segunda-feira, 14 de janeiro de 2013

Peso

Quando minha última ex-namorada me ligou numa tarde de terça e, com uma doçura na voz que eu já tinha esquecido que existia, perguntou se podíamos tomar um café em algum lugar, fiquei tão curioso que mesmo não querendo ir e, principalmente, não estando pronto para vê-la outra vez, aceitei. Sim, curioso. Mesmo tendo aprendido na tv e na vida que quando exes convidam para um café normalmente é porque estão querendo voltar, a regra não se aplicava àquele caso. Ela tinha terminado comigo há pouco menos de vinte dias, com uma série de motivos, reclamações e palavras duras que dificilmente teriam desaparecido em tão pouco tempo. Na verdade, se depender da paixão e do prazer que vi em seus olhos enquanto ela descarregava tudo em mim, aquelas coisas dificilmente vão desaparecer. Ponto.

No dia seguinte, antes do almoço, nos encontramos em um café movimentado da Paulista. Eu escolhi o lugar, que não era lá um dos meus favoritos, mas tinha sempre bastante gente dentro, entrando, saindo. Eu tinha certeza que não tinha feito nada errado, que provocasse raiva, eu quase nunca faço, mas se é para marcar encontro com uma ex recente, eu prefiro locais com testemunhas. É claro que eu estava nervoso, tremendo, até. Eu era louco por ela, e pra mim estava tudo bem, éramos um casal normal, com problemas, mas com coisas boas que compensavam, até que um dia ela deixou bem claro que não, nada compensava aquilo.

Quando ela chegou, vestida toda com roupas que eu conhecia, tive certeza que era com ela que eu queria ficar. Mas daquela batalha eu já tinha desistido, e meu grande objetivo ali era só não parecer nervoso demais. Foi a primeira coisa que ela reparou quando veio até minha mesa e a gente se cumprimentou, talvez o cumprimento mais estranho de todos, o de duas pessoas que passaram rapidamente de banhos juntos a nada.

“Tudo bem?”, ela só podia estar brincando. “Nossa, você tá tremendo.”

“Acho que eu abusei do café”, respondi, apontando a xícara do tamanho de um balde na mesa.

“Americano?”

“Espresso.” Aquilo explicaria a tremedeira.

“Sério?”

“Uhum.” E era sério. Tomei o que ainda tinha de café na xícara-balde enquanto ela pedia um latte. Aquilo era novo. Latte. Ela nunca bebia lattes quando estava comigo. Ela bebia café preto, espresso, às vezes cappuccino. Nunca latte. E eu nem preciso dizer em voz alta e fazendo caras para vocês perceberem o quanto eu desprezava os novos lattes dela. “Dois, por favor”, pedi, até agora não sei porquê.

E então ela tinha que falar. Fiz questão de deixar o silêncio esquisito cair sobre a mesa e passei a olhar fundo em seus olhos. Eu detestava ficar de conversinha à toa quando tinha algo importante para discutir e esperava que pelo menos dessa vez ela respeitasse isso. E tinha que ter algo importante para discutir, porque se depois de terminar comigo daquele jeito ela resolvesse me ligar no meio da semana só para tomar café e bater papo, ela seria uma vaca, e esse é um adjetivo que, apesar de tudo, nunca tinha nem passado pela minha cabeça para falar dela.

Mas o silêncio fez efeito, porque ela respirou fundo e se preparou para falar algo importante, dava para perceber.

“Eu não sei exatamente como te dizer isso.” Continuei quieto, decidido a não ajudar. “Não sei nem se eu tenho o direito de falar com você sobre isso, mas eu me sinto na obrigação. Acho que eu meio que provoquei isso. Se não totalmente, pelo menos grande parte.” Quando não era conversa à toa, era essa enrolação. Alguma coisa no meu rosto denunciou a impaciência e ela finalmente foi direto ao assunto. “Eu vi você sábado de manhã, na sacada. Eu to bastante preocupada.”

“Você me viu!? De onde?”

“Eu dormi na casa da Ju aquele dia. Ela mora no prédio da frente, do outro lado da rua, uns andares pra cima.”

“O prédio azul?”

“É. Mas é onde você estava que importa.”

Acho que é justo com vocês que, antes de continuar a história, eu descreva exata e objetivamente o que foi que ela viu no sábado de manhã.

Ela me viu sentado ao sol na beira da sacada do segundo andar de um prédio. Com o cabelo todo desarrumado, de óculos escuros, calça jeans e tênis só no pé esquerdo. Cigarro em uma mão, lata de cerveja na outra.

Eu sabia por que eu estava sem camisa, de óculos escuros e só com um tênis, bebendo e fumando ao sol numa manhã de sábado. Mas ela não precisava perguntar, ela tirava suas próprias conclusões, certa dos meus motivos, de como eu havia ido parar ali, e ela estava preocupada. Eu era uma pessoa que precisava de ajuda.

“Eu sei que as coisas têm sido difíceis pra você esses dias, mas não é o fim do mundo.” Precisei me concentrar e parar de olhá-la para me manter sério. “Além do mais, de onde você estava você só ia conseguir quebrar vários ossos. Nem nisso você pensa direito. Tá, talvez eu não tenha sido muito justa com você fazendo as coisas como eu fiz, sei lá, por isso que eu te chamei aqui hoje. Se você quiser conversar, a gente conversa. Mas é importante você saber que acabou, não porque você é uma pessoa ruim nem nada, acabou porque não dava mais, e a vida continua, segue em frente, não adianta tomar atitudes idiotas no desespero.”

Um dos problemas de dizer a uma pessoa que ela é muito importante na sua vida é que ela pode acabar achando que é a única coisa importante na sua vida.

“Você quer conversar? Me explicar o que aconteceu?” Agora ela esticava a mão e baixava o olhar para encontrar o meu, tentando chamar minha atenção. A cena parecia tão ensaiada que eu quase desisti de escrever isso tudo, seria muito difícil alguém acreditar que realmente aconteceu.

Como eu fui parar lá, daquele jeito? Fácil: uma puta noite.

Mas eu não vou ficar aqui contando como foi. Primeiro porque vocês já tiveram putas noites de sexta, vocês sabem como é. Segundo porque, embora noites assim sejam do cacete, as histórias delas, contadas, nunca são tão legais, ainda mais comigo, que tenho esse probleminha de esquecer, aí chega um ponto da história em que eu não me lembro de mais nada e a próxima coisa que a gente sabe é que eu estou meio vestido na sacada de um prédio qualquer, na manhã seguinte.

E a explicação da sacada é mais simples do que parece. Eu acordei só de cueca, sozinho em uma cama de casal. Certo, não exatamente sozinho, tinha um cachorro grande demais para viver em apartamento deitado com a cabeça apoiada no meu peito. Mas não tinha nenhuma pessoa, e como nem a cama nem o cachorro eram meus, deveria ter alguém, e eu não fazia ideia de quem seria. O apartamento estava vazio, mas no criado-mudo tinha um bilhete dizendo ‘Trabalho até meio-dia. Volto com almoço. Beijo.’ Quem não assina bilhetes, sério? Eram onze horas. Se quisesse escapar do almoço com seja lá quem fosse, era hora de levantar. Então eu me vesti – a calça estava ao lado da cama, o pé do tênis na sala e o óculos, que não era meu, na cômoda do quarto – e fui para a sacada tentar descobrir onde eu estava.

Era São Paulo, e saber disso já era um alívio. Tinha cheiro de São Paulo, e mesmo do segundo andar dava para ver no horizonte que a cidade era grande demais para ser outra, mas eu não fazia ideia de que parte de São Paulo era, e queria saber antes de tentar ir embora. Voltei para a sala procurando o outro tênis e a camiseta, mas não achei. Procurei também algum porta-retrato ou qualquer coisa que me dissesse quem morava ali, mas nada. Sério, gente, fotos em casa, umazinha que seja, por favor. Então eu senti meu hálito e procurei algo na geladeira. Achei minha cerveja preferida e, bom, vocês entendem que aquele era o tipo de situação em que você precisa de uma bebida, certo? Acendi um cigarro, por hábito, e fui para fora, porque eu não sabia de quem era o apartamento, mas não queria ser desagradável e deixar a sala cheirando fumaça. Subi na beira da sacada e relaxei, tentando organizar os pensamentos. E foi essa cena que a ex viu. Simples, não disse?

Eu poderia ter explicado isso tudo pra ela, afinal ela estava “bastante preocupada”, com olhar de pena e tudo. Era o mínimo que eu poderia fazer. Bebi dois goles grandes do meu latte, levei uma das mãos ao rosto por um momento, evitando encará-la. Respirei fundo, apertei os lábios, eu precisava demonstrar minha vergonha e dificuldade em lidar com a situação, pronto para receber sua ajuda.

“Me deixa só fumar um cigarro antes de te explicar”, pedi com a voz baixa, trêmula, me levantando. Ela não viu meu sorriso enquanto eu saía do café, procurando o isqueiro no bolso da calça. Não voltei.


Tyler Bazz

Um comentário:

Sara Lupeti disse...

Texto longo, muito longo, mas amei do inicio ao fim. Bem acho um sentimento muito egocentrico esse, de você ter o "direito" de achar que você é tão importante para alguém, ao ponto de ser mais do que a própria vida, isso é muita idiotice. Tem tantas coisas mais legais e importantes do que uma pessoa que você amou por tanto tempo e tudo acabou, no meu caso, eu em primeiro SEMPRE, depois posso levar em consideração que tenho tantos livros importantes para mim, tantos CDS e Dvs que guardo com muito esmero, meus pais, meus amigos, meus animais, minha profissão, e depois outra pessoa. Achei muita filha da putice ela achar que ela seria tão importante pra ti ao ponto de você se jogar do 2º Andar e quebrar alguns ossos por ela. Achei genial a forma como deixou ela lá, parada, degustando seu latte
enquanto você ia acender um cigarro e ia deixar ela lá, elaborando algum discurso mais idiota e mais cliclê dos que ela já havia lhe dito, enquanto tomava seu balde de café e não sei porque seu latte .