segunda-feira, 7 de fevereiro de 2011

Uma história de guerra

Caído no chão, com os olhos vidrados no céu, sorria. A bala alojada no ombro direito causava um sangramento enorme e uma dor que ele nunca havia imaginado que pudesse existir, mas ainda assim, para espanto - não, era inveja dos que compreendiam, e curiosidade do que não - sorria. Sabia que aquela bala, além de não matá-lo, o levaria para a casa. E na guerra não se sorri ao matar um inimigo ou vencer uma batalha, somente ao voltar para a casa.

Ergueu a mão esquerda, concentrando-se na cor de seu sangue, comparando-a à cor do vinho que tomaria com a esposa após terem colocado a filha para dormir. Faria amor com ela, beijaria cada centímetro de sua pele macia, tocada apenas por ele e pela placa metálica de identificação, que ele coloraria no pescoço dela ainda com a mancha de sangue, para lembrá-la que ele lutou só por ela. Já havia decidido: quando voltasse para a casa, aproveitaria as coisas simples, aquelas nas quais só reparamos quando perdemos. Jantares tranquilos em família; noites ao lado da esposa do sofá, assistindo filmes românticos e trocando carinhos; trocas de olhares apaixonados, silenciosos.

O silêncio. Nunca dera tanto valor ao silêncio. Agora que o som da batalha diminuía, sendo substituído pelo barulho da vitória recente, sorria e pensava no quanto o silêncio lhe fazia falta. A possibilidade de ouvir os próprios pensamentos, uma brisa no fim da tarde, a possibilidade de não ouvir nada. Porque na guerra não há silêncio; mesmo quando não há barulho, ouve-se a tensão, ouve-se o coração sempre tenso, a respiração sempre ansiosa.

E foi enquanto sorria olhando o céu, pensando nos sonhos da filha pequena, no vinho bebido com calma, no silêncio em que amaria a esposa, que, a poucos metros de seu corpo, uma bomba inimiga explodiu. Nenhum homem daquele batalhão voltou para a casa.


Tyler Bazz

13 comentários:

Pedro Lucas Rocha Cabral de Vasconcellos disse...

O final foi meio previsível, mas vá lá.

Prefiro as histórias reais do treinamento militar do Bruno =D

MaxReinert disse...

E não sempre nesses momentos (os últimos) que aprendemos a perceber o que estava tão óbvio antes?
Triste fim!

Professora Livia disse...

Gosto da melancolia com que preenche seus textos...

Ana disse...

q inveja dele

Marina disse...

Achei que seria difícil ele voltar para casa num texto seu. Mas ele foi feliz por alguns momentos. Os últimos.

Bel Lucyk disse...

Tô arrasada com esse texto. Hunf.
=)

Lari Reis disse...

Bom, o final acabou com todo drama. Acho que ninguem que volta de guerra consegue de fato curtir o silêncio porque o barulho do passado vivido nos campos de batalha nunca dá trégua...

Sil disse...

Lindo texto.
Muito triste mas muito lindo, parabéns.
Beijo

Larissa Bohnenberger disse...

Sabia que viria um final ou infeliz e melancólico ou debochado.
Gostei assim!

Bjs!

Leticia disse...

Detalhes que não nos contam nos livros de História.

Leticia disse...

Detalhes que não nos contam nos livros de História.

Bonaldi disse...

Gosto quando você descreve estes pequenos momentos.

Camila disse...

Que trágico.