dia.”

“Nos falamos depois, então. Tchau.”

“Tchau.” Eu quase saí da janela, mas desisti. “Maria.”

“Oi.”

“A gente podia tomar um café ou uma cerveja qualquer dia.”

“Hmm... Eu adoraria, mas melhor não.”

Meu rosto deve ter implorado por uma explicação.

“Dá pra ver que você é legal, mas você é um cara de textos curtos. Talvez você seja com pessoas igual é com textos: prefere coisas rápidas, que não exigem tanta dedicação, acho, ou compromisso... melhor não.”

“Entendi.”

Seus ombros se ergueram um pouco, ela sorriu com o canto da boca, deu um tchau rápido e fechou a cortina antes de sair.

Desviei o olhar para o outro lado e observei o movimento da rua por alguns segundos. Então peguei o celular e liguei para o editor do site, já em direção à porta. “Deu pau aqui, vou atrasar umas duas horas. Ok? Tá, valeu. Abraço.” Desci as escadas correndo e fui direto comprar um caderno.

***

Nas semanas seguintes, Maria e eu nos aproximamos. Ela passou a ser a primeira leitora de todos os meus textos. Eu escrevia e passava o bloco ou caderno (nunca o caderno) entre as janelas. Ela me devolvia alguns minutos, horas ou dias depois, os textos cheios de notas, comentários, correções e até coisas sem relação com o que estava escrito. Algo que ela quisesse me contar, um pensamento aleatório ou mesmo algum desenho simples, que ela rabiscava enquanto lia. Passei a deixar mais espaço livre nas minhas margens.

Depois dos nossos encontros, conversas ou papos na janela, sempre fechávamos pelo menos as cortinas. Eu não fazia ideia do que acontecia no resto da vida de Maria, e o mesmo valia para ela e o resto da minha vida. Por algumas horas éramos próximos, quase íntimos. Nas outras, completamente afastados, conhecidos de vista, no máximo.

Mas enquanto as janelas estavam abertas, nos conhecíamos cada vez mais e melhor, indo além dos textos. A pedido de Maria, parei de fumar quando estávamos ali, porque “eu parei faz dois anos, mas me coço de vontade sempre que vejo um cigarro na sua mão”, ela explicou. Vez ou outra eu mostrava que estava lendo algo que ela indicou, ou gritava um “não acredito que ninguém me obrigou a ver esse filme antes. Obrigado!” depois de alguma cena incrível. Muitas vezes, quando eu precisava escrever, ela escolhia um disco e deixava tocando bem alto, para me inspirar, ou porque achava que combinaria com meus textos. Nem sempre dava certo. Até mesmo os hábitos gastronômicos e alimentares eram compartilhados – “não é possível que você tome tanto café”, me disse num dia qualquer em que o cheiro da bebida invadiu seu apartamento por horas e horas seguidas; “se você fizer seja lá o que for que tem esse cheiro horrível aí outra vez, não precisa mais falar comigo”, cheguei a ameaçar num almoço, só para provar alguns dias depois que estava blefando.

Chegamos até a passar toda uma tarde de sábado juntos, de certa forma. Maria lendo meu livro favorito (depois de eu quase me jogar pela janela, inconformado ao ouvir que ela tinha ganhando no último aniversário e nunca leu porque não parecia tão legal), deitada no sofá com os pés apoiados na janela, “pra você saber que eu tô aqui”, eu na escrivaninha, de frente para seu apartamento, escrevendo páginas e páginas para ela, com um texto rascunhado em outro caderno pronto para ser usado como disfarce.

***

Terminei em cerca de três meses. Começava a escurecer numa sexta-feira quando ela chegou e abriu a cortina. Pouco tempo depois, a chamei na janela e entreguei.

“Caderno novo?”

“Não exatamente. Comprei no dia que te conheci.”

Ela entendeu do que se tratava enquanto folheava rapidamente o caderno e via que nenhuma página estava em branco. Era o primeiro rascunho de um livro sobre um jovem escritor que se apaixonava pela vizinha, Maria.

“Vou ler,” disse, sorrindo só menos do que eu. “Talvez te devolva o caderno num café por aí.”

E então se deu início a sequência de erros concentrados em um curto espaço de tempo que insistia em aparecer na minha vida quando alguma coisa realmente boa prometia acontecer.

Eu era um emaranhado de empolgação e ansiedade. Tinha escrito um livro inteiro para Maria e estava confiante de que ela fosse gostar (ainda que não gostasse do livro, eu tinha escrito um livro inteiro para ela, devia me valer algo). E, bom, eu tinha escrito meu primeiro livro, era o melhor dos motivos para comemorar. Liguei para uns amigos, escolhi o bar, tomei um banho rápido e saí. Descobri só na manhã seguinte que, na pressa, deixei janela e cortina abertas.

No bar, nada fora do normal: muita cerveja, brindes a cada cinco minutos, abraços, boas notícias divididas com gente que nunca vimos na vida.

“Esse cara escreveu um livro!”, algum dos amigos grita para alguém que também está ali pelo balcão.

“Uau, parabéns!”, ela responde.

Eu fico meio tímido com aquilo tudo e tento diminuir a coisa toda, é só um rascunho, mas ao mesmo tempo estou feliz demais e mais uma rodada de shots chega. A cena se repete com pouca ou nenhuma variação, diversas vezes.

Numa dessas, eu, já bêbado, acabo agarrado com alguma das moças que se juntaram a nós, atraídas pelo barulho dos brindes ou pelas bebidas sendo pagas por sabe-se lá quem. E voltamos juntos para o meu apartamento, e a noite continua por mais algumas horas. Tudo isso gravado apenas em flashes na minha cabeça.

Acordei por volta das dez da manhã. Liguei a cafeteira, acordei a moça que dormia vestindo minha camiseta, com cuidado para não deixar transparecer que eu não lembrava seu nome. Inventei que eu precisaria sair logo, tinha um almoço marcado. Pedi desculpas, anotei seu telefone, disse que ligaria. Só depois de fechar a porta às suas costas e pegar mais café, reparei.

Abaixo da minha janela havia um saco plástico, transparente, pouco menor do que esses de supermercado. Tinha sido jogado ou colocado ali de alguma forma, mas não era um grande mistério de onde tinha vindo. Precisei de meio segundo para reconhecer as páginas da minha história rasgadas e picotadas em milhares de pedaços. A cortina de Maria estava fechada. Para mim, em definitivo.

E foi assim que perdi meu primeiro romance.


Tyler Bazz

3 comentários:

Hally disse...

Mancada, senhor escritor... que coisa mais triste!

Mas valeu a pena essa pausa para o café, adorei o conto, estava torcendo pelo final feliz.

Mara UDER disse...

poxa, escritor... que isso...
mais atenção no esquema com a Musa #3... e quem diz isso é uma pessoa que está extremamente bêbada agora.

Bonaldi disse...

Acho que ela ñ entendeu o final.