sábado, 21 de abril de 2012

À distância

"Hey."

"Hey!"

"Não acredito que é você!"

"Ainda atende o telefone sem olhar o número?"

"E não pretendo começar a olhar tão cedo. Eu gosto da surpresa."

"Às vezes surpresa é ruim."

"E às vezes é boa. A de agora foi ótima."

"Que bom."

"Meu, que saudade! Faz meses que eu não ouço sua voz."

"Sete."

"Sete meses?! Mentira!"

"Sete. Quatro que a gente não se fala, mas chat não tem voz."

"Ah, mas a gente se manda mensagens sempre."

"Mensagem é recado, não conversa."

"Certo. E onde você tá? Que hora é aí? Haha."

"Se você não pergunta, eu pergunto. To em Boston. Uns conhecidos me arrastaram pra cá, no feriado."

"Festas e festas?"

"Nem tanto. Semi-festa no apartamento de um deles. Pouca gente, muita conversa, muita gente falando sozinha. Eu vi as estrelas pela janela e precisei te ligar."

"A gente e as nossas estrelas, né?"

"Sempre. Preciso de um cigarro, to congelando na sacada."

"Ainda fumando?"

"Parei há três dias."

"Sei. Deixa isso aí comigo. Sabe que eu não passo uma noite sem olhar as estrelas e pensar em você..."

"Mesmo?"

"Todas. Mesmo nas mais loucas, ou nas mais sem estrelas. Aliás, as estrelas daqui são as mesmas daí, né?"

"Como assim?"

"Céu do norte, céu do sul, sabe?"

"Ah, sim. É o mesmo sim. Tem estrelas no céu aí? Onde você tá, falando nisso?"

"Na Bulgária!"

"Sério?! Budapeste?"

"Uma cidade bem perto. E o céu tá lindo."

"Muito frio?"

"Eu não reclamaria se estivesse mais, mas você me conhece..."

"Conheço. E como você foi parar aí?"

"Tem três meninas daqui que estudam comigo. Aí tiramos a semana."

"Bares e bares?"

"Menos do que você imagina, mas tá bem legal."

"Eu imagino menos do que você imagina."

"Haha. Mas você parece que adivinhou que eu precisava de uma desculpa pra sair do bar."

"Chato?"

"Não. Mas faz dias que eu não fico sozinha por dez minutos."

"Melhor eu desligar, então, né?"

"Não, palhaço. Sozinha com você é diferente. Desde que eu te conheci eu nunca mais fiquei totalmente sozinha. Mesmo longe."

"Eu sei como é. Aqui é igualzinho. Logo a gente, que gosta tanto de ficar sozinho."

"É. Mas é bom, eu acho. Você gosta de ficar sozinha, e encontra uma pessoa no mundo que te deixa tão à vontade que a sensação é de estar sozinha, acompanhada. Não tem como ser mais certo."

"Faz sentido."

"Claro que faz. Tudo que eu falo faz sentido."

"Hahaha! Modestinha, sempre."

"E linda, não esquece."

"A mais linda."

"Que saudade..."

"Nem fala... Mas chega de climinha. E aquele seu alemão zoado?"

"O alemão is no more."

"Sério?"

"It has ceased to be."

"Acontec-"

"That is an ex alemão."

"Já deu. Aconteceu alguma coisa?"

"Acho que isso mesmo: deu. Me cansou. No começo era legal, mas depois de três meses ele era só um chato."

"Tirando o fato de ele não ser eu."

"Ninguém aqui disse nada disso. Metido."

"Mas e aí? Vocês mantêm contato?"

"A gente mal se fala. Um dos motivos pra eu terminar é que não tínhamos afinidade nenhuma, não era alguém com quem dava pra conversar."

"Entendi. E você sente falta?"

"Nenhuma. Dá quase pra dizer que eu fiquei mais leve. É impressionante como eu não sinto falta das pessoas que eu tirei da minha vida. Só das que tiraram de mim, ou das que foram embora sem eu deixar."

"Sinal que você escolhe bem. Seu timing é perfeito."

"Eu sei! As pessoas é que são teimosas."

"É o que eu vivo dizendo. Se todo mundo agisse mais de acordo com você..."

"Aí, tá vendo! Você entende! O mundo precisa de mais gente igual você."

"Mas aí eu seria só mais um."

"Nunca. Ia continuar sendo meu favorito."

"É... Chega, né?"

"Hahaha. Ok, chega. Até porque já vieram me chamar. Eu faço muita falta na mesa do bar, sabe?"

"Tell me about it."

"E quando você volta pra casa?"

"Entre o fim desse ano e o começo do ano que vem. E você?"

"Um pouco antes. Passo o Ano Novo por lá, já."

"O tempo tá voando, né?"

"E às vezes parece que não passa nunca. A gente vai se acertar quando voltar pra casa, né?"

"Mesmo que a gente não quisesse."

"Então a gente vai se falando. Com mais frequência, por favor."

"Acho melhor, também."

"Você tá se cuidando direito?"

"Eu tenho feito meu melhor..."

"Hmm, é pouco. Mas, como você ligou, dessa vez vou deixar passar."

"Muito obrigado."

"Toma uma cerveja aí pra mim."

"Todas são pra você."

"Vou olhar pro céu mais um pouco. Escolhe uma estrela aí, tenho certeza que você vai olhar pra mesma que eu."

"Eu também. Até depois, então."

"Até."


Tyler Bazz

4 comentários:

Mari disse...

do tipo de coisa que dá vontade de ter escrito igual. e de ter vivido igual, também.
e sobre surpresas, entrar aqui sempre me surpreende, e é sempre bom.

M. disse...

sempre bom mesmo :)

Jullia A. disse...

Leve, e de dar inveja.

Bonaldi disse...

Muita inveja.
Você escreve diálogos ótimos.