quarta-feira, 12 de janeiro de 2011

O Guarda-Roupa do Menino

(crônica inspirada nisso aqui)

O Mateus gostava de se vestir de mulher. Desde pequeno, quando ainda não se expressava muito bem, se encantava com vestidos, saias, roupas de menina. Quando aprendeu a controlar as palavras, passou a pedir, e seus pais, na contramão do que se podia esperar, atendiam aos pedidos do filho.

Quando viam, no começo, as pessoas achavam graça. "É fase, vai passar", dizia uma tia, antes de emendar uma história sobre quando encontrou o próprio filho com a cara pintada de batons. Conforme o tempo passava, porém, as atitudes mudavam, e quando o menino chegou à idade de ir para a escola a sociedade explodiu, de sincera curiosidade e espanto à pura revolta.

"Ele nasceu homem, e deve se vestir como homem!", alguém bradava.

"Ele pode usar saia e continuar sendo homem", respondia o pai, que inesperadamente lidava com a pressão externa com mais facilidade que a mãe da criança.

"Mas e se ele for bicha?", perguntou uma das amigas, uma vez.

"E se ele for?", rebateu a mãe.

"Quer dizer... eu não tenho preconceito. Mas isso não é normal, e vocês têm que mostrar a ele o que é normal."

Os pais, na maioria das vezes, riam e desconversavam. Era mais fácil ignorar as pessoas e dar liberdade ao filho do que tentar mudar a cabeça dos outros.

Num dia desses, o padrinho do menino visitou a família. Deu presente, brincou com a criança - que, vale dizer, caso vocês não tenham percebido, agia e era como qualquer menino de sua idade - e, após o jantar, foi franco com os pais, amigos seus já há décadas:

"Eu sou amigo de vocês já faz muito tempo, e sou padrinho do Mateus. E sim, estou um pouco preocupado com algumas coisas."

"Algumas coisas sendo o fato de que ele usa roupas de menina?"

"Isso."

"Qual o problema?"

"Nenhum, por mim. Mas nós três sabemos que isso pode dificultar muito as coisas pra ele."

"Sim, nós sabemos. Mas nós vamos sempre estar do lado dele, não é?"

"Claro. Mas, e quando ele crescer, se interessar por meninas...?"

"Por sexo. Aí a gente explica, ué."

"Explica o quê?"

"Não sei, cara... o básico: 'filho, a sociedade é complicada, as pessoas não valem a pena, se você gosta de meninos, ótimo, mas isso vai te causar alguns problemas, se você gosta de meninas, ótimo, mas vai ter problemas também por usar vestidos, nesse caso, e se não usar vestidos também, meninas são sempre um problema', brincadeira, amor. É simples", explicou o pai.

“Palhaço”, disse a mãe ao marido. "Se ele for gay, hétero, monge, não importa!", completou.

E nessa hora o Mateus entra na sala, de shorts e sem camisa, anunciando: "Mamãe, o padrinho me deu esse brinquedo, mas eu já tenho um, posso dar pra algum amiguinho que não tem?"

A mãe pegou o filho no colo enquanto pai e padrinho se entreolhavam, sorrindo, felizes, aliviados. Sabiam que, não importava o que Mateus fosse quando crescesse, de ogro sujo à princesa delicada, ele seria um grande ser humano.


Tyler Bazz

15 comentários:

Otavio Oliveira disse...

Inspirado naquele video que o Max postou, imagino.
Bem bom, Tyler. No fundo, é isso aí, não importa se é cor-de-rosa ou azul. por dentro, é todo mundo vermelho mesmo.

(haha)

Pedro Lucas Rocha Cabral de Vasconcellos disse...

Bonito.

Não foi sua melhor crônica, você costuma fazer melhor, mas passou a mensagem.

Bonito.

Natalia Máximo disse...

Boa, Tyler! O que vale é o ser humano, pena que as pessoas nunca se lembram disso.

Bia Nascimento disse...

"Sabiam que, não importava o que Mateus fosse quando crescesse, de ogro sujo à princesa delicada, ele seria um grande ser humano."

Pq será que isso é tão díficil de entender para algumas pessoas??

Dragus disse...

Pena que o mundo é cruel...

Cruel demais. =/

Varotto disse...

Li o texto que originou o seu, e parte dos comentários de lá. E só tenho a dizer o de sempre sobre o assunto: se cada um cuidasse de sua própria vida e deixasse os outros cuidarem das deles, o mundo seria um lugar bem mais fácil de se viver.

Mas como disse aquele profeta baixinho de Pinheiros: "A humanidade não deu certo".

Laís disse...

O problema é sempre os outros,o que dizem,o que pensam.Acontece que formamos nossa opinião de acordo com tradições e o que é mais comum.Ignoramos o novo e diferente,a menos que seja um lançamento divulgado por celebridades.A sociedade contamina,fácil,fácil.

beeijo

MaxReinert disse...

Assim como "os outros" dizem sempre o que pensam, nós ("aqueles que pensamos nuestras vidas") temos que começar a dizer também... aquilo que pensamos, naquilo que acreditamos... nem que seja somente para as pessoas verem que existem sim, outras pessoas que pensam outras coisas... que não existe unanimidade... e que o mundo PODE ser diferente!

Gabriel Leite disse...

Bem bonito, Tyler.

Larissa Bohnenberger disse...

Lindíssimo texto!
Parabéns!

Bjs!

Kel Sodré disse...

Agora que estou ficando mais adulta, fico me questionando se vou conseguir criar meus filhos de uma forma tão desprendida e sem preconceitos. Não tanto por mim, mas pelo resto da sociedade, que põe uma pressão danada.

Outro dia, conversando com uma amiga socióloga, ela me dizia que o grande problema da humanidade é que, em algum momento, definiu-se que os gêneros são apenas dois e todos têm que se encaixar em um ou em outro. Na verdade, porém, gêneros são inúmeros, e cada pessoa é uma coisa diferente.

Bruno Batiston disse...

Primeira vez que chego aqui... Ótimo texto esse, em particular. Muito interessante a tua forma de narrar, a escolha das palavras: "... de ogro sujo à princesa delicada, ele seria um grande ser humano." Gostei demais!

Ana Lu disse...

Muito lindo esse texto! Realmente o que importa numa pessoa é o caráter. O resto é detalhe.

Marina disse...

Sempre tem um idiota para dizer "eu não tenho preconceito, mas isso não é normal". A humanidade ainda tem muito o que aprender com crianças como Mateus.

µαri µαtos disse...

E as pessoas continuam VENDO DIFERENÇAS, comparando e se prendendo numa noção dualista de NORMAL x ANORMAL.

“Ninguém pode atuar a sua existência sem questionar até ao infinito todo o conteúdo do seu pensamento e sem vê-lo na sua relatividade.”
Karl Jaspers