domingo, 9 de janeiro de 2011

Porque não posso ser crítico de restaurantes.

Chegamos, uma amiga e eu, ao restaurante Casa Suiza, no centro de Madrid, e não havia nenhuma mesa disponível. Nada anormal, sendo o pico do horário de almoço em um belo domingo. Entramos e fomos ao balcão, que abrigava sobremesas e bebidas, e a tentativa de beber um refrigerante durante a espera se tornou uma batalha quase épica. Após muito tentar e quase termos que pegar nós mesmos as garrafas, conseguimos. Vimos um ou dois casais serem acomodados antes de nós, desrespeitando a ordem de chegada, mas decidimos que seria melhor não reclamar; logo chegou nossa vez.

Nos encaminharam a uma mesa no apertado salão - nem melhor nem pior que as outras do local - e anotaram nossos pedidos após uma demora maior que a esperada. Responderam sem delicadeza a nossas perguntas e, quando pedimos que nos servissem, antes dos pratos, algum pão para comermos com azeite, quase nos sentenciaram ao enforcamento. “Nós não servimos pão”, informaram, com aquela simpatia que parecia emanar das paredes do local. Ficamos surpresos, afinal era praticamente mais comum servirem pão junto com as refeições nos restaurantes da cidade do que oferecerem talheres. Tentamos entender, indagamos, pedimos vinho.

Junto com a bebida veio o pão, enquanto nos explicavam que abriam uma exceção e que aquilo não fazia parte do funcionamento normal da casa. Agradecemos e fomos ignorados. Esperamos os pratos. A tal mulher que batiza o lugar começa a gritar entre as mesas quando ainda lhe faltam vinte metros para chegar ao balcão: "¡Dos Cola-Colas!", e quase atropela um cliente. A garçonete, sua filha mais velha, como descobrimos mais tarde, finge que não ouve, o mesmo que faz quando qualquer cliente a chama. "¡Dos Coca-Colas!", grita outra vez a suíça, a menos de cinco metros do balcão, e recebe do velho que cuida das bebidas – seu sogro – um olhar que diz "eu sei que é meu trabalho, mas não vou pegar nada para você.", o mesmo olhar recebido por qualquer cliente que ouse fazer um pedido. "¡Joder, dos Coca-Colas!", berra mais uma vez a louca dona do restaurante, enquanto ela mesma pega as duas garrafinhas de vidro. O bom e velho clima dos restaurantes familiares.

A comida chega, não é de emocionar, mas passa muito longe de ser ruim. É um bom almoço. O vinho não agrada muito. Quando acabamos, tudo o que queremos é pagar e ir embora logo. Pedimos a conta, pego a nota, vou até o caixa pagar com cartão. Nova demora.

Depois de tudo isso você analisa o serviço, a comida, o ambiente e o preço que está pagando e decide que não vale a pena voltar lá. Há outras opções na cidade. Muitas. E então vê sentada no balcão – você só se dá conta depois, comentando com sua amiga, que ela é filha da dona do lugar, mas na hora não percebe – uma menina com seus onze anos e um sorriso sincero de criança, que pergunta, de um jeito tão doce: "¿Te has gustado la comida?"

Então você volta.


Tyler Bazz

7 comentários:

Marcello disse...

Qualquer semelhança com a Molecaggio ontem é mera coincidência. (mesmo)

Charlie Dalton disse...

Me surpreendi com o final. Foi encantador! Acho que faria a mesma coisa.

"¡Me encanta su finale!" #arranhandomeuespanhol

Natalia Máximo disse...

Depois de ler os dois primeiros parágrafos, estava certa que você não poderia ser um crítico de restaurantes porque teria levantado da mesa, socado todos os funcionários, cuspido no prato, assustado os outros clientes e ido embora furioso.

Mas aí fiquei muito mais feliz com o final =DD

Dragus disse...

Pode ser crítico de crianças.

Mas fica a dúvida, foi realidade aumentada o post?

Bia Nascimento disse...

poxa, que menina linda!!
eu tb voltaria, sem dúvidas.

Varotto disse...

Esse pessoal do restaurante é muito esperto!

Como diria Maxwell Smart: o velho truque da menininha sorridente na saída do restaurante, hein?!

Marina disse...

Eu voltaria. Mas porque meus amigos tem um dom raro de conseguir me arrastar pros piores restaurantes, dos piores atendimentos, mesmo eu dizendo que já fui e achei ruim.

("o velho truque da menininha sorridente na saída do restaurante" Hahahahaha!)