sexta-feira, 2 de agosto de 2013

Primeiro encontro



Fazia um frio próximo de zero em Madrid quando voltamos ao hostel no centro da cidade. Uma névoa branca cobria o céu, que devia receber os primeiros raios de sol em pouco tempo. Meus amigos – ou as três pessoas que conheci na tarde anterior, no próprio hostel – foram para seus quartos e eu, sem sono, coloquei um pouco de água para esquentar na chaleira elétrica da cozinha.

As janelas eram todas para dentro do prédio e eu não veria o amanhecer. Peguei um saquinho de chá em um vidro com vários deles, sortidos, coloquei-o em uma caneca grande, com a asa quebrada, e fui para a sala comum, onde fiquei sozinho em um dos confortáveis sofás azuis, de costas para um grande mapa da Espanha, ouvindo o movimento nos quartos diminuir, as pessoas caindo no sono depois de uma noite de festa.

Ela chegou poucos minutos depois, com mais três ou quatro pessoas que foram para os quartos enquanto ela foi até a cozinha, voltou e se jogou na poltrona vermelha à minha frente, poucos metros e uma mesa de centro entre nós. Olhamos fixamente um para o outro por um momento, como se não houvesse mais nada ali para olhar. Ela fez menção de dizer algo, mas fui rápido em impedi-la com um gesto. Alcancei uma caneta perto da televisão no rack à minha direita e fiz um sinal para que viesse se sentar ao meu lado. Peguei sua mão de dedos longos, morna, recém-saída dos bolsos do casaco e escrevi: “Enjoy the silence.” Ela sorriu e assentiu.

Ficamos assim por alguns minutos, lado a lado no sofá, quietos. Ouvindo nada mais que a respiração um do outro e observando; eu, o vapor que saía da caneca, as linhas das mãos dela, a forma como cruzava as pernas; ela, quem sabe? Quando outro grupo de gente chegou, perguntei, em inglês: “Então, qual é seu nome?”

“Você falou!”

“Eles estragaram tudo,” apontei meio para a porta, meio para os corredores do hostel, de onde vinham vozes e risos e sons. Girei um pouco o corpo para ficarmos de frente, ela fez o mesmo.

“Hm. Ok. Marie, e o seu?”

“Tyler.”

“Certo, Tyler, e como você sabia que eu falo inglês?”, ela tentava lutar contra um sotaque forte e delicioso.

“Vi você falando, ontem. E como eu não sei uma palavra de francês...”

“E sabe que eu falo francês, também?”, seu sorriso lento parecia me surpreender fazendo algo errado.

“Não finge que não sabe que eu estava prestando atenção em você.”

“Verdade. Nós dois deixamos bem clara nossa atenção.”

E tínhamos mesmo deixado. Enquanto meu grupo fazia macarrão para um exército e bebia vinho como se o mundo fosse acabar, ela começava frases em inglês e as terminava em francês em uma mesa com pelo menos dez pessoas e um falatório agitadíssimo. Foram várias as vezes em que nos encaramos e perdemos um pedaço de conversa, ou fomos chamados de volta à Terra por uma pergunta qualquer.

“E eu adorei o jeito como você fala Belgique.”

“Eu falo normal!”, ela agora ria e me cutucava de leve com a mão.

“Pode ser. Mas eu nunca tinha visto alguém falar. E você fala de um jeito que eu gosto.”

“Ok. Ok. Quer vinho?” Ela tirou uma garrafa da bolsa, ainda cheia, mas já sem rolha. Aceitei estendendo a mão após ela dar o primeiro gole. “Como foi sua noite?”, perguntou.

“Foi ótima. Nós fomos pra um lugar com música dos anos 60 e 70, um pessoal meio vestido à época, legal demais. Em Malasaña.”

“Eu passei por Malasaña também.”

“Então só faltou a gente se encontrar.”

“Só. Precisamos garantir que isso aconteça amanhã. Talvez sair daqui já juntos seja uma boa ideia.”

“Eu acho uma ótima ideia.”

E a conversa fluiu no mesmo ritmo em que passávamos a garrafa entre nossas mãos, que vez ou outra se encontravam e nós prolongávamos o movimento, como se aquela fosse a única situação em que pudéssemos nos tocar. Falamos de viagens e do que nos levava a Madrid. À Espanha. Do livro que eu carregava no bolso e do quanto ela tinha gostado dele, quando leu. Ela estudava arquitetura e adoraria conhecer o Brasil, ver as obras de Niemeyer, que ela pronunciava o nome muito bem, mas não conseguia puxar o r como eu fazia.

“Estamos sem vinho,” ela disse enquanto me entregava a garrafa. Bebi o último gole e encostei no sofá. “Você se incomoda se eu fumar?”

“Não.”

“Você tem um cigarro?”

Eu tinha. E acendi um só para que pudéssemos continuar o que começamos com o vinho.

Ela trocou de posição, apoiou os pés cobertos pelas grossas meias pretas na mesa de centro, ao lado da minha caneca praticamente cheia. Seus cabelos louros ainda estavam frios, quase gelados por causa da névoa lá fora, mas quando ela descansou a cabeça no meu ombro e os cabelos gelaram meu pescoço, eu gostei.

Poucos segundos depois alguém entrou com um casaco branco demais e antes mesmo de fechar a porta, disse: “Você não deveria fumar aqui.”

Marie se desculpou, alcançando a caneca. E perguntou, antes que a garota saísse por um dos corredores: “Eu preciso falar com alguém do hostel, você trabalha aqui?”

“Não.”

“Ah, ok. Obrigada.” O cigarro continuou aceso.

“E se ela trabalhasse aqui?”, perguntei.

“Eu inventaria qualquer coisa,” ela respondeu, voltando a se deitar no meu ombro. “Quando você vai embora?”

“Na terça. E você?”

“Segunda à tarde. Na terça você vai para o Brasil?”

“Isso.”

Voltamos a ficar em silêncio e adormecemos no sofá. Uma batida da porta nos despertou pouco depois. A cinza do cigarro havia caído em meu casaco e deixado uma marca queimada.

“Pra você lembrar da Marie, da Belgique, quando voltar pra casa,” ela disse, jogando a ponta apagada na caneca.

“Eu vou,” eu disse.

Já era de manhã e o movimento da sala só deveria aumentar, mas dormimos outra vez. Em vez do cigarro, agora ela segurava minha mão.


Tyler Bazz

Um comentário:

littlemarininha disse...

Caramba, que delícia esse texto. Delicado que só. Acho que é disso que mais gosto nas viagens, das pessoas incríveis que conhecemos em momentos e lugares inesperados.