sexta-feira, 5 de outubro de 2012

Despertador

Ela já estava sentada na cama, de calcinha, uma camiseta minha e a energia de quem tinha dormido bem, enquanto eu ouvia acordando, aumentando aos poucos minha participação. Falou de um filme cujo nome nos tinha escapado na noite anterior, que entrou na conversa pela trilha sonora e saiu pelo desconhecimento, provavelmente. Usou o gancho de certa cena do filme para dizer que

“Sabe, às vezes eu tenho medo que a vida esteja passando por mim sem eu perceber, que eu não esteja vivendo tudo completamente. Eu quero sorver o mundo em doses grandes, quero me lambuzar dele, renovar os pulmões a cada respiração, ver tudo com novos olhos a cada dia!”

“Hm, sei. Acho que não vai rolar,” respondi, percebendo um segundo depois que eu poderia não ter dito nada. Não que eu não goste de discussões existenciais. Eu só não consigo tê-las decentemente quando acordo.

“Por que não vai rolar?”

Eu realmente deveria ter ficado quieto.

“Você não vai renovar os pulmões levantando pra fumar às oito da manhã,” eu juro que disse isso para descontrair, já que eu tinha levantado para fumar às nove e também adoraria renovar os pulmões, mas o olhar que recebi de volta não foi exatamente descontraído. Pelo menos pensei rápido o bastante para me impedir de dizer que ela falava como um power point encaminhado por uma tia-avó. Sorver o mundo? Sério? “Mas principalmente-”

“Eu tô louca pra ouvir esse principalmente.”

Ela ia levar tudo muito mais a sério do que eu queria.

“Principalmente porque você não parece ser o tipo de pessoa que se deixa levar. Ontem, olha só, você resolveu vir passar a noite aqui, com um cara que você tinha conhecido poucas horas antes no bar, amigo de um amigo, avisando antes que isso não era garantia de sexo, mas que a conversa estava muito boa pra terminar - legal, gostei, mesmo. Mas no caminho pra cá você fez questão de passar na sua casa pra pegar pijama e escova de dentes. Você quer viver a vida ao máximo, aproveitar cada oportunidade... às vezes, pra isso, você tem que usar a escova de outra pessoa, dormir sem escovar os dentes, ou escovar com pasta no dedo. Você fazia isso quando tinha doze anos, por que não fazer aos trinta?”

“Eu tenho vinte e seis!”

“Sério?! Enfim... o que eu quero dizer é que fica difícil fazer tudo o que você diz sem antes se soltar um pouco, se livrar de algumas coisas simples.”

“Você fala como se fosse muito diferente. Você mesmo disse que já atravessou a cidade às cinco da manhã pra dormir na sua cama.”

“Eu sou assim também, eu sei. Mas foi você que entrou nesse assunto, toda comer rezar amar.”

Sonolento, cansado, mas sempre pronto para agir feito idiota.

“E você era muito mais legal ontem à noite, de certo só queria me comer mesmo.”

“Nada, eu gostei de você. É que eu fico meio de mau humor pela manhã.”

“Pode parar então. Já é meio-dia e meia.”

“Nesse caso,” levantei, com um sorriso que derreteria o mais duro dos corações, “vamos sair pra tomar um café e comer algo.”

Não rolou. Ela se vestiu e foi embora, sem dizer mais nada.


Tyler Bazz

3 comentários:

littlemarininha disse...

ODEIO pessoas que querem ter discussões filosóficas logo pela manhã. Ainda mais assim, sem qualquer abertura pro bom e velho senso de humor.
Rindo horrores com o "Ela falava como um power point encaminhado por uma tia-avó" e com a referência ao Comer Rezar e Amar.
Gênio!
:)

Marina disse...

Rindo horrores com a conversa toda, mas principalmente com a parte do "- Eu tenho vinte e seis. - Sério?". E aproveitando para dizer que as pessoas me amam porque eu tenho um estoque de escovas de dente em casa. =P

Bonaldi disse...

"Sonolento, cansado, mas sempre pronto para agir feito idiota"

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