terça-feira, 15 de novembro de 2011

Dia de folga.

Acordou normalmente, com o dia ainda por amanhecer. A cidade em silêncio, preguiçosa, se despedindo lentamente dos lençóis e travesseiros, lutando e relutando por mais cinco minutinhos. Ligou a cafeteira, tomou o banho rápido de sempre, comeu duas torradas enquanto lia o editorial de uma revista do fim de semana sobre a população mundial estar próxima dos sete bilhões de pessoas. Lembrou disso quando chegou à rua e começou a notar a diferença: seu bairro era pouco movimentado naquele horário, mas havia sempre alguém pelas ruas, indo para o trabalho ou comprar pão. Naquele dia, ninguém.

A suspeita virou certeza quando desceu as escadas do metrô e encontrou totalmente vazia uma estação que àquela hora já costumava estar em ritmo acelerado. Ninguém nos guichês vendendo bilhetes, ninguém atendendo na pequena cafeteria, nem esperando nas plataformas, nenhum funcionário da limpeza ou da segurança. Embarcou no primeiro trem, que chegou sem nenhum passageiro, sentou-se e pensou em voz alta, porque podia: "todo mundo sumiu".

Ligou para o trabalho, mais curiosa que preocupada, e ninguém atendeu. Na estação central, em vez de mudar de trem, mudou de planos, e saiu. O centro da cidade estava mudo, parado, era possível ouvir o vento batendo contra estruturas de ferro e placas de trânsito. Só quando viu no que havia se transformado aquele lugar normalmente tão turbulento foi que teve certeza de que não se tratava de uma pegadinha. Passou a formular teorias enquanto caminhava. Havia cafeterias, padarias, postos de combustível e outros estabelecimentos abertos, mas vazios, todos funcionavam durante as 24 horas do dia, ou abriam muito cedo, antes dos outros. O sumiço devia ter ocorrido algumas horas antes do horário comercial, pensou, e riu sozinha quando se pegou pensando na situação toda como "o sumiço".

Riu mais ainda e olhou em volta, um pouco envergonhada, quando percebeu que estava parada na esquina esperando o semáforo abrir, para atravessar. Entrou em um grande supermercado, reparando em coisas que normalmente não notava, mas os corredores largos e vazios começaram a ficar um pouco assustadores quando se lembrou de alguns filmes. Pegou algo para comer e uma barra de chocolate, parou no caixa, somou o valor total e deixou o dinheiro junto com um bilhete explicando a situação, caso o sumiço durasse apenas um ou dois dias. Foi então a um café, se serviu de dois copos grandes, escolheu outro chocolate e deixou também o dinheiro da compra, incluindo a gorjeta - não achava que as atendentes dali, sempre tão simpáticas, tivessem culpa por todo mundo ter desaparecido.

Caminhou então até o parque, o maior da cidade, do qual sempre havia gostado porque, mesmo cheio, nunca deixava de ser tranquilo. Descobriu que também era muito agradável sem mais ninguém. Podia ouvir cada folha seca cair, podia observar o reflexo do céu nublado no lago sem ver o reflexo de outros rostos, podia sentar em seu banco favorito. Tirou um livro da bolsa, deixou-a solta ali, sem se preocupar. Abriu o livro e não pôde - nem tentou - conter o sorriso quando leu, no marcador de páginas, "O que você vai fazer?", escrito em inglês e com um design bonito. E pensou, em silêncio, que não faria nada. Gostava do mundo assim.


Tyler Bazz

3 comentários:

Lucas Reis disse...

Por mais que eu sinta necessidade de estar rodeado por muitas pessoas, eu queria que houvesse uns "sumiços" de vez em quando.

Eu acho que todo mundo já teve um sonho assim: pegar o que quiser no supermercado, ter um tempo pra andar devagarinho... Que delícia!

(y)

Adorei.

Natalia Máximo disse...

1 sonho: ser essa pessoa de sorte, nem que fosse só por um dia.

littlemarininha disse...

Putz, que delícia deve ser ter o mundo todo pra si e não fazer nada! Você vai me matar, eu acho, mas me lembrou "O dia em que a terra parou" do Raul, huahua.