quinta-feira, 4 de abril de 2013

Cornerstone



Achei que tinha te visto na fila da bilheteria. Era tão parecida que por um momento esqueci o quanto você está longe. Esperei ela comprar e puxei assunto, tímido, só com um sorriso. Acho que ela gostou. Era sexta e saímos naquele dia mesmo, mais tarde. Muita cerveja gelada, ela era boa de papo e gosto musical, igual você. Mas não gostou nem um pouco quando estávamos indo pra casa e eu perguntei se podia chamá-la pelo seu nome.

Achei que tinha te visto na outra ponta do vagão, mas era só alguém bem parecida, que também deixava os cabelos caídos sobre os ombros, enrolando nos fios dos fones de ouvido. Sentei ao lado dela e começamos a falar, saímos do trem já de mãos dadas. Eu gostava dela, e ela parecia gostar de mim mais do que você jamais gostou. E tudo estava indo bem até eu perguntar "e se eu te chamar pelo nome dela?"

Resolvi mudar o caminho de volta, que o metrô já não estava fazendo bem. Passei a andar, pegar ônibus, qualquer coisa, eu não ligava se tivesse que andar mais.

E um dia, a pé, achei que tinha te visto entrar em um sebo, mas era só alguém com o mesmo jeito de andar. Entrei lá também e ela tinha seus olhos, então ignorei os livros ruins que ela escolheu, as bandas ruins que ela ouvia, os filmes ruins que me indicava. Mas ela não ignorou quando ouviu seu nome sair da minha boca.

E eu tinha várias explicações pra quando me perguntavam por que é que eu nunca dava certo com ninguém. Acontece, não rolou, faltou química, a gente queria coisas diferentes. Mas a verdade é que não tinha lugar pra mais ninguém num mundo cheio de você.

Até que encontrei sua irmã na saída da estação, exatamente onde a gente se conheceu. Fomos a um café e nos apressamos em todos os assuntos para te evitar, mas ficou impossível quando a moça veio tirar nosso pedido – eu ainda bebo seu café, ela gosta do seu muffin favorito. Então baixamos a guarda e nos deixamos sentir saudade, sem fugir da sua presença, e o abraço de consolo foi virando afeto. E um dia eu pensei ter estragado tudo, quando na hora de dizer boa noite seu apelido escapou, logo depois o começo do seu nome. Mas ela só sorriu, me beijou e me disse no ouvido: "Pode me chamar do que você quiser."


Tyler Bazz

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