domingo, 29 de janeiro de 2012

Paixões de livro e de bar.

– Ao noivo!

– Ao noivo! E que o casório seja pra sempre!

– E que o noivo não suma da mesa do bar!

– Não vou sumir, mas a frequência vai diminuir.

– Espero que sim.

– Saúde!

(Ah!)

– Ainda não acredito que eu achei uma mulher tão certa pra mim, sabia?

– Do jeito que você procurava, me surpreende não ter achado antes.

– É, eu rodei bastante, né?

– Mais que o pião da casa própria.

– Ha ha! Babaca. Mas e você, não vai sossegar com ninguém, não? Tudo bem que você roda menos que eu.

– Bem menos.

– Bem menos. Mas você tem procurado?

– Sei lá. Acho que não. Eu meio que já achei a minha, né, mas ela sumiu.

– Porra! Ainda com essa menina do livro?

– Sempre com a menina do livro.

– Que menina do livro?

– Porra! Ele nunca te contou a história? Ele adora contar essa história!

– Eu não adoro contar essa história.

– Me conta essa história.

– Não sei...

– Vai. Conta logo a história.

– Ok, eu conto a história. Foi aqui nesse bar mesmo, numa sexta.

– E você estava bêbado.?

– Há quanto tempo você me conhece?

– Hmm, quase um ano, acho.

– E nesse tempo todo, em quantas sextas-feiras eu não estive bêbado?

– É, você tem um problema.

– Sim. Tenho pouca tolerância a pessoas. Sorte que meu fígado tem muita tolerância a álcool.

– Conta logo a porra da história.

– Então. Eu estava aqui, bebendo, na minha, e comecei a ficar de saco cheio. Aí sentei por aí e peguei um livro que estava no bolso.

– Você trouxe um livro pro bar?

– Eu não trouxe um livro pro bar. É que eu tinha passado na livraria antes de vir pra cá.

– Não foi a primeira vez que você trouxe livro pro bar.

– Ele não precisa saber disso. Enfim, eu comecei a ler o liv-

– Cara! Não é possível que o bar estivesse tão chato. Você resolveu ler no bar?

– Eu tinha comprado o livro naquele dia, estava bem interessado, ansioso, curioso pra ler.

– Você tem sérios problemas.

– A gente pode passar horas falando dos meus problemas. Mas depois que eu terminar a história.

– Eu disse que ele adora contar a história...

– Você fica quieto, noivinho. Então. Eu estava lendo e aí sentou essa menina do meu lado. Super cheirosa. Dei uma olhada assim rápida e meudeus como ela era linda. Aí fiquei bebendo cerveja, fingindo que lia e tentando olhar o máximo possível pra ela sem que ela percebesse. Ou percebesse muito. Até que eu reparei que ela estava esticando o pescoço pra ler o livro. Enrolei uns minutos, tomando coragem, fingi que ia virar a página e disparei:

“Se você quiser eu espero você terminar.”

– PUTA XAVEQUINHO FUR-

– Cala a boca, você! Aí a gente começou a conversar, e putaquepariu foi a melhor conversa da minha vida. Se eu soubesse que não iria ter outra eu teria tirado o celular do bolso e começado a gravar, juro! A gente simplesmente começou a falar das coisas, de todas as coisas. De qualquer coisa. Eu não conseguia sair do fundo dos olhos dela, e tenho certeza que ela também já estava gostando de mim.

– Aí vocês se beijaram?

– Ah, claro. Porque ela está aqui do meu lado contando a história e teimando que não foi bem assim, e fomos felizes para sempre. Palhaço. Eu precisei ir no banheiro. Fui rápido, deixei a cerveja e o livro com ela na mesa e, quando voltei, ela disse que as amigas estavam indo embora e que ela precisava ir também, me deu um abraço que me derreteu, um beijo no rosto, e disse “a gente se fala.”

– Hum. E aí?

– Aí que eu não tinha como falar com ela! Não tinha um número de telefone, nem o nome dela eu sabia!

– Você não perguntou o nome dela?

– A gente nem lembrou que tinha nome na hora. Não precisava. E nenhum dos dois tinha planejado terminar a conversa naquela correria, eu acho.

– Então vocês nunca mais se viram?

– Nunca.

– Mas tem mais.

– Tem mais?!

– Tem mais. No dia seguinte eu acordei e fui ler o livro, mas não rolou. Umas quarenta páginas depois eu abandonei, joguei em uma estante e esqueci. Passei meses triste pra cacete, pensando nela o tempo todo, torcendo pra ela aparecer do meu lado e tomar da minha cerveja cada vez que eu entrava no bar. Até que, um ano e meio depois daquele dia, mais ou menos, eu resolvi ler o tal livro de novo, dessa vez com mais persistência. E então, uns dias depois, eu achei: exatamente no meio do livro ela tinha escrito o nome e o telefone dela, bem grandes, não daria pra ler mais as palavras.

– Daí você ligou pra ela.

– Um milhão de vezes. Acho que ela já tinha trocado de celular, porque estava sempre fora de serviço ou algo assim.

– E como ela ch-

– Nem pergunta.

– Não digo. Eu conto a história, mas o nome dela eu deixo só pra mim.

– Uhum. E você disse que ela é a mulher certa pra você. Mas e se vocês não se virem nunca mais? Você não acha que pode ter outra?

– Claro que pode, eu não fecho nenhuma porta. Não impeço ninguém de tentar, mas-

– Mas ele fica esperando a menina do livro.

– Eu não fico esperando a menina do livro. Eu só acho que um dia, sei lá, parecia tudo tão certo, que eu acho que um dia eu vou estar por aí, aqui no bar, com uma cerveja e talvez um livro, e que então ela vai me achar.

– Hm. Porra, cara...

– É...

– ...

– Ao noivo!


Tyler Bazz

8 comentários:

Marcello disse...

Impossível eu não me lembrar do episódio do "você tem last.fm?"

Bonaldi disse...

"– Sim. Tenho pouca tolerância a pessoas. Sorte que meu fígado tem muita tolerância a álcool."

Sem mais.

littlemarininha disse...

O nome dela deve ser feio pra cacete, por isso que ele não conta pra ninguém...

Andréa P. disse...

A noiva do amigo pode ser ela. Bom, eu pensei isso, porque eu sempre imagino essas coias, haha.
ótimo diálog.

Larissa Bohnenberger disse...

Porra, cara...

Lucas Reis disse...

"E então, uns dias depois, eu achei: exatamente no meio do livro ela tinha escrito o nome e o telefone dela, bem grandes, não daria pra ler mais as palavras."

Arrepiei até o último fio de cabelo. Um puta de um texto.

Alessandra Teixeira disse...

que demais!

anareis disse...

Querida(o) amiga(o). Estou fazendo uma Campanha de doações pra ajudar os jovens rapazes que estão internados no Centro de Recuperação de Dependentes Químicos onde meu filho está interno também.Lá tem jovens que chegam só com a roupa do corpo,abandonados pela família. Eles precisam de tudo:roupas masculinas,calçados,sabonetes,toalhas,pasta de dentes,escovas de dentes,de um freezer, Roupas de cama,alimentos. O centro de recuperação sobrevive de doações,são mais de 300 homens internos.Eles merecem uma chance. Quem puder me ajudar pode doar qualquer quantia no Banco do Brasil agência 1257-2 Conta 32882-0