terça-feira, 30 de novembro de 2010

O Escritor

A discussão começava na parte externa da cafeteria/bar na Avenida Paulista e se estendia até a parte de dentro do local, próximo ao caixa. Um rapaz, usando jeans, camiseta regata e mochila nas costas, acompanhado por duas garotas de jaleco branco, discutia com os garçons o valor consumido pelos três.

“Não é possível ter dado isso tudo!", disse, nervoso, exibindo o fortíssimo sotaque carioca.

“É o que está na comanda", respondeu um dos garçons.

“Mas isso a gente não pediu!”

“Tem coisa aqui de outra mesa", acrescentou uma das moças.

“Isso é de quando vocês chegaram e sentaram naquela mesa lá”, explicou o garçom, apontando um canto do bar, agora ocupado por um grupo de amigas mal vestidas que viravam shots de tequila.

“Nós nunca sentamos naquela mesa! Nós não sentamos em nenhuma outra!”, o garoto ergueu a voz, mostrando que a controvérsia ainda estava longe de acabar.

No meio disso tudo, o responsável pelo caixa – gerente? proprietário? – reparou que um rapaz baixinho, de óculos e uns 30 anos observava a cena com muita atenção, fazendo até algumas anotações em um caderninho de capa preta.

Curioso e ao mesmo tempo preocupado com o conteúdo do caderno, tentou saber do que se tratava. “Posso ajudar?”, perguntou, educado, tendo que repetir a pergunta para ser ouvido pelo moço.

“Hã? Ah...”, o jovem respondeu, tentando não perder nenhum detalhe do embate entre garçons e clientes. "Não, não, só estou olhando mesmo. Pedi uma cerveja, mas ainda não veio."

“Desculpe senhor, mas é que nós estamos com um probleminha aqui, por isso-"

“Sim, sem problemas”, interrompeu, “é que eu sou escritor, então vou assistir aqui."

Impressionante a capacidade que as pessoas têm de dar escândalo em público, sabendo que todos em volta estão ouvindo, mas só se incomodarem quando alguém assume que está dando atenção voluntariamente à situação. Isso porque os três cariocas, ao ouvirem o que disse o escritor, esqueceram totalmente o valor da conta e se concentraram no rapaz que já bebia sua cerveja, com a caneta em mãos.

“Como assim olhando?”, perguntou uma das moças, mais irritada do que estava por pagar o dobro do que acreditava que deveria.

“Olhando, observando. Prestando atenção. Essa discussão de vocês me pareceu interessante e eu achei que podia-“

“Tu não pode nada!", interrompeu o moço de mochila nas costas, aproximando-se do escritor, quase agredindo-o.

“...achei que podia usar a situação em algum texto", concluiu o escritor, sem se alterar, ao mesmo tempo em que rabiscava algo no caderninho. “Aliás, vocês duas podiam me explicar: por que o jaleco? É sábado à noite, vocês não devem ter saído do trabalho, e estão com crachás... é de um congresso?”, apertou os olhos para tentar ler, precisava trocar os óculos.

“É, mas isso não é da sua conta", respondeu uma das moças, enquanto pensava que o escritor estava mesmo certo. Podiam ter tirado o jaleco e o crachá, obrigatórios no congresso de medicina de que participavam, quando chegaram ao bar. Será algo no ar paulista que as fazia esquecer de separar diversão e trabalho?

“É sim, moça", explicou, calmo. “Sendo escritor, eu tenho o direito de observar de perto qualquer situação que possa ser literariamente interessante para mim. Não posso divulgar nenhum dado pessoal de vocês; se citar nomes, eles devem ser fictícios. As descrições físicas, porém, podem ser idênticas a vocês, porque isso não seria suficiente para identificá-los.”

Agora, não só os cariocas, mas também os garçons e o homem do caixa do estabelecimento ouviam, num misto de curiosidade, descrença e incômodo, o que o rapaz do caderno lhes dizia.

“Isso é um absurdo!”, uma das moças gritou.

“Não é, não. Na verdade, isso tudo está na legislação. Como membro da Associação de Escritores eu tenho o direito de parar, olhar e fazer anotações sobre qualquer coisa que me interesse em locais públicos.”

“Espera, associação?”, perguntou o gerente do bar, entre todos ali o mais interessado no trabalho do escritor.

“É, tenho até carteirinha”, e o escritor tirou da carteira um documento, tomando cuidado para cobrir com o dedão a foto 3x4, com o logotipo da associação, número de inscrição, entre outras coisas. “Agora, vocês podiam, por favor, voltar à discussão sobre a conta? É que eu preciso ir embora logo, porque o metrô fecha.”

“Ninguém vai voltar a falar de conta nenhuma não”, o rapaz de regata voltava à conversa, falando cada vez mais alto.

“Ah, mas vai sim”, respondeu o gerente, “eu tenho mais clientes para atender e não posso mais perder tempo com vocês não.”

O escritor bebeu um grande gole de sua cerveja que havia chegado, o gerente conferiu novamente as comandas, os garçons defenderam a posição de que não haviam errado e os clientes continuaram falando cada vez mais alto e garantindo que não iam pagar. Tudo isso alternado com brigas, perguntas e esticadas de pescoço cada vez que o escritor colocava a caneta no papel.

“Vocês estão perdendo o foco”, pedia, olhando nervosamente o relógio e vendo que precisava logo de um final para seu possível relato. “Estão repetindo a mesma coisa, não vão chegar a lugar nenhum assim. Posso fazer uma sugestão?”

“Não!”, responderam os três clientes ao mesmo tempo, enquanto um dos garçons quase caía no riso e o gerente, sem poder fazer nada, pedia desculpas e explicava que seria mesmo um pouco demais, que provavelmente isso ia contra as diretrizes da associação da qual o escritor fazia parte.

O escritor não podia aceitar aquilo. Queria um final, precisou pensar rápido. “Sério, eu posso ajudar”, insistiu, “sei reconhecer caligrafias, posso ver quais pedidos foram anotados por quais garçons, a gente pode também conferir o horário das comandas. Aliás, falando em comanda, quanto deu a minha, por favor?”, perguntou, aproveitando para pagar sua própria conta – no valor correto – já tendo em mente o que faria em seguida.

O gerente recebeu seu dinheiro, sem troco, e analisou a proposta do escritor. “A gente não está conseguindo resolver nada, se ele pode mesmo ajudar, acho que tudo bem tentarmos, né?”, propôs aos clientes, que concordaram, enquanto os garçons começavam a se perguntar se teriam cometido algum erro e se, nesse caso, seriam pegos.

Enquanto bebia os últimos goles de cerveja, o escritor recebeu as comandas das mãos do gerente. Olhou algumas, disfarçando, abriu um sorriso e rapidamente rasgou-as, jogando os papéis picados para o alto enquanto saía correndo do bar para chegar às catracas a tempo de pegar o último trem. Finalmente tinha um final para sua história.


Tyler Bazz

8 comentários:

Pedro Lucas Rocha Cabral de Vasconcellos disse...

HAHAHAHAHAHAHA

Absolutamente espetacular!! E se isso acontece com escritores, imagina com jornalistas...

Mesmo assim, sensacional. Grande final!

disse...

Hauhuahuahau, fiquei aqui imaginando a cara de todo mundo hora que ele saiu correndo! Mto bom Ty, mto bom!

Natalia Máximo disse...

Hahaha, muito bom! Espero que ninguém tenha corrido atrás dele.

Ana disse...

Ex de como ser uma péssima leitora:
Gente, só eu fiquei mega curiosa pra saber qual foi o problema nas comandas??

Varotto disse...

E você? Como conseguiu este final?

Otavio Oliveira disse...

@pedro: e os jornalistas-escritores?

µαri disse...

=P Pq n aparece um escritor desse pra rasgar minhas contas e correr nos bares onde vou? u.u
Seria tão bom!
Imaginei o escritor com óculos fundo de garrafa e cara de doido!

Filipe Ribeiro disse...

Hahahahaha!

Genial!

Se a µαri imaginou o escritor com óculos fundo de garrafa e cara de doido, eu imaginei o Rob Gordon!

Essa história renderia uma saga lá no Champ.

Parabéns pelo texto.