quarta-feira, 18 de maio de 2011

Nada.

"Você não faz nada comigo."

"Como assim?"

"Isso mesmo. Você não faz nada comigo."

"Não é bem assim..."

"Claro que é. Você sempre tem um trabalho pra fazer, um lugar pra ir, alguém pra encontrar, e nunca mais fez nada comigo." Ela dizia isso com uma intensidade na voz e no olhar que indicavam um drama exagerado, mas não era. Estava intensa. Não conseguia mais lidar com aquela falta, aquela saudade. Ele percebeu, só porque voltou a olhá-la como há tempos não fazia, não porque não queria, mas porque havia perdido o costume.

Abraçou-a forte, beijou sua testa.

Nas duas horas seguintes ficaram ali, deitados na cama dela. Trocando olhares, dividindo o mesmo ar, misturando cheiros, entrelaçando pernas, trocando carinhos leves, esquentando os pés um do outro. Ela adormeceu, ele se perdeu no teto do quarto, segurando as lágrimas para não acordá-la. Acariciou seus cabelos, beijou-a mais uma vez e quase sem voz pediu desculpas, prometendo que nunca mais se perderia daquele jeito.

Percebeu que podia trabalhar até ficar milionário, ir a qualquer lugar do mundo ou conhecer todas as pessoas. Mas que nada daquilo era tão bom, nada lhe satisfazia tanto quanto não fazer nada com ela.


Tyler Bazz

6 comentários:

Bonaldi disse...

lindo e sincero.

Rob Gordon disse...

Foda quando a gente vive um momento em que sabe que chegou ao "tudo" da vida.

Peterson Quadros disse...

O nada “nadifica”.... Será que isso era tão bom para ele? Fiquei pensando sobre o texto e na relação sobre o sofrer do outro em mim. O problema é que também ele se machucava com isso, ao mesmo tempo em que aquilo tudo lhe causava prazer. (?) obrigado e abraços

saraborges99 disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Marina disse...

Feliz aquele que tem alguém com quem fazer nada.

Sil disse...

Lindo texto Tyler.

Eu amo fazer nada com o meu marido. São os melhores momentos que passamos juntos.