quinta-feira, 28 de março de 2013

Louis Fernán e o mistério dos mini cupcakes



Detetive profissional, Louis Fernán gostava do que fazia, e em dias de folga e tempos de calmaria no trabalho, matava o tempo resolvendo mistérios. Hobby e treino, o útil e o agradável. Por isso, numa tarde em que estava cansado de perder mão depois de mão em jogos de poker online (Lou diria que prefere o poker jogado cara a cara, quando ele pode ler melhor seus oponentes, embora sua experiência com o poker real não tenha sido exatamente vitoriosa, mas isso é outra história), lembrou-se de algo que havia notado num trabalho anterior e que lhe intrigou por alguns dias, até que o assunto sumiu de sua cabeça. Acabou com o café da caneca, pegou um dos arquivos que insistia em usar para organizar seus casos e escreveu na parte de fora, em letras grandes: O mistério dos Mini Cupcakes. Colocou os óculos escuros, jogou uma pequena caderneta no bolso e saiu.

Sua cabeça já trabalhava enquanto ele andava em direção a um dos shoppings da Avenida Paulista. Mini cupcakes, pensava Lou, uma versão em miniatura de algo que já é, por sua vez, uma versão em miniatura de algo. Obviamente, o mistério não era a questão da miniatura. Desde os celulares do início dos anos 2000 Lou tinha aprendido que não há muitos limites para o quanto algo pode ficar pequeno. O que chamou a atenção do detetive durante uma simples investigação algumas semanas antes foi o aparentemente enorme sucesso que os bolinhos faziam. A pequena loja do shopping teve muito movimento durante todo o tempo em que Lou esteve por perto. Por que não os cupcakes normais? Por que não bolos em tamanho normal? Eles são vendidos em fatias, não? Parecia inexplicável, e Lou queria explicações.

Quando se aproximava da entrada do shopping, Lou viu uma multidão um pouco adiante na avenida e foi ver do que se tratava. Não precisou muito para entender, com as bandeiras coloridas e alguns cartazes. Parado no canteiro central, perguntou a um garoto alto e magro que passava por ali com um megafone pendurado no pescoço:

“O que tá rolando, exatamente?”

“Beijaço gay em protesto contra o deputado, quer participar?”

“Hm. Tudo bem se eu não beijar ninguém?”

“O senhor é homofóbico?”

“Não.”

“Então vale qualquer coisa. O importante é protestar.”

“É contra aquele deputado?”

“E uns outros também. Mas principalmente ele.”

“Entendi. Muito prazer,” o detetive estendeu a mão, “Louis Fernán. Você é...”

“Marco. Marco Feliciano.”

“Certo. Mas seu nome verdadeiro, qual é?”

“Marco Feliciano mesmo. Tenho documento pra provar, se quiser ver.”

“Não precisa. Mas que ironia, hein?”

“Demais, né? Se minha mãe pudesse ver o futuro quando escolheu o nome, eu provavelmente me chamaria, sei lá, Silas, João, qualquer coisa.”

“Fico imaginando a cara do deputado se encontrasse um xará tão, assim... desculpa dizer, afeminado.”

O garoto riu. “Não precisa se desculpar. Eu sei que eu sou afeminado. Bichinha mesmo.”

Foi a vez de Lou rir, “Marco Feliciano... quem diria,” disse para si mesmo, e então gritou “Marco Feliciano, uma bichona!”, e o garoto e o resto da multidão acompanharam o grito do detetive.

“Tem certeza que não quer beijar ninguém no protesto?”, Marco perguntou, ainda rindo da inesperada atitude de Lou.

Uau, eu estou bem assim mesmo?, pensou Lou, antes de responder um “Não, obrigado” bem-humorado, gritar mais uma vez “Marco Feliciano, bichona!” e sair em direção ao shopping enquanto a multidão repetia mais uma vez suas palavras.

O detetive foi direto à loja de mini cupcakes quando chegou. Observou com atenção o movimento de entrada e saída da loja, tentando estabelecer algum grupo de consumidores-chave. Entrou caminhando devagar e parou em frente ao balcão, olhando fixamente os doces expostos, sem que o resto da loja perdesse sua atenção. “Boa tarde, senhor, posso ajudar?” A vendedora sorria com uma simpatia que parecia sincera.

“Eu... eu queria dois... mini cupcakes. Isso. Dois mini cupcakes.” Lou não sabia se era a moça, as cores ou a falta de um almoço decente, mas percebeu a dificuldade na formação das frases.

“Quais sabores?”

“Hm. Vamos ver... eu quero um do que mais vende, e um do que menos vende.”

Depois de uma breve conversa com a gerente da loja, a vendedora serviu o pedido de Lou, embalando cuidadosamente cada um dos mini cupcakes em uma pequena caixinha. “É pra levar, né?” Lou respondeu afirmativamente, e alguns minutos depois de entrar na loja, saía com uma sacola na mão direita.

Apesar da vontade de continuar trabalhando no caso assim que chegou a seu apartamento, Lou se lembrou de um compromisso que tinha para o jantar, e os mini cupcakes tiveram que esperar dentro de suas caixas até que o detetive voltasse, já no fim da noite. Com a forte luz da escrivaninha acesa sobre os doces e uma taça de vinho em mãos, Lou iniciou sua análise, anotando tudo o que podia e considerava útil – cor, formato, aroma – para descobrir o motivo de tanto sucesso. Mas mesmo com o brilho e o zumbido da lâmpada, a brisa e os sons da rua que entravam pela janela, o vinho fez seu efeito, e Lou foi logo vencido pelo sono.

No dia seguinte, um domingo, o detetive precisou de certo tempo para acordar, despertar e pôr-se de pé, tendo dormido primeiro na cadeira, depois no sofá, e só então na cama. Seu corpo, que já não era jovem, suportava muito melhor as doses quase diárias de whisky do que as esporádicas noites muito mal dormidas. Quando finalmente conseguiu sair de seu apartamento para ampliar sua pesquisa em outro shopping, Lou se deparou com uma nova manifestação.

Bom sinal, pensou o detetive enquanto abria caminho gentilmente entre as pessoas que assistiam ao protesto, quanto mais indignação, melhor. “O que tá rolando, exatamente?”, repetiu a pergunta do dia anterior a uma moça que parecia ter pouco mais de trinta anos, com cabelos cor de trigo e que soava tão revoltada quanto os manifestantes.

“Atropelaram um cara de bicicleta, de madrugada,” ela respondeu.

“Grave?”

“Parece que o moço se machucou bastante.”

O detetive esticou o pescoço, tentando enxergar as dezenas, talvez centenas de ciclistas e bicicletas que fechavam uma das pistas da avenida.

“Mas também...”, a moça continuou.

“O quê?”

“...o cara quer andar no meio da Paulista!”

“Foi aqui que aconteceu?”

“Uhum. Ali na frente.”

“Essa pista não estava fechada ontem, com cones e tudo?”

“Isso. Mas a Paulista não é lugar de bicicleta!”

“Não?”

“Claro que não! Lugar de bicicleta é em parque, ciclovia. Rua não é lugar de bicicleta, rua é pra carro. Não sei de onde saiu essa ideia de andar de bicicleta em rua movimentada!”

Lou se concentrou por alguns segundos no rosto e nas palavras da moça, procurando algum vestígio de sarcasmo. Ela era jovem, bonita, parecia inteligente. E embora soubesse que beleza não garantisse nada, e às vezes fosse até uma desvantagem, Lou ainda acreditava que as gerações posteriores à sua podiam melhorar a cidade, o país e assim por diante.

“É uma rua grande, espaçosa. E mesmo que não fosse. Você não acha que as pessoas podem usar bicicleta pra ir de um lugar pro outro, em vez de só passear em parque?”

“Eu trabalhei muito pra comprar meu carro, não tenho que ficar me preocupando com bicicleta!”

O detetive suspirou. Infelizmente, nem tudo era mistério, e aqueles olhos verdes que o encaravam não pareciam esconder muito mais que pura idiotice. Decepcionado com uma pessoa, mas encorajado por muitas outras, Lou seguiu para o shopping.

Não havia tempo a perder. Na segunda-feira Lou começaria um novo trabalho, uma simples investigação conjugal que não o desafiava, mas pagava as contas. Foi ao stand dos mini cupcakes e fez uma compra variada, de chocolate a framboesa, passando por café e baunilha. Menos de uma hora depois de sair, o detetive estava de volta em seu apartamento e tinha à sua frente uma série de amostras. Mini cupcakes de diversos sabores e de duas origens diferentes. Não era muito, mas para um trabalho extraoficial, parecia suficiente.

Enquanto fazia medições, pesagens e múltiplas anotações em seu bloco de rascunhos, Lou almoçou. A comida pesou em seu estômago junto com o refrigerante e, mesmo consciente de que aquilo era trabalho, o detetive decidiu que não faria mal comer um dos bolinhos. Mordeu metade de um dos mais coloridos, descobrindo o recheio cremoso. Não resistiu e avançou para o que tinha cobertura de chocolate, e assim por diante até acabar com todos.

Pouco depois, ainda com a boca doce, Lou deu por encerrado o caso dos mini cupcakes. Tirou da gaveta da escrivaninha o arquivo aberto dias antes e escreveu em tinta vermelha, sem chances para dúvidas: “Mistério dos mini cupcakes: resolvido. Solução: Bons praca!

Olhando as nuvens que se aproximavam cada vez mais de seu apartamento, disse, tentando se convencer ao ouvir a própria voz, “acho que preciso de férias.”


Tyler Bazz

3 comentários:

littlemarininha disse...

Haha, GE-NI-AL.
Sempre me perguntei o porquê de toda essa fama dos minicupcakes... Bom saber o motivo. Vou testar pra ver se o Louis tem razão :)
E que sacada legal pra falar sobre o que tem acontecido na cidade. Felizmente, tenho conhecido muitos "Marcos Felicianos Bichonas" como o que ele conheceu na Paulista... Muitos mais do que mulheres jovens, bonitas e extremamente estúpidas.

littlemarininha disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Natalia Máximo disse...

hahahaha boa! outra razão do sucesso dos mini cupcakes é a nuvem de hipsters ao redor dos bolinhos. acho só que lou pegou um horário muito mainstream, em que eles não saem às ruas...