terça-feira, 1 de janeiro de 2013

Resolução

"E aí, vai passar o Ano Novo com ela?"

Não era uma pergunta séria. Primeiro porque o Marcelo, além de não estar interessado, não conseguia parar de rir, quase derrubando a cerveja do copo, chamando a atenção de metade do bar. Segundo porque as quatro pessoas daquela mesa - Marcelo, Obama (outra história), Amanda e eu - sabiam que eu não queria passar o Ano Novo com ela.

Ela era Maria, uma menina de vinte e poucos anos que estudava engenharia e ficou me olhando numa tarde de terça-feira de novembro, naquele mesmo bar, até que perguntou o que eu tanto rabiscava no caderno enquanto bebia cerveja atrás de cerveja. Era isso mesmo que eu fazia: só rabiscava enquanto deveria estar trabalhando, e ela foi a desculpa que eu precisava para fechar de vez o caderno e pedir mais um copo.

Com um pouco de conversa ficou claro que Maria não era só bonita, mas também que tinha bom gosto, boa conversa, boas piadas. Como morávamos perto e ela se deu bem com meus amigos logo de cara, acabamos passando muito tempo juntos. Não era um relacionamento, mas ficava quase implícito que ela estaria junto quando eu marcava um bar, ou que nos veríamos nas noites de sexta. E tudo era ótimo, mas tinha um problema: eu. Quando estava com Maria, eu passava praticamente o tempo todo pensando em outra coisa.

"Para de frescura. Passa o Ano Novo com a menina, leva ela pra casa, dá uma e semana que vem você termina."

O bom de ser amigo da Amanda era ter acesso à perspectiva feminina em assuntos importantes. É verdade, não seria nada mal passar o réveillon com a Maria. Eu teria alguém para beijar à meia-noite, alguém para conversar sem pressão enquanto todo mundo estaria preocupado em impressionar, e dormir com ela nunca, nunca tinha sido ruim. Ao mesmo tempo, Ano Novo parecia algo grande, uma data que se escreve em maiúsculas. Oficial demais, e eu não queria nada muito oficial.

Eu poderia ter pensado na situação toda antes, é verdade. Dias antes do Natal ela disse que viajaria para visitar a família, mas que voltava para o réveillon. Eu comentei que ficava sempre em São Paulo nessa época, ela deixou no ar que podíamos combinar algo quando ela voltasse. Eu só murmurei um "ok" e esperei que o assunto fosse esquecido, que o mundo acabasse, que ela conhecesse alguém melhor, qualquer coisa. Mas nada. E agora era 29 de dezembro e eu precisava resolver.

Com tudo isso, era de se esperar que eu tivesse pelo menos uma desculpa melhor quando, à noite, no mesmo bar de sempre, ela me perguntou: "E aí, a gente vai passar o Ano Novo junto?", mas eu não tinha. Então eu fiz o que qualquer pessoa faria naquela situação. Inventei uma história de que iria para o sítio de uns parentes, que uns primos que eu não via há tempos estariam lá, que seria uma coisa em família. Ela pareceu chateada, mas entendeu. E assim que estava livre da Maria para a virada do ano.

Acabei passando o réveillon na casa de uma conhecida que trabalhava com a Amanda. Muita gente pretensiosa, muita bebida prepotente, muita música que não batia comigo. Não beijei ninguém à meia-noite, mas abracei meus melhores amigos, a única coisa que me fez ficar naquela festa. É claro que em alguns momentos senti falta da Maria ali, mas a verdade é que na maior parte do tempo eu estava pensando em outra coisa.

Era pouco antes da uma quando escapamos e fomos para um bar que prometia estar ótimo e parecia cumprir. Não era grande, mas estava lotadíssimo, e eu já buscava minha segunda cerveja no balcão quando vi Maria, vestida de branco e rodeada de amigas que precisaram de dois segundos para me odiar. Ela sorriu e ficou ainda mais linda. Eu sorri de vergonha.

Uma mentira já era demais, e em vez de ser um babaca ainda maior e tentar convencê-la de que a viagem tinha dado errado na última hora e blablablá, tentei só me desculpar, explicar que eu não soube dizer que talvez fosse cedo demais para aquilo tudo, embora eu gostasse bastante dela. E a Maria entendeu. Tão bem que eu me senti mais envergonhado e ridículo ainda. Ela não acharia ruim, claro. A gente não tinha nada um com o outro, estava só se conhecendo. A ideia era juntar nossas galeras, conhecer mais gente, fazer festa. E nisso tudo eu e ela estaríamos juntos, algo que eu não podia dizer que era ruim, certo? Certo.

Então eu resolvi arriscar. Pedi desculpas mais uma vez e perguntei o que ela achava de passarmos o Ano Novo juntos a partir dali, ou se ela queria fazer algo outro dia da semana. Ela não quis. E eu compreendi quando ela explicou que não teria problema se eu tivesse dito que não queria estar junto no réveillon, mas que eu tinha mentido, e não rolava mais.

A quantidade de gente no bar facilitou as coisas, e o resto da noite não foi estranho. Nossos olhos se cruzaram algumas vezes, mas sempre estávamos de passagem, ou conversando com alguém. Acabou sendo uma noite boa, e para ela talvez tenha sido ainda melhor. E como era 1 de janeiro, vendo Maria dançar, fiz minha resolução: naquele ano que começava, eu me concentraria mais.


Tyler Bazz

2 comentários:

Amanda Rodrigues Correa Frota Gomes disse...

Li o texto imaginando que Amanda fosse eu e o Marcelo fosse o Puto! Ficou muito legal!

Bonaldi disse...

Mano, muito bom!