sábado, 1 de outubro de 2011

Outra conversa de bar.

"E você gosta mesmo daqui?"

"Eu adoro. Você não?"

"É meio deprimente, acho, eu mal consigo enxergar."

"Hm. Uma vez eu li um texto, acho que do Hemingway, falando de bares. Que tudo que um homem precisa, na verdade, é de um lugar limpo e bem iluminado. Mais seu tipo, né?"

"Acho que sim. Bom, ter que ser limpo, com certeza."

"Claro, é bom ser limpo. Mas na medida. É importante poder apoiar o braço no balcão e ele não grudar, mas limpeza demais também atrapalha. É um bar ou um hospital? Aqui, por exemplo, eu adoro esse chão cheio de cascas de amendoim e bitucas de cigarro. Fica essa constante torcida pela não inflamabilidade do amendoim, o bom senso coletivo de saber o que pode ser jogado no chão e o que você precisa levantar e levar até o lixo."

"Então é uma questão - oi? sim, mais uma. É uma questão social, então?"

"Claro! É a mesma coisa com a luz. Tem que ter pouca, tem que ser escuro. Não é um escritório, onde as pessoas esperam que você seja transparente, limpo. Aqui, aqui você escolhe o que quer parecer. Se você quiser ser o tipo de pessoa que ilumina o ambiente ao seu redor, fique à vontade. Se quiser passar despercebido, não precisa de muito esforço."

"E o que você faz?"

"Eu sento aqui no balcão com a cara desanimada, sempre, sempre com uma cerveja, e penso."

"Pensa? Em quê?"

"Qualquer coisa. Às vezes sobre meu dia, às vezes sobre o que eu quero ou preciso escrever - às vezes eu escrevo também -, às vezes eu só penso se as outras pessoas do bar estão se perguntando no que eu estou pensando."

"Que sincero. E funciona?"

"Não sei. Funciona?"

"Acho que sim. Eu reparei em você porque você parecia pensativo demais, mesmo no meio de tanta gente."

"É. Então, acho que sim. Ei, mais uma aqui, valeu."

"Eu estou numa mesa ali com um pessoal, quer sentar com a gente?"

"Posso sentar lá e falar praticamente o tempo todo só com você?"

"Hmm, pode, vai."

"Ok."


Tyler Bazz

6 comentários:

Lari Reis disse...

Adoro esse tipo de texto porque favorece muito minha habilidade de imaginar cenas.

Tenho esse costume de observar e 'filosofar' sobre lugares, aspectos, pessoas, situações... Me encaixei bem.

M. disse...

:)

Lucas Reis disse...

Que delícia de conversa.

littlemarininha disse...

Nada como um bar e gente interessante, né, Ty? =)
Adorei o texto, conversa gostosa que só

Rob Gordon disse...

"às vezes eu só penso se as outras pessoas do bar estão se perguntando no que eu estou pensando."

Você não tem medo um dia de que suas boas ideias se esgotem? Porque, porra, tô pra ver gente ter sacadas tão fudidas assim e colocar no texto com essa naturalidade.

Abraços!

Camila disse...

Eu também iria querer conversar só com ele.