sexta-feira, 14 de junho de 2013

Manual de Convivência



“Não somos tão violentos e autoritários como dizem, não é como se fôssemos a Polícia de São Paulo” (Autor desconhecido)

A frase acima é muitas vezes atribuída a um alto oficial da Gestapo, embora sua verdadeira origem nunca tenha sido rastreada, sendo inclusive possível que nunca tenha realmente sido dita. Isto posto, vamos ao objetivo central deste texto: acompanhando os protestos da última quinta-feira (13J) em São Paulo, fiquei com a clara sensação de que manifestantes, jornalistas, entre outros, incluindo alguns amigos, colegas e conhecidos, não sabem exatamente como lidar com a PM paulista. Assim, sendo contra qualquer forma de violência e pensando no bem dessas pessoas, resolvi compilar este Pequeno Manual de Convivência com a Polícia de São Paulo, que não visa ser completo nem garante a segurança das pessoas, mas que pode ser útil em alguns casos.

Observação: as fotos e vídeos usados no manual não são de minha autoria e provêm da internet. Como diria a polícia: “eu não me responsabilizo”.

1. Não saia de casa. Este é o ponto básico e principal de toda a relação cidadão/polícia, na verdade. É importante ficar em casa – dentro de casa, não na sacada. Dependendo de sua renda mensal, pode-se ler a revista Veja ou assistir à novela das nove. Pessoa de bem fica em casa, sem incomodar a cidade, sem andar por aí à noite, sem fazer fila. Quem fica em casa não tem problema com a polícia (desde que o som esteja baixo e que a fumaça não tenha um cheiro estranho, naturalmente). No entanto, se ficar em casa não for sempre possível – algumas pessoas têm que trabalhar, estudar (diversão não pode, fiquem em casa), e todas são obrigadas a sair para votar – os tópicos seguintes se aplicam.

2. Ande sempre de carro. O carro é como uma extensão da casa do brasileiro, então, ao se locomover sempre de carro, o cidadão está pelo menos tentando se ater à regra 1 deste manual e manter uma boa relação com a polícia. Se todos andarem de carro, ninguém reclama do aumento do preço do ônibus, por exemplo. A polícia não incomoda quem anda de carro e impede que qualquer pedestre incomode também. A polícia está tão tranquila com quem anda de carro, na verdade, que às vezes deixa grandes avenidas engarrafadas sem nenhum tipo de observação, empregando melhor o efetivo na proteção de algum dirigente da FIFA ou desmantelando algum distúrbio causado por pedestres, e, assim, abrindo caminho para arrastões. Mas os arrastões são feitos por pessoas que não estão de carro, e quanto mais gente seguir esta regra, menos arrastões.

3. Ao encontrar um policial na rua, algumas normas de conduta devem ser estritamente observadas. Abaixe a cabeça e continue andando em frente, nem muito rápido, nem muito devagar, e não pare se não receber ordem para tal. Se o oficial polidamente solicitar que você pare, faça-o e mantenha a cabeça baixa. Apesar de toda a proteção – capacetes, escudos, coletes, cacetetes, bombas de efeito moral, gás de pimenta e armas de fogo – os homens da polícia costumam temer poderes especiais que o cidadão possa ter, como lasers disparados pelos olhos. Por isso, é fundamental não fazer contato visual, nem mesmo tentar ver o nome pregado à farda. Lembre-se de, sempre e somente quando perguntado, responder prontamente e com calma, e terminar a frase com “sim, senhor”, afinal você está falando com um ser superior que merece e exige o devido respeito. Caso seja atingido no rosto ou receba outro tipo de agressão, tenha paciência e pense se valeu a pena não ter seguido as regras 1 e 2 acima.

4. Não compre vinagre. Não importa o quanto você gosta de salada, cara, não compre vinagre.

5. Não participe de aglomerações. Qualquer reunião de vinte ou mais pessoas pode ser considerada uma aglomeração e, por consequência, um distúrbio aos cidadãos de bem. Aglomerações podem e serão sempre desbaratadas com as já citadas bombas de gás, sprays de pimenta e armas. Este ponto, mais uma vez, reforça a importância da regra 1, Não saia de casa. Se por acaso você vive em uma casa com mais de vinte moradores, evite áreas comuns e reuniões na hora do jantar, elas podem se tornar pontos de distúrbio e vandalismo.

6. Não tente registrar a ação da polícia, seja na rua ou de dentro de sua casa. Tá pensando que é quem com essa câmera, o Spielberg? Além disso, não dance, cante, grite ou se manifeste.

7. Não pense. Da mesma forma que paleontólogos acreditam que algumas espécies de dinossauros enxergavam mal, mas eram capazes de detectar o movimento de suas presas, existem correntes que afirmam que o policial é capaz de detectar o trabalho de um cérebro. Isso, além de não ser bom para a ordem, a moral, os bons costumes e o regime (que ainda vive no coração por trás de cada farda), é considerado extremamente perigoso dentro dos quartéis. Cidadão de bem não pensa. Cidadão de bem não quer mudar as coisas. Ao avistar uma farda da PM ou do Choque, é importantíssimo parar de pensar imediatamente, abaixar a cabeça e caminhar direto para casa. Uma imagem boa para ter em mente é a das hienas desfilando à frente de Scar, em O Rei Leão. Estudos mostram que este tipo de comportamento costuma atenuar os instintos violentos dos oficiais. No entanto, se não for possível preencher a cabeça com imagens de paradas militares e afins, o mais importante é não preenchê-la com pensamento nenhum. Os escudos da polícia não são capazes de deter o pensamento, e por isso ele é considerado uma arma de grande força.

Seguindo estas regras, dificilmente o cidadão de bem será confundido com um bandido, marginal, vagabundo desocupado e atacado pela polícia. Vale lembrar que este Manual não visa cobrir todas as situações e trata-se apenas de um conjunto básico de regras de conduta e comportamento. Instruções mais detalhadas podem ser encontradas em alguns jornais e revistas de grande circulaçao.

Por favor, tentem ficar seguros.


Tyler Bazz

2 comentários:

littlemarininha disse...

Nossa, o texto ficou MUITO bom, de verdade!
Vou começar a seguir essas regras hoje mesmo pra continuar em segurança.

Só que não.

Natalia Máximo disse...

Do caralho! Agora já entendi meu problema com a polícia: eu não estou seguindo nenhuma dessas orientações - inclusive a 7. Penso demais...