quarta-feira, 4 de janeiro de 2012

São Marcos de Palestra Itália.

(num futuro não muito distante)

"Começa você no gol. Eu sou o Neymar!"

"Eu sou o Messi!"

"Então eu vou ser o Marcos!"

"Que Marcos?"

"Do Palmeiras. Ele não joga mais."

"Não conheço."

"Ele foi o melhor goleiro de todos. Meu vô que falou."

"Você já viu ele jogando?"

"Só no youtube. Mas se você quiser perguntar pro meu vô, ele conta."

***

"Vô! Ô vô!"

"Oi, filho. Dá um beijo aqui."

"Vô, conta pra eles do Marcos, do Palmeiras."

"Ah, o Marcos. O Marcos foi o maior goleiro que eu vi jogar. E olha que eu vi uns muito bons, viu. Não sei se ele foi o melhor, mas foi o maior, um dia vocês entendem a diferença. Ele agarrava demais, parecia uma muralha. E foi graças a ele que nós ganhamos nosso maior título."

"A Libertadores, né vô?"

"Isso mesmo. Ele já estava no time fazia um tempo, mas foi na Libertadores que ele saiu do banco de reservas e virou o eterno goleiro palestrino. Fechou o gol mesmo. Com ele nós erguemos o título mais importante das Américas e ele entrou para nossa história. Começamos a chamar o Marcos de São Marcos, de tantos milagres que ele fazia debaixo das traves."

"Mas ele não errava nunca?"

"É claro que errava. No final daquele ano mesmo, noventa e nove, como ganhamos a Libertadores, nós fomos disputar o Mundial contra um time da Inglaterra. O jogo foi apertado, nós perdemos de um a zero com uma falha do nosso goleirão."

"Nossa! Errou no Mundial! Vocês ficaram com raiva dele, né?"

"É claro que não. Ficamos tristes, frustrados, mas não com raiva. Nós estávamos lá por causa dele, seria injusto colocarmos a culpa nele pela derrota. Isso acontece, é coisa do jogo. É sempre importante vocês lembrarem disso sobre o futebol: é só um jogo. E o Marcos errava algumas vezes, mas sempre se redimia. Menos de um ano depois, nós encontramos de novo o Corinthians na Libertadores."

"De novo?"

"É. Em noventa e nove nós eliminamos eles nos pênaltis, depois de defesas fantásticas do nosso Santo nos dois jogos, e em dois mil pegamos eles nas semifinais. Foram dois jogaços, os dois times eram muito bons, cheios de craques, e acabou tudo nos pênaltis de novo. E dessa vez foi tudo ainda mais épico."

"Épico?"

"É, filho. Grandioso. Histórico. Ninguém errou nenhum chute. E o último era deles. O Marcelinho cobrou no cantinho, e o Marcos foi buscar. Voou até lá, a boca aberta, o braço esticado, defendeu. Depois foi só correr pro abraço. Eles estavam eliminados de novo, nós na final. Aquela noite, o mundo inteiro era nosso!"

"Mas o Palmeiras só ganhou uma Libertadores até hoje."

"Isso mesmo. Um dos momentos mais memoráveis da história, provavelmente o mais marcante do Marcos, não valeu título nem nada. Mas nem por isso é menos gigante. Nós perdemos a final naquele ano. Em 2001 fomos bem no torneio outra vez, mas também não ganhamos. Mas o Marcos continuava enorme, cada vez mais Santo."

"Ah. Que pena que ele não foi campeão do mundo, né."

"Tá torcendo pro Palmeiras, é?"

"Não! Mas queria que o Marcos ganhasse. Ele era bom mesmo."

"Você não é o único que se sente assim, calma. Mas o Marcos foi sim campeão do mundo. Não com o Palmeiras, mas com a seleção brasileira. E o Brasil inteiro pôde comemorar e se emocionar com as defesas dele lá do outro lado do mundo. Nosso camisa 12 era o 1 do Brasil, e a muralha verde foi verde e amarela. Não é só por isso, mas com certeza esse é um dos motivos pelos quais todo brasileiro que gosta de futebol gosta do Marcos."

"Daí ele foi jogar na Europa? No Real Madrid, no Manchester?"

"Não, não foi. Em 2002, depois de ganhar a Copa do Mundo, o Marcos foi rebaixado com o Palmeiras pra segunda divisão. Foi uma época difícil para o time, assim como os anos seguintes também seriam, e na dificuldade ele mostrou mais uma vez porque era O Santo. Os europeus vieram, ofereceram milhões em dinheiro, muita fama, e o Marcos recusou. Não quis jogar em um dos maiores times da Europa, quis jogar no Palmeiras, e só no Palmeiras. Mesmo na segunda divisão, mesmo ganhando menos. Se o futebol é paixão, o que o Marcos fez foi uma verdadeira prova de amor."

"Nossa!"

"Legal, né? Os anos foram passando e ele continuou uma muralha. Até que a idade começou a chegar, os cabelos foram caindo cada vez mais, os joelhos foram perdendo a força. O Palmeiras não ia tão bem, ficou anos sem ganhar títulos, até dois mil e oito, quando levou um Paulista depois de um discurso do São Marcos no vestiário que fez muito marmanjo chorar. E cada vez mais ele se machucava muito. Até que passava mais tempo em tratamento do que em campo. Precisou parar."

"Mas pelo menos ele é lembrado, né, vô?"

"É sim, filho. Faz poucos anos que ele parou, mas ele vai ser sempre lembrado, principalmente pelos palmeirenses. Foi nosso gigante, nossa muralha, nosso Santo nas nossas maiores glórias e nas nossas épocas mais difíceis. E nunca abandonou o Palmeiras. E nenhum palmeirense nunca vai esquecer isso."

*****

Uma pequena homenagem ao meu maior ídolo no esporte. Que me faz todo dia ter orgulho de ser palmeirense.


Obrigado, campeão!


Tyler Bazz

7 comentários:

Natalia Máximo disse...

Caralho, velho, tô chorando.

TYLER BAZZ ZERA A INTERNET ÀS 23H59 DO DIA 4 DE JANEIRO DE 2012

Sergrico disse...

Cara o que você escreveu é muito lindo, um verdadeiro Manifesto Verde, tomara que chegue até ao nosso Grande São Marcos, Valeu Tyler.

Teena in Toronto disse...

Happy blogoversary :)

littlemarininha disse...

Olha, mesmo defendendo aquele pênalti do Marcelinho, não conheço um Corinthiano que não goste do Marcos. É diferente do Ceni, por exemplo. Tenho ataques de riso quando alguém diz que o Ceni é um puta goleiro. Ridículo. Mas o Marcos é O Marcos. Eu xinguei muito quando ele tirou a gente da Libertadores, é claro. Inveja branca. Não do campeonato em si, mas do goleiro de vocês.
Do goleiro que tive a sorte de chamar de "goleiro do meu time", ainda que só na copa do mundo.
É uma pena que caras como esse sejam tão raros no futebol.

Guilherme Fabro disse...

Cara, emocionante serio ... puta texto sobre com toda certeza o MAIOR goleiro que eu vi jogar.

Luara Corrêa Soares disse...

Texto sensacional, muito bom!

Luara Corrêa Soares disse...

Sensacional o texto, muito bom!