sexta-feira, 25 de outubro de 2013

Musa



Eu estava com um livro que se esforçava para prender minha atenção, sob um sol que mais iluminava do que aquecia o banco do parque, quando ela passou correndo pela primeira vez e nossos olhares se encontraram. Fiquei encantado, observei-a ir por alguns segundos e tentei voltar ao livro. Logo ouvi seus passos se aproximando, os cabelos dourados, os olhos azuis. Nos achamos mais uma vez, sorrimos. Então, quando ela passou pela terceira vez, desconfiei que suas voltas estavam curtas demais, fechei o livro e não tirei os olhos dela. Dessa vez ela chegou em poucos segundos e parou:

“Oi. Meu nome é Maria, e o seu?”

Fomos tomar um café em um quiosque no próprio parque. Assim que nos sentamos ela disse:

“Acho que não vai dar muito certo, Tyler.”

“O quê?”

“A gente. Quer dizer... estamos os dois em um parque, numa manhã de terça-feira. Quem é que vai pagar as contas?”

Eu ri.

Poucas semanas depois ela estava morando extraoficialmente no meu apartamento. Fazia sentido, era perto de onde ela trabalhava e só tínhamos que dividir as contas. Além disso, sua presença no dia a dia me fazia bem. Ela era prática, organizada, produtiva, e sem querer me levava a ser tudo isso. E eu precisava ser prático, organizado e produtivo, porque já estava ficando patético.

Uns meses antes eu havia decidido pelo famoso “largar tudo”. Consegui ser demitido por justa causa (outra história) de um emprego que eu não gostava e nem pensei em procurar outro. Eu contava com o Marcello, e era hora de virar escritor.

O Marcello vivia no meu pé por causa dessa coisa de escrever. “Cara, solta um livro seu na minha mão, pode ser uma short novel, que eu arranjo quem publica. Ou uns contos, tanto faz. Eu não sou louco pelo meu trampo também. Você assume a vida de escritor, eu assumo a de agente literário,” me dizia, sempre que podia, e podia muito. Sério, que tipo de gente faz essa pressão toda sem parar? Eu te digo: um amigo. Mas eu sou do tipo de gente que pega as boas atitudes e intenções que as pessoas têm comigo e transformo em algo ruim, incômodo. Porque é muito mais fácil assim.

Eu não falei para o Marcello quando larguei tudo que ia tentar escrever um livro. Primeiro porque isso causaria pressão e expectativa, segundo porque eu precisava do Marcello no trampo que ele tinha e não gostava tanto assim. E deu certo. Marcello era publicitário, cuidava da preparação de uns catálogos comerciais e vivia contratando freelas para escrever ali. Falei com ele e logo eu tinha prioridade para fazer os textos, com trabalho sempre que precisasse, ou quisesse. Como não pagava aluguel (herança), eu precisava de pouco para me virar, e com alguns dias de trabalho garantia o bastante para não fazer nada o resto do mês – isso e uns relógios e bijuterias que eu comprava na 25 de Março e vendia com um lucro retardado para as amigas da minha mãe.

E ainda bem que eu não falei para o Marcello que queria escrever, porque nos meses que seguiram eu relaxei na aparência, desencanei de arrumar o apartamento, comecei a aprender uma língua nova, li livros pra caralho e desenvolvi novos gostos e dotes culinários, mas não escrevi mais que fragmentos perdidos. Então a Maria chegou e mudou tudo.

Maria não fazia pressão. Ela sabia que eu queria escrever, me encorajava e me lembrava disso quando eu começava a perder o rumo. Mas eu raramente perdia o rumo. Não sei se era a rotina mais definida, as sugestões que ela me dava a qualquer momento ou o quanto eu me sentia bem olhando nos olhos dela durante o sexo, mas com a Maria por perto eu não parava de escrever.

Ela era garçonete e bartender em um desses pubs meio modernos, escuros na medida e limpos demais. Chegava em casa no fim da madrugada e apagava ao meu lado, ou me despertava, dependendo do humor. A gente acordava relativamente cedo e saía; ela, para correr no parque, eu, com caderno e um livro para qualquer café que não fosse o do parque, para evitar distrações – no tempo em que ficamos juntos, Maria e eu aprendemos muitas coisas, mas não a ficar separados no mesmo espaço. Comíamos algo na rua e, enquanto ela dormia mais algumas horas (sempre achei incrível isso que ela fazia de separar o sono em parcelas e ainda assim dormir bem), eu geralmente saía para resolver alguma coisa ou simplesmente deixar o apartamento em silêncio. Passávamos o resto da tarde juntos, fazendo qualquer coisa ou nada. Quase sempre eu caminhava com ela até o trabalho, bebia algo antes que o bar começasse a cobrar entrada, então voltava para casa e escrevia, escrevia, escrevia, até dormir.

Nas noites de folga da Maria, costumávamos sair com amigos e amigas dela. Todos eram muito legais e simpáticos, riam das minhas piadas, mas vira e mexe alguém se dava ao trabalho de dizer a ela que ela estava perdendo tempo comigo. Minha apatia com isso deveria ter servido de alerta para Maria, mas não serviu. Eu não me incomodava com o que os amigos dela diziam porque sabia que mais cedo ou mais tarde eu faria merda e estragaria tudo. E eu estraguei tudo.

Não me lembro dos detalhes, talvez porque eu não sabia na hora o quanto a conversa era importante. Estávamos na cozinha, de manhã, quando algo na TV, ou algum comentário de alguém, colocou a conversa em um rumo que me levou a contar para ela que sim, eu tinha dormido com duas outras meninas desde que nos conhecemos, por pouco não foram três. Relembrando, agora, acho que os silêncios dela eram um pouco maiores que o normal antes de falar.

“Claro. Tudo bem sim... Só me pegou um pouco de surpresa. Mas eu sei que a gente não tem nenhum tipo de compromisso, a gente nunca nem conversou sobre isso. Eu sei.”

“É, foi isso que eu pensei na hora. Eu nem pensei direito, na verdade, mas...”

“Você usou camisinha, essas coisas? Eu devo me preocupar com algo?”

“Usei. Não precisa se preocupar com nada quanto a isso. Olha...”

“Vamos sair.”

Saímos, e enquanto descíamos as escadas ela disse: “Só não faz mais isso, por favor.”

“Não vou fazer,” respondi.

Continuamos em silêncio. Ela foi para o parque, eu fui para um dos meus cafés. Mas assim que entrei no apartamento, quando voltei, percebi a diferença, senti o vazio. Suas coisas estavam prontas e ela me esperava sentada na cama. Eu quis que ela estivesse chorando, mas eram só os meus os olhos marejados.

“Então não tá tudo bem?”

“Eu juro que queria que estivesse.”

“Tá. Olha... eu realmente não fiz por maldade. Eu nunca teria feito nada se achasse que fosse te machucar.”

“Uma das piores partes é que eu acredito mesmo nisso.”

“Ainda bem. Eu acho.”

“Mas tem uma coisa que eu preciso fazer.”

Ela não precisou falar e eu não precisei pensar. Eu sabia. Tinha quase 300 páginas e estava praticamente pronto. A ideia era mostrar para o Marcello na semana seguinte. Ela foi até o laptop e excluiu o arquivo sem nem mesmo abri-lo.

“Alguma cópia?”

“Nenhuma.”

Nem naquela hora, nem nunca depois, eu tive raiva da Maria por fazer aquilo. A verdade é que eu achei justo.

E foi assim que perdi meu primeiro romance.


Tyler Bazz

6 comentários:

Bonaldi disse...

Genial, Tyler.
(Só salva esse conto num pen ou no e-mail, please)

Natalia Máximo disse...

Caralho, você estraga tudo mesmo, puta que pariu

Jullia A. disse...

Eu leria esse romance..

Milla Pupo disse...

Caralho... impressionante.

littlemarininha disse...

Sem dúvida, esse entra para a lista dos seus textos mais legais :)
Adorei, sério mesmo.

Pulo no Escuro disse...

Oo...
Caralho.

Tá, não sei mais o que comentar depois desse arrepio. hauhauahuaua