quarta-feira, 26 de junho de 2013

A música certa



Independente das coisas em que a gente acredita ou do quanto a gente não acredita em nada, existem alguns momentos, algumas coisas na vida com as quais fica difícil teimar, e aí pouco nos resta além de concordar com os sábios Lily e Marshall e dar crédito ao universo, que às vezes age de um jeito especial e faz tudo se encaixar, tudo parecer certo.

Na correria, nem sempre vemos quando essas coisas acontecem, e com um pouco de atenção a gente acaba se surpreendendo com a quantidade de vezes que o universo encaixa tão bem que quase dá pra ouvir um clique. Isso pode estar em coisas pequenas, como quando nosso olhar cruza com o de uma desconhecida no metrô, em outras maiores, como descobrir uma cidade onde você anda pelas ruas como se estivesse em seu próprio apartamento, de tão à vontade, e chega a algumas das coisas que mais importam na vida, como a música do despertador.

Talvez seja um dos maiores desafios dos dias de hoje, escolher uma música para acordar. Deve ser um problema relativamente novo, que surgiu com o avanço dos celulares – antes disso, que eu me lembre, os despertadores ou faziam barulhos infernais, ou eram rádios-relógios que tocavam o que viesse pelas ondas AM/FM, o que tornava impossível não só escolher com qual música acordar, mas também acordar todos os dias com a mesma música, exceto, às vezes, para o Bill Murray.

É uma tarefa extremamente complexa, pelo menos pra quem gosta muito de música. Primeiro, porque são milhares e milhares de opções. Também porque há uma série de importantes fatores envolvidos, que podem inclusive ter pesos diferentes e variar bastante de uma pessoa para outra. É uma ciência das mais imprecisas.

Escolher uma favorita é arriscado – algumas noites mal ou pouco dormidas e todas as emoções trazidas por aqueles acordes começam a se transformar em irritação e raiva. O contrário também não serve: além de começar a estragar seu dia logo de cara, uma música detestada pode levar a custosas destruições de telefones celulares. Nada de radicalismos aqui.

Há quem goste, mas eu, pessoalmente, não recomendo nada muito pesado, barulhento, agitado e apressado – mesmo já tendo acordado muito com a voz do Joey Ramone e as guitarras que sempre acompanham. Talvez seja um tipo de música para se ouvir pouco depois de despertar, mas não é à toa que o Sepultura nunca gravou nada chamado “Beautiful Morning Sunshine”. Ao mesmo tempo, não pode ser tão lento, tranquilo e silencioso que você não perceba que está tocando e que só vire trilha sonora de sonho. O objetivo é acordar.

Conheço gente que usa aqueles barulhinhos do telefone, mesmo tendo músicas à disposição. Nem quero comentar isso.

Mas o que, então? Bom, eu posso estar chutando aqui, mas duvido que seja muito grande o número de pessoas que não gostam de acordar com um beijo na nuca, um sussurro no ouvido, um carinho sem pressa, essas coisas gostosas. E por que não transformar isso em música? Imagina uma canção que te acorda com um beijo, devagar, suave, que te deixa com vontade de ficar na cama mais um pouquinho, mas que não te faz querer voltar a dormir. Dá quase pra dizer que é ideal.

Não é nem um pouco fácil. Eu consigo ver o universo agindo com certa frequência quando ando de metrô, nos milhares de olhares trocados diariamente, e chego a contar nas duas mãos as cidades onde me sinto em casa. Mas a música perfeita para o despertador, aquela que faz o universo clicar e me acorda do melhor jeito, eu ainda não achei.


Tyler Bazz

3 comentários:

littlemarininha disse...

"Conheço gente que usa aqueles barulhinhos do telefone, mesmo tendo músicas à disposição. Nem quero comentar isso."

Eu faço isso. Em minha defesa, devo dizer que já enchi o saco de algumas músicas do Chico e dos Beatles e, por isso, achei mais seguro ficar com as musiquinhas do celular mesmo.
Boa sorte na sua busca! :)

Tyler Bazz disse...

AUHAHUAHUAHUAUHA sério??? Não sabia que tinha um exemplo tão próximo!

Bonaldi disse...

Em minha defesa, eu nasci no Dia da marmota (02/02), então posso me dar ao luxo de dar uma de Bill Murray e acordar sempre com a mesma música.

(Btw, ótimo texto, pra variar...)