domingo, 3 de março de 2013

Sete problemas



Algumas pessoas dizem que eu reclamo demais. Eu reclamo muito, isso eu admito, mas não demais. Algumas pessoas podem dizer também que eu não deveria reclamar tanto enquanto tem gente no mundo sem ter o que comer, sem ter onde morar, isso tudo. Mas quem fala isso é chato. Sério, pode avisar. E a verdade é que eu reclamo muito, mas meus problemas são poucos. Só sete. Quer ver?

Domingo – Aos domingos eu acordo sozinho, faço compras sozinho e cozinho o almoço sozinho, bebendo vinho tinto. Eu como sozinho. Depois de lavar a louça, tiro o resto do dia para relaxar, ver um filme ou aproveitar o silêncio com um livro. No fim da tarde eu costumo tirar um cochilo, então arrumo as coisas do trabalho e espero o sono chegar, em frente à tv. Eu faço isso tudo sozinho, mesmo quando estou com alguém.

Segunda-feira – Da crueldade do despertador aos rostos todos iguais no metrô, do chefe mal-humorado que tem em quem descontar ao lanche sem gosto antes da volta para casa, segunda é um dia ruim. Não adianta adoçar o café. Não tem lembrança, só saudade. E no fim da noite o telefone nunca toca.

Terça-feira – Eu tento me concentrar, me afundar em trabalho. Assumo mais responsabilidades do que eu poderia, tento ser dois, três, tento manter a cabeça tão ocupada que não dê tempo de pensar. Não adianta. Bastam alguns segundos de distração, um gatilho qualquer, e a mente viaja e não volta.

Quarta-feira – Com a tarde livre no trabalho, às quartas eu costumava passar na casa dela de surpresa, ou, quando sabia que ela não podia, fazia planos para o fim de semana, procurava algum presente simples, mas legal, só por dar presente, escolhia um filme no cinema para aproveitarmos a promoção. Agora eu me recuso a voltar para casa cedo e fico andando sem rumo pela cidade, evitando lugares. Gasto o tempo que posso e me refugio numa cerveja que se estende até a hora do futebol, torcendo para algum valentão nervosinho se incomodar com a minha presença. Acaba o jogo e eu vou dormir igual, com os mesmos pedaços de sempre faltando.

Quinta-feira – A gente se conheceu numa quinta. Isso me basta.

Sexta-feira – Esgotado, eu assisto o dia passar sem me envolver muito. Faço o possível para escapar dos happy hours do trabalho e dos amigos que me restam. Chego arrastado em casa e antes que eu possa evitar a cabeça já foi atrás dela, de onde será que ela está, de quais pessoas interessantes ela está conhecendo, gostando, indo embora. Daí os remédios, daí os vinhos, daí os extremos.

Sábado – É o dia mais tranquilo, pra ser sincero. Eu acordo de ressaca depois do almoço e o dia voa até a noite, quando decido parar com isso tudo e aceito os convites refeitos da sexta. Mas normalmente passa rápido, e logo eu sou o cara fechado da mesa, que mais bebe que fala enquanto o resto se diverte e se pergunta por que foi que me chamou, mesmo. A noite é um punhado de olhos sem brilho, de conversas sem faísca, de horas que eu só quero que passem logo. Quando acaba eu vou direto pra cama, que dormir é o mais próximo de algo bom que acontece.


Tyler Bazz

4 comentários:

Bonaldi disse...

Nothing suffocates you more than
The passing of everyday human events"...

littlemarininha disse...

É, olhando o texto com atenção a gente percebe que você não tem sete problemas não, tem um só que desencadeia todos os sete...

Tyler Bazz disse...

Affe Má, seu comentário fez eu querer mudar o título!

littlemarininha disse...

Hehe :P