terça-feira, 21 de junho de 2011

Fé.

Era cético. Não acreditava em nada e se orgulhava disso, declarava sem medo, discutia, defendia. Era um cético forte, daqueles que acreditam só nas pessoas e no que elas mesmas podem fazer. E era esse seu defeito, sua fraqueza: acreditava nas pessoas. Acreditava em coisas ditas olhos nos olhos, acreditava em juramentos. Talvez não fosse cético, talvez fosse burro. Mas acreditava nisso e em mais nada, até perder.

Perdeu e perdeu o rumo, a vontade, a referência. Passou meses trancado em si, chorando sem lágrimas, falando sozinho com todo mundo, explicando teorias que inventava e refutando-as em minutos. E de tanto ver tanta gente encontrando tanta solução em tanta crença, resolveu acreditar. Ou tentar. Precisou, primeiro, se convencer a tentar, depois, a acreditar, e então a agir.

Não sabia direito nem por onde começar. Numa noite escura -e amarga- como café, quando voltava para a casa depois de horas tentando fingir, olhou para o céu, procurou a estrela mais brilhante, que ainda assim não parecia ter muita força, e pediu. Pediu que tivesse de volta o que havia perdido, primeiro à estrela maior, depois às outras em volta dela, e a todo o céu. Chegou em casa e mais uma vez pediu, antes de dormir, olhando o céu. No outro dia leu horóscopos, traçou mapas, consultou quem soubesse, tudo indicava o que ele já sabia: as coisas estavam erradas. E continuou pedindo aos astros, que talvez tivessem mesmo algum poder, já que estavam lá em cima, brilhando e caminhando por si no vazio. E o tempo foi passando, e ele pedindo, e nada sendo atendido, e a paciência acabando.

E quando já havia quase desistido de acreditar, quando já passava até a questionar a beleza das estrelas, viu algo brilhando mais forte quando olhou para cima. Era a cruz de uma igreja, e foi até lá. Estava fechada, pelo horário, e voltou para a casa e passou a noite acordado pensando se valia a pena tentar e, com olheiras do tamanho de seu desespero, foi até a igreja pela manhã e entrou. Ainda se lembrava de como rezar, ajoelhou-se, juntou as mãos e desistiu das orações decoradas, só pediu. Conversou, explicou, pediu, e acima de tudo pediu para que ele mesmo acreditasse que estava pedindo à pessoa certa, àquela que é boa e que quer que as pessoas sejam felizes. E nos dias seguintes, continuou rezando, às vezes na igreja, às vezes em casa, às vezes quieto no ônibus. Rezou para Deus, e para o santo dos desesperados, e torceu para que existisse uma Nossa Senhora Protetora dos Sorrisos de Amor, porque rezou para ela também, e fez promessas de que, se voltasse a ter o que tinha perdido, lançaria oferendas ao mar, e subiria escadas de joelhos, e ajudaria paróquias, e andaria o Caminho de Santiago. Prometeu, e rezou, e viu sua paciência acabando.

E desistiu de acreditar. Não logo de cara, tentou ainda uma ou outra coisinha, que juntas não encheriam um parágrafo. Mas, depois de um tempo, desistiu. E voltou a ser cético, a não acreditar em nada, só nas pessoas e em coisas ditas olhos nos olhos e na força de cada um fazer o que quiser. Parou de pedir para voltar a ter o que havia perdido, e racionalmente não acreditava que um dia voltasse a ter, mas acreditava. Sem querer, sem poder fazer nada quanto a isso, acreditava. Porque as pessoas que não acreditam em quase nada, quando acreditam, acreditam muito.


Tyler Bazz

6 comentários:

Lucas Reis disse...

"Porque as pessoas que não acreditam em quase nada, quando acreditam, acreditam muito."

Tyler, adorei o seu texto. No início ali, eu quase tive certeza que você tava me vigiando nos últimos dias. É exatamente o que eu estava passando[nem sei quantos comentários vc já recebeu assim, mas... eu tô falando sério].

Eu não sei se você se inspirou em alguém conhecido, mas se não, você conseguiu descrever esse sentimento como ninguém.

Admiro quem saiba descrever sentimentos.

Abraço.

Angela Cruz disse...

Que coisa linda. Textos como esses me fazem ter vontade de acreditar mais nas pessoas, e que elas efetivamente têm vontades que podem valer a pena.

Jullia A. disse...

F'e nas pessoas, na vida, nas estrelas. Esse 'e o caminho

Rogério disse...

Hoje diz-se que não se precisa de um padrinho para ser um músico, poeta ou pintor de sucesso. Diz-se que a internet veio para democratizar o que é bom. Dá chance a todos.

O problema é que os jurados gostam de funk!

Jovem, tu é o melhor escritor da contemporaneidade. Ainda não te descobriram. Você descreve com simplicidade a vida de todos que tentam ir além. E eu, até então, não sei como te ajudar...

Grande abraço.

Dragus disse...

Uns fé de mais, outros fé de menos.

Outros disfaçam com perfume.

E assim segue.

Eu não sou exemplo de fé. Ótimo conto.

littlemarininha disse...

No fim das contas, se você não tiver fé em você mesmo não adianta buscar fé no céu, na igreja, no horóscopo do jornal.
É muito bom acreditar que dá pra contar com forças externas e superiores para ajudar a resolver os problemas. Mas, veja bem, ajudar. Ficar esperando milagres do céu nunca levou ninguém a nada.

Ótimo texto, Ty! =)