sábado, 3 de março de 2012

Onde tem fumaça.

“Você conhece a situação. O avião pousa, você espera ansioso enquanto ele manobra, desembarca e chega ao saguão já procurando uma tabacaria, cafeteria, banca de jornais ou qualquer coisa que te venda um maço. Eu estava nessa. Era um voo de três horas, e inventaram essa coisa de avião não ter mais área para fumantes, achando que vão diminuir o número de gente que fuma ou a quantidade de cigarros que alguém fuma. Sério, quem foi o gênio? Aquilo só faz com que você atrase o embarque, guardando a última tragada para o último minuto possível. E quando chega ao destino e acende o primeiro depois de duas, oito, onze horas, fica claro porque é que você gosta tanto daquilo.

“O problema é que já era tarde da noite e eu estava em um aeroporto quase deserto, de uma cidade relativamente pequena, que não era meu destino e não estava preparada para receber um avião cheio àquela hora. O mau tempo nos impediu de pousar, começamos e ficar sem combustível e fomos desviados para ali. No aeroporto, nada aberto, só uns guichês de companhias aéreas e de uma empresa de ônibus. Consegui achar um caixa eletrônico, mas só saía dinheiro dali. Eu não tinha nenhuma comida, nenhuma bebida, nenhum cigarro, e quando desconfiei que não ficaria ali por menos de três horas enquanto a empresa nos enrolava, decidi que era hora de sair pela cidade.

“Nevava razoavelmente. Andei uns dez minutos em linha reta, morrendo de medo de me perder por ali, tentando gravar na cabeça o nome de algumas ruas, amaldiçoando aquela língua que soava tão legal enquanto as pessoas conversavam no aeroporto, mas que, por questões de segurança, deveria ter mais vogais nas palavras. Achei um bar. Estudei-o rapidamente por fora e entrei já procurando atrás de portas e perto do banheiro alguma máquina vendendo cigarros, o que facilitaria muito, mas nada. Perguntei se o cara do balcão falava inglês, também nada, gesticulei, e é um gesto bem óbvio, esse, mas ele começou a gesticular de volta e eu não entendia – descobri depois que ele queria um documento provando minha maioridade – e, quando eu já começava a me desesperar, ela apareceu e se apresentou.

“Ela era tão linda que eu demorei pra acreditar que era comigo que ela estava falando. Era tão linda, na verdade, que faria até um cara como o Brad Pitt ficar com um pé atrás. Falava inglês com sotaque, que saindo daquela boca ficava sexy, os olhos azuis, vivíssimos me olhando. Expliquei para ela o que queria, ela me ajudou a comprar os cigarros, acendi dois e começamos a conversar. Cervejas, cervejas, todos os cigarros meus, os dela, e horas de conversa boa. Não vi o tempo passar, ela parecia não querer me deixar ir embora também. Beijos, beijos, fui para o apartamento dela. Eu ainda não acreditava. Aquele tipo de coisa não acontecia comigo, nunca, era impossível. Logo minhas dúvidas se desfizeram.

Estávamos deitados, abraçados, peguei no sono. Acordei horas atrasado, já devia ter voltado ao aeroporto, provavelmente tinha perdido seja lá qual fosse a solução encontrada pela companhia aérea. Levantei devagar, tentando não acordá-la, comecei a me vestir, entrei no banheiro e quando saí ela me apontava uma arma. Ela explicou que eu podia ir, mas a carteira ficava; eu argumentei, pedi, bastante assustado, que ela me deixasse levar os documentos, pelo menos. Ela sorria o tempo todo. Consegui negociar todo meu dinheiro, relógio e celular, fiquei com passaporte e, bem escondido na carteira, um cartão de crédito. Quando fui embora, ainda sob a mira da arma e levando nas costas uma série de ameaças caso eu fizesse alguma gracinha, arrisquei perguntar por que ela simplesmente, enquanto eu estava no banheiro, não limpou minha carteira. ‘Eu gosto de usar a arma,’ ela respondeu. Voltei tremendo de medo para o aeroporto, nem percebi o frio, e ainda tive um pouco de dor de cabeça para conseguir sair de lá.”

“Puta que pariu, cara!”

“E daquele dia em diante eu decidi, e já são três anos, parar de fumar.”

“Faz sentido! Agora vamos, que já estão chamando nosso voo para o embarque.”

“Ok, deixa eu só comprar cigarro primeiro.”

“Mas você disse que parou de fumar...”

“Parei. Não fumo mais. Mas também não entro em avião sem cigarro.”


Tyler Bazz

2 comentários:

Bonaldi disse...

NUNCA saia de casa sem cigarro, é o q eu penso...

Jade Amorim disse...

Nossa! Tudo isso por causa de um cigarro? Bom, concordo com o cara aí de cima, NUNCA saia de casa sem cigarro se essa for sua realidade!
Adorei o post e o blog!

Beijos.