sábado, 20 de agosto de 2011

De Châtelet a Sully Morland

Ela não fazia ideia, naquele momento. Precisou de anos para descobrir a influência que aquela pequena viagem de metrô teria no resto de sua vida. O que ela soube, na hora, foi que quando seus olhos cruzaram com os daquele cara, ele e ela se entenderam. Entre os milhões de parisienses, nunca nenhum a havia feito andar sutilmente até o lugar de outra porta para que pegassem o mesmo vagão. Só ele.

Por anos após aquele encontro ela culpou e evitou usar na presença de outras pessoas o telefone celular, que dividia as atenções dela com ele nos poucos minutos em que existiram só os dois no vagão lotado. Ele, acho, não tomava a atitude que lhe cabia, mas não foi um completo inerte. Nem que quisesse poderia não reparar naqueles olhos castanhos enormes, no cabelo cuidadosamente desarrumado, no sorriso que, para fugir do doce lugar comum, diria, se pudesse, que deveria ter um gosto muito bom. Sem tirar os olhos dela, gostou de sua voz e da forma como falava francês, e os dois se aproveitaram das oscilações de velocidade do trem para que suas mãos se tocassem. Eu sei que parece mentira, mas era Paris! E essas coisas acontecem em Paris.

E só anos depois dos sorrisos, olhares e do pequeno toque que ela conseguiu tomar atitudes parecidas outra vez. Porque, quando ela resolveu descer do trem muito antes do que deveria, sabendo que estariam em um bairro bonito, ele não a seguiu. Ela o olhou, sorriu, acenou, e ele apenas sorriu. As portas se fecharam e algo dela foi embora naquela viagem; talvez a recém-adquirida confiança, a ideia de que era bonita, a coragem de deixar as escolhas de outra pessoa fazerem parte de sua vida. Enquanto ele, sem saber como falar uma mísera palavra em francês, tentava explicar tudo com um sorriso, sem nem saber o que fazer com as mãos, preocupado em parecer um louco se a seguisse para fora do trem, preocupado em não ter onde dormir se não encontrasse logo um hotel. Porque esse tipo de coisa acontece em todo lugar – até em Paris.

E ela nunca mais foi a mesma. E ele nunca mais a esqueceu. E seus olhos nunca mais se encontraram.


Tyler Bazz

3 comentários:

Kika® disse...

A falta de coragem também já me puniu desse jeito...
Lindo texto, Mr. Tyler.

littlemarininha disse...

Caraca, Ty! Genial!! Genial!! Desculpa, mas fiquei sem palavras pra comentar o.O

Larissa Bohnenberger disse...

Lindo e triste!

Bjs!