terça-feira, 17 de janeiro de 2012

Um copo para dois.

Por mais de meia vida vinha analisando os relacionamentos das pessoas, primeiro por ser uma amiga dedicada, depois profissionalmente. Era boa no que fazia, podia ser considerada a quase responsável pela salvação de dezenas de casamentos, e por fazer com que muitos outros terminassem civilizadamente, hipótese muito pouco provável sem sua intervenção. Mas, embora conseguisse convencer até mesmo as amigas mais próximas quando explicava seus próprios fracassos com os nunca sinceros "simplesmente não deu certo" e "não era pra ser". Se recusava a aceitar o fato de não ter sucesso pessoal em seu maior êxito profissional.

E foi curiosamente em uma época em que se sentia muito bem sozinha, quase sem se preocupar em como resolver os próprios problemas, porque sentia que não os tinha, num começo de noite, esperando as amigas em um bar, que reparou sem querer em um casal que lhe abriu os olhos para o que se mostrou a ela como uma espécie de fórmula mágica para um relacionamento duradouro: eles dividiam um copo. Falavam de qualquer coisa, compartilhavam a mesa com outras pessoas, e bebiam seja lá o que estivessem bebendo no mesmo copo.

As amigas chegaram, ela se distraiu do casal do copo e teve uma ótima noite, mas não tirou da cabeça a ideia do copo compartilhado. Pensou bastante no assunto durante as semanas seguintes, criou argumentos mais formais, elaborou soluções para possíveis problemas e imprevistos e passou a inserir levemente o assunto em algumas sessões com pacientes e conversas de bar. Teve alguma rejeição, mas pareceu agradar na maioria dos casos, o que aumentou sua confiança para ampliar a aplicação da teoria, e seu sucesso entre os pacientes foi a prova de que precisava. Estava convencida, a Teoria do Copo para Dois era o que a transformaria de psicóloga em autora.

Passou a procurar em bares e restaurantes por casais bebendo de um mesmo copo, observando sempre discreta, notando detalhes. Criou metáforas, explicações e frases de efeito para tudo: o toque indireto dos lábios na borda do copo, os dedos que às vezes se cruzavam em volta do vidro, a troca não de fluidos, mas sim de sentimentos a cada gole.

"O Copo Dividido" foi publicado, virou sucesso, levou-a a programas de tv, noites de autógrafos, listas. No auge do sucesso, se casou. Conheceram-se ainda enquanto escrevia, durante uma de suas noites de pesquisa em um bar de jazz. Encantando-se, teve certeza de que era certo quando, em um dos primeiros encontros, no mesmo bar de jazz, ele ousadamente pediu apenas um copo, sem nem mesmo ter ouvido falar ainda em sua teoria. Na festa, serviu um copo para cada casal, o que foi considerado um gesto espirituoso por uns e uma grande mostra de cafonice por outros. O casamento acabou alguns anos depois, quando ela voltava de uma livraria e o viu sozinho na mesa de um bar, quando deveria estar em um happy hour com o pessoal do escritório. Entrou para dizer oi e viu dois copos na mesa. A surpresa no rosto dele e o batom em um dos copos não deixaram dúvidas. Nunca o perdoou.

Não culpou os copos, porém, e seguiu defendendo e divulgando sua teoria, com o livro fazendo sucesso por muito tempo e dando origem a outros projetos sobre o copo dividido. Em uma entrevista, certa vez, lhe perguntaram se conhecia o casal que chamou sua atenção para o simbolismo do copo em uma relação, ou se já os havia visto alguma outra vez. Não. Por muito tempo os procurou, durante a pesquisa para o livro e depois do lançamento, querendo agradecer ou simplesmente contar a eles a história. Mas não, nunca mais viu nenhum dos dois.

Eram namorados, na época, e o namoro não durou mais que três semanas depois daquela noite em que foram inspiração. Nunca nem repararam que às vezes pediam uma só bebida para os dois. Ela chegou a ganhar o livro de uma tia, num Natal em que ele estava em todas as listas de mais vendidos, mas jogou-o em uma estante qualquer sem ler, nunca leria. Achava a psicologia para casais e qualquer teoria sobre relacionamentos uma grande idiotice.


Tyler Bazz

2 comentários:

littlemarininha disse...

Psicologia para casais e livro de auto-ajuda. Bah. Também acho uma grande idiotice. Uma idiotice tão grande que não funcionou nem pra psicóloga. Ainda assim, a ideia do copo é interessante, talvez não como marca de relacionamentos duradouros, mas como marca de intimidade.
Adorei o texto, Ty! Te imagino criando a teoria toda numa mesa de bar, haha. :)

(e sim, cafonérrimo servir um copo só pra cada casal no casamento, haha)

Marcello disse...

Amigos que dividem garrafas/pints são esses aí. :D