segunda-feira, 13 de dezembro de 2010

Marcela - O Pior Dia, O Melhor Dia, A Compra do Ano

(Parte do #MemeDasAntigas: 11/12 – Minha compra de 2010; 12/12 – Meu pior dia de 2010; 13/12 – Meu melhor dia de 2010. Uma ficçãozinha no meme, já que esse é um blog quase sempre de ficção ;P)

Eu estava exausto naquela manhã. Tinha passado boa parte da madrugada acordado, tentando reunir anotações para um, digamos, livro de memórias. Uma coletânea de pequenos relatos baseados em minhas experiências com uma grande amiga, quando o telefone começou a tocar. Puxei o celular, vi que não eram nem nove horas e tentei ignorar o telefone, definitivamente não estava interessado nas vantagens do seguro de vida oferecido por uma loja que vende roupas.

A pessoa que fazia a ligação, no entanto, não concordava com minha ideia de não manter uma conversa àquela hora da manhã. Tive a impressão de que o telefone não pararia de tocar tão cedo, atendi. A inconfundível voz de Marcela quando estava animada acabou com todas as minhas esperanças de conseguir dormir por um tempo razoável.

“Vem pra cá tomar café da manhã, preciso falar com você.”

“Marcela,” tentei argumentar, em vão, como sempre. Não sei por que ainda tento. “Eu fui dormir com o sol quase nascendo, não consigo nem falar direito.”

“Consegue sim, tô fazendo café, vem! Tenho um presente pra te dar também. Fiz a melhor compra do ano ontem, e faz quanto tempo que você não come coisas gostosas de manhã, tomando café e tendo uma conversa interessante?”

“Eu precis-“

“Passa na padaria e compra uns pães de queijo, e bolachinhas também.”

“Quê? Você nem comprou as tais coisas gostosas?”

“Eu fiz o café. Levanta e vem logo!”, e ela desligou antes que eu pudesse respirar para responder.

Levantei-me com muito esforço, me arrastei entre guarda-roupa, banheiro, cozinha... lembrei que não tinha o que fazer na cozinha, voltei para o quarto, me arrumei rápido, coloquei um livro no bolso e saí.

Na padaria, comprei os pães de queijo e fiquei em dúvida sobre quais outras coisas levar. A voz da Marcela estava animada, mas será que ela estava? E se estivesse, sendo ela, não seria surpresa nenhuma se o humor já estivesse mudando completamente. Na dúvida, comprei um pouco de cada bolacha e pão doce disponível, pão francês, pão caseiro, e na hora de pagar resolvi que não seria de todo mal levar um maço do cigarro que ela fuma.

Saí da padaria e a única coisa maior que as sacolas que eu carregava eram minhas olheiras. Cheguei ao prédio da Marcela, subi, ela abriu a porta ainda de pijama e me deu um beijo no rosto – sinal de bom humor. “Põe as coisas na cozinha.”

“Ok, mas pode começar a falar que eu vim mais pela curiosidade que pelo café.”

“Depois. Agora vou tomar um banho.”

“Ah, sério?!”, perguntei, sabendo que não obteria resposta enquanto ela ia para o quarto. “Cadê o café?”, gritei.

“Acabou!”, ela gritou também, já entrando no banheiro. “Faz mais aí enquanto me espera.”

O livro no bolso não tinha erro. Li enquanto esperei a cafeteira, li tomando café e comendo um pouco até ela voltar, com roupas que ela só usaria na minha frente e uma toalha enrolada nos cabelos. “Porra! Nem me esperou pra comer!”

Ignorei. Ela também. Sentou-se, serviu-se e nem esperou eu fechar o livro para começar a falar:

“Você não acredita a loucura que foi ontem. Sério.”

Enquanto ela falava, a cada duas ou três frases, eu fazia algum pequeno comentário, soltava algum “uhum” ou perguntava algo. Como todos nós sabemos que o só interessa o que a Marcela fala, excluirei minha participação no monólogo dela.

“Eu queria uma grana pro fim do ano, pra comprar uns presentes, viajar pra algum lugar, essas coisas, aí fui atrás de arrumar um trabalho. Ok, as coisas andam bem fáceis pra quem quer arrumar trabalho nesse fim de ano, porque na segunda loja que tentei a gerente já me entrevistou, na terceira, o proprietário disse que eu podia começar imediatamente e que dependendo do meu desempenho eu ficaria com a vaga. Meu, era o pior trabalho do mundo. Eu tinha que fazer o serviço de umas três ou quatro pessoas, dentro da loja fazia um calor infernal e em certo momento, perto da hora do almoço, o dono da loja começou um papo estranho e eu desconfiei que ele ia dar em cima de mim. Não deu outra! Veio passando a mão, eu saí da loja xingando o filho da puta de tudo quanto é nome, chutei umas coisas no caminho e queimei meu filme com qualquer outro possível empregador daquele quarteirão. Fiquei puta! Saí quase correndo pela rua, debaixo daquele sol que tava fazendo ontem, quando meu salto quebrou. Sério! Não ri, babaca! Quebrou, tive que ir rápido até um shopping ali perto tentar comprar outro, queimando o pé no asfalto e tendo que aturar todo mundo olhando pra mim. Chego no shopping, o segurança não quis me deixar entrar, tive que esperar pedir permissão pelo rádio pra eu entrar e ir numa loja comprar um tênis. Ok, comprei o tênis, fui pagar, meu cartão não passava. Tive que deixar minha bolsa na loja pra poder sair com o tênis e ir até um caixa automático, tirei dinheiro, voltei na loja, paguei, tudo lindo. Fui almoçar e meu lanche veio errado, resolvi comer o errado mesmo. Não aguentava mais, era o pior dia do ano inteiro, sem brincadeira!”

Acabei de mastigar um pedaço de pão, bebi um gole de café... “Caralho, Ma...”, tentei comentar, mas ela não me deixou, claro.

“Não, deixa eu falar! Mas daí mudou tudo, sério, virou o melhor dia do ano inteiro!” – Como o pior dia do ano passa a ser o melhor? Isso era impossível. Ele podia deixar de ser tão ruim, podia até acabar sendo bom, mas... o melhor do ano? Claro que eu só pensei isso tudo, não ia ser louco de interromper e discordar da Marcela na mesma frase. Enquanto eu viajava, ela falava.

“...e ele disse que tava me olhando desde quando eu sentei ali e perguntou se podia sentar comigo. Ele era lindo, aí eu disse que sim e a gente começou a conversar, eu gostei. O papo era bom, eu ria, melhorou um pouco meu humor. Então ele virou e perguntou se podia me fazer uma proposta indecente. Não ia ser a primeira que eu recebia, você sabe, então deixei fazer: ele queria que eu fosse com ele na festa de fim de ano do escritório. Parece que ele dizia por lá que era noivo, mas na verdade não era, e queria manter as aparências... essas coisas. ‘Uma coisa meio Uma Linda Mulher?’, eu perguntei, ele respondeu que sim, mas que só até o fim da festa, porque na verdade ele era gay e então não ia rolar nada mesmo, nem que eu aceitasse, ou que eu quisesse, etc. Aceitei, mas disse que não tinha roupa para a ocasião. Ele concordou; comemos e passamos as horas seguintes indo de loja em loja. Comprei um vestido, sapatos novos, e um par de brincos – nada de joia, só bem bonitos, depois te mostro. Ainda tínhamos bastante tempo antes da tal festa da empresa e fomos para um hotel ali perto, ele queria se arrumar, talvez comeríamos algo lá mesmo, essas coisas. No quarto do hotel, coloquei o vestido para ver outra vez como ficava. Eu tava maravilhosa, você não tá entendendo! Saí do banheiro e ele me garantiu que se não fosse gay iria acabar se apaixonando. Perguntou se eu podia acabar de me arrumar no quarto, porque ele queria tomar um banho, e quando ele entrou no banheiro eu tive a grande ideia.”

“Ah, comprei cigarro pra você”, aproveitei a pausa-para-causar-suspense da Marcela e ofereci meu presente. “Aí na sacola.”

“Esquece o cigarro, presta atenção. Eu fugi! Fugi! Me vi naquele quarto e resolvi que não queria ir em festa nenhuma de empresa com bicha fraca que não se assume. Mas o vestido era lindo, o sapato era lindo... peguei minha bolsa, as sacolas e saí correndo pelo corredor, de vestido e all star, acredita? Corri até o fim do corredor torcendo pra ele não sair do banho, consegui pegar o elevador até o térreo e tentei chegar no banheiro sem ninguém me ver. Troquei de roupa de novo, vesti o que estava usando antes, desci pela escada de emergência até o subsolo e saí pela garagem, indo apressada para o shopping. Eu suava só de pensar que ele podia sair correndo do hotel me chamando de ladra vagabunda, mas ele não apareceu, fico pensando se chegou a me procurar... Enfim, cheguei no shopping e tentei devolver as compras. Não me deixaram pegar o dinheiro de volta na loja do sapato, então aproveitei que ele era lindo e fiquei com ele. Na loja de roupas tive mais sorte: não me deixaram pegar o dinheiro também, mas troquei por outras peças lá e me pagaram uma boa diferença. Saí da loja feliz demais e foi aí que comprei seu presente, peraí.”

Ela correu para o quarto enquanto eu não conseguia nada além de ficar pasmo. Sim, era a Marcela e eu esperava qualquer coisa dela, mas essa história toda, àquela hora da manhã, comigo sem dormir e ela recusando cigarro foi informação demais pra mim. Ela voltou com uma sacolinha de livraria e me entregou. Era um livro que eu queria há tempos, mas nunca lembrava de comprar quando tinha dinheiro.

“Depois de um tempo eu saí do shopping já dentro de um táxi, pra não correr o risco de o cara estar lá fora me esperando, né. E aí, gostou?”

“Adorei! Tava querendo demais esse livro, valeu!”

“Sabia que você ia gostar, eu nunca erro.” – Pois é. E quando errava, eu é que não tinha coragem de dizer.
“Mas, Ma, essa foi sua melhor compra do ano? Sério? Você compra tanta coisa legal...”

“Imagina, tonto. Esse é só um presentinho pra você, porque você é um fofo. A compra do ano foi algo que eu comprei só pra mim e que vai me fazer muuuito feliz.” – ela disse isso e abriu aquele sorriso de Marcela que me encanta desde sempre.

“Hm, e o que é?”

“Ahhhh hahaha. Não conto mesmo!", e mudou de assunto.



Tyler Bazz

8 comentários:

Mari Hauer disse...

Ahhhhh, como assim? Eu quero MUITO saber o que é! Pode passar aí o endereço da Marcela que eu vou tomar café na casa dela amanhã e ela VAI TER QUE ME CONTAR! hahaha...

Adorei o post 3 em 1! Ficou delicinha de ler! Btw, adorei a Marcela tbm! Me identifiquei! :))

Anônimo disse...

Sacanagem!

Natalia Máximo disse...

Poooooooooooooooo, já tava com saudades da Marcela!

Sil disse...

A Marcela é sempre uma surpresa.

Adorei o post.

Beijo

Marina disse...

Imprevisível como sempre. Ela me dá medo.

Anônimo disse...

Tava com saudade da Marcela.

Marina disse...

E é claro que era o metrô de São Paulo. Hehe.

Larissa Bohnenberger disse...

Putz, sacanagem da Marcela!