terça-feira, 31 de maio de 2011

Café da Tarde

“Olá, boa tarde. Posso falar com o senhor por um minuto?”

O sr. Antenor precisou de uns segundos para decidir se atenderia. Chinelos nos pés, bermuda cáqui e a camisa polo que havia ganhado da nora no último natal, passou finalmente pelo batente da porta, avançando em direção ao portão.

“Pois não.”

“Boa tarde, senhor...”

“Antenor.”

“Boa tarde, seu Antenor, meu nome é André, eu venho do Cemitério da Paz para oferecer ao senhor a oportunidade de comprar um belíssimo jazigo para que o senhor e sua família possam descansar em paz quando chegar a hora escolhida por Deus.”

“Hum, vendedor”, seu Antenor pigarreou. Havia parado de fumar a cinco anos, mas ainda sentia o gosto do cigarro. “Entre, e na próxima casa não diga que você veio do cemitério. Vai acabar perdendo clientes.”

André entrou na sala atrás do dono da casa. Não se lembrava de ter visto uma casa tão tipicamente de avô: a poltrona de couro marrom, o abajur fora de moda na mesinha, fotos e mais fotos de filhos, netos e um bisneto. A sala cheirava a fumo.

“Pode sentar aí mesmo”, disse seu Antenor, apontando um sofá de dois lugares ao mesmo tempo em que se instalava na poltrona. “Cemitério, então? Foi o Pereira lá do bar que te mandou aqui?”

“Pereira? Não. Olhe, seu Antenor, eu sei que este é um assunto um pouco desagradável de se falar, mas há algumas decisões que precisam ser tomadas pensando no futuro, no bem estar do-“

“Sim, sim, eu sei, comprar um jazigo. O que você tem aí?”

“Bom, o Cemitério da Paz fica na zona oeste, a mais valorizada da cidade, e conta com uma ampla área verde, estacionamento coberto, além de ótima localização. Temos três salas de velório para evitar problemas de agendamento, e um crematório, caso esta seja sua preferência.”

“André?”

“Oi?”

“Pare de tentar me enterrar. Só me mostre onde eu vou ser enterrado.”

“Certo. O senhor é casado?”

Há seis anos já não era.

“Viúvo.”

“Ah, sinto muito.”

“Sente mesmo? Ou vai querer me vender um jazigo duplo?”

“Bem, é, quer dizer...”

“Jazigos duplos, André, você tem?”

“Sim, senhor. Jazigos duplos e familiares.”

“André?!”

“Desculpe, senhor. Os jazigos duplos podem ser simples ou com capela. Nos jazigos duplos simples, o sepultamento é feito lado a lado. Nas capelas, as urnas ficam uma sobre a outra, em uma estrutura de alvenaria colocada atrás de um pequeno altar.”

“Hum.”

“As opções-“

“Calma, André. Estou pensando. Eu queria um jazigo duplo de capela, mas com os caixões um ao lado do outro.”

“Infelizmente isso não é possível, senhor Antenor.”

“Mas era um grande desejo de minha falecida esposa: que fôssemos enterrados lado a lado, da forma como passamos por todos os momentos difíceis de nossa vida.”

“Infelizmente, senhor...”

“Você não pode nem tentar falar com algum superior seu? É um cemitério, vocês não vão precisar derrubar nenhum prédio para construir uma capela um pouco maior, vão?”

“Não, senhor, mas-“

“Tente, por favor.”

André pediu licença e fez a ligação de seu celular, indo até a garagem. Enquanto isso, seu Antenor aproveitou para ir à cozinha preparar um café. Pensou que seria uma boa ideia ter um jazigo com capela, muito bonito, onde a família poderia ir visitá-lo. Não podia pagar por um, é verdade, a aposentadoria mal dava para comprar os remédios e a partida de sinuca no bar. Ah, a sinuca. Deixaria de comprar os remédios, se precisasse, mas a sinuquinha... uma partida por dia, não mais, para não virar vício. Gostava. Era uma boa distração. Voltou à sala.

“Cafezinho?”

“Ah, sim, claro, muito obrigado.”

“E então?”

“Falei com minha supervisora. Expliquei a situação, disse que era um antigo desejo de sua falecida esposa, insisti, dramatizei um pouco mais e finalmente consegui. Podemos abrir uma exceção para o senhor e construir uma capela onde as urnas possam ficar uma ao lado da outra!”

“Ótimo! E o que mais?”

“Perdão?”

“Eu não quero comprar um jazigo que fique no fundo do cemitério. Do jeito que essa meninada de hoje é preguiçosa, é capaz de nenhum neto meu me visitar se tiver que andar um pouco.”

“Entendo, senhor Antenor, mas já temos um problema com o tamanho do jazigo, teremos que encontrar um lugar adequado para sua construção, que será um pouco maior que as regulares.”

“Não, não, isso é tudo desculpa esfarrapada”, retrucou, colocando a terceira colher de açúcar no copo. “Tem que ser no centro do cemitério, ou perto da entrada, senão não tem negócio.”

“Mas, senhor-“

“Perto da entrada!”

“Não posso dar garantias quanto à localização do jazigo, mas posso ligar para minha supervisora e ver o que podemos fazer, certo?”

“Muito bem.”

Dessa vez André não pediu licença e foi um pouco mais longe da porta de entrada para fazer a ligação. Quando voltou, encontrou um prato sobre a mesinha com algumas fatias de pão com manteiga, esquentados na frigideira. O cheiro era maravilhoso.

“Não precisava, senhor.”

“Imagina, coma um pãozinho. Falou com sua chefe?”

“Sim. Ela relutou um pouco, eu insisti, mas ela realmente não podia garantir o local do jazigo.”

“Então-“

“Mas, senhor Antenor”, André interrompeu, triunfante, “ela está agora mesmo falando com o diretor do cemitério, explicando o quão importante é para o senhor que o jazigo fique na área central do cemitério.”

“Ou perto da entrada.”

“Ou perto da entrada, e logo que tiver uma resposta vai me ligar para fecharmos o negócio.”

“Ótimo!”

“Sim.”

André olhou mais uma vez para o celular quieto, aguardou mais alguns segundos, resolveu puxar papo.

“Então, o senhor vive aqui há muito tempo?”

“Na verdade, não. Faz menos de três anos. Meus filhos venderam a casa em que eu morava com a minha esposa e me compraram essa aqui, que é menor, mas está mais nova.”

“É mesmo? Pois ela combina tanto com o senhor. Esses móveis...”

“Ah, os móveis? Já estavam aqui.”

“Como?”

“Sim. Comprei mobiliada. A casa foi posta à venda logo que a antiga dona morreu. Meus filhos gostaram da mobília e propuseram aos filhos dela que deixassem os móveis. Eles retiraram o que quiseram, e eu fiquei com o que sobrou.”

André não ficou tão impressionado. Em apenas três meses vendendo jazigos do Cemitério da Paz, já havia aprendido que as casas de pessoas idosas costumam ser muito parecidas, e que, ao contrário do que muita gente pensa, eles não davam muito valor aos móveis e objetos. Seu celular tocou. Ele pediu licença, atendeu, conversou com a supervisora ali mesmo, no sofá, sentindo o cheiro do café. Desligou.

“Conseguimos, senhor Antenor! A capela do senhor ficará a poucos metros da entrada principal do cemitério.”

“Ah! Que maravilha, André! Não disse que valia a pena tentar?”

“Haha! Sim! Valeu a pena. Bom, eu vou para o escritório preparar o contrato, amanhã mesmo volto aqui para cuidarmos da documentação, certo?”

Quando se levantou, André viu seu Antenor escrevendo algo em um papelzinho. Levou os copos vazios para a cozinha, vestiu um boné, e entregou o papel ao vendedor.

“Agora que já escolhi o jazigo, pode ligar para o meu mais velho. É ele quem vai fazer a compra, se tiver dinheiro.”

“Mas, o senhor não vai-“

“Vamos, André”, seu Antenor saía apressado. “É hora da minha sinuquinha, não posso me atrasar. Mas foi muito bom tomar café com você, viu.”

André não admitiria, mas tinha mesmo sido bom. Mesmo com aquele café horrível.


Tyler Bazz

3 comentários:

littlemarininha disse...

Chegar aqui e falar "Gostei muito" não teria a menor graça, soaria falso, pareceria que nem li o texto e que só quero agradar. Além do que seria pouco demais pra esse texto. Senti muitas coisas enquanto lia.
Saudade da casa da minha vó - com os móveis antigos e aquela cara de casa de vó; dó do André (ninguém merece esse emprego, cara!). Senti simpatia pelo seu Antenor, pelo humor com que negociou um canto bem localizado no Cemitério da Paz, e senti vontade de sentar a mesa com ele e bater um papo (sem café, sem jazigos...talvez com o pão com manteiga). Agora, principalmente, adorei a sacada dele para arrumar uma companhia. Imagino que seja um cara com histórias demais para ficar sozinho.
Genial, Bazz. Genial.

Peterson Quadros disse...

O pigarro de um ser que há cinco anos parou de fumar e o cheiro impregnado na casa soou profundo. Para mim, a sinuquinha foi o ponto alto da história, todavia a atmosfera que rondava o seu Antenor ficou fantástica, talvez pelo fato de lembrar meu avô. O final ficou simples, porém de intensa realidade. Ter vendido o jazigo aquelas alturas já não era tão importante para André. Realmente muito bom. Obrigado

Rogério disse...

Foda!