terça-feira, 23 de novembro de 2010

Eu não ousaria...

…escrever sobre o show de Paul McCartney. Infelizmente não tenho as palavras e a sintaxe necessárias; não tive, também, no momento do show, a capacidade de observação exigida, pois na maior parte do tempo estive pasmo, sem ação, e quando conseguia me mover, era para enxugar as lágrimas.

Além disso, seria difícil para mim fazer vocês sentirem algo lendo sobre o show. O que era para ser sentido foi sentido lá, em volta daquele palco, nas três horas – eternas e ao mesmo tempo curtas demais – que o show durou. Seria perda de tempo tentar explicar a sensação a quem não estava lá, e desnecessário a quem estava.

Eu não saberia descrever o que sentiu o garoto de cabelos compridos que se livrou da vergonha e sem se preocupar com o que diriam seus amigos dançou Rockshow. Nem o que se passava na cabeça da menina que atravessou o país achando que o único lugar solitário era a lua. Faltariam expressões e figuras de linguagem para explicar o que sentiu o casal que decretou, durante All My Loving, que estavam casados – depois que ele usou essa música para dizer a ela que escreveria todos os dias durante certa viagem – e a explosão que foi o coração da garota que nunca foi tão feliz na vida quanto ao ouvir uma música sobre uma longa estrada sendo tocada a poucos metros de seu rosto já cheio de lágrimas.

Lágrimas, muitas, todas. Avôs e netos chorando juntos por Blackbird, enquanto se perguntavam de onde as pessoas sozinhas vêm. Alguém estava mesmo sozinho ali? A amizade emocionante das homenagens feitas por Paul a seus amigos, e a possibilidade de sentir que ele, Paul, era nosso amigo.

Era, e é. De longa data, desde sempre. Sentado no quarto, dividindo cervejas, cigarros e dúvidas, resolvendo problemas ou afogando mágoas. Falando sobre um dia na vida, e sussurrando palavras sábias: vamos viver e deixar morrer.

Cada coisa ali sentida foi pessoal, íntima, única, e por isso eu não seria invasivo a ponto de tentar descrever. Meu negócio é falar de coisas mais gerais, que todos sentem, e por isso eu poderia escrever – acho que já escrevi – sobre o show de domingo à noite. Porque as sensações eram únicas e pessoais, mas também eram multiplicadas por setenta mil. E se arte é fazer as pessoas sentirem, os grandes artistas são aqueles que conseguem fazer cada pessoa sentir algo diferente, e todas as pessoas sentirem a mesma coisa, ao mesmo tempo. E ninguém – muito menos eu – precisa dizer que Paul McCartney é um dos maiores artistas de todos os tempos.


Thank you, Sir
(foto: G1)

Tyler Bazz

9 comentários:

Marcello disse...

Eu me emocionei pela TV. Acho que multiplicando umas 500x o que eu senti já dá pra ter uma noçãozinha do que foi aquilo no Morumbi.

Natalia Máximo disse...

Porra, Tyler, eu pensei que já tinha superado esse show, mas voltei a chorar de novo. Lindo texto.

Isadora disse...

A gente nunca vai superar isso, né?

Natalia Máximo disse...

Não, Isa, já me conformei.

Varotto disse...

Pois é...

Infelizmente, dessa vez eu deixei passar.

Pelo menos há o consolo de que, em 1990, eu era um dos 184.000 no show do Maracanã assistindo ao velho Macca (que, ainda era quarentão, nem era tão velho assim).

Jullia A. disse...

eu queria ter estado(?) la.
ah como eu queria.

Anônimo disse...

Só me responda uma coisa: como o vocal do Hellacopters, consegue ter uma voz diferente a cada cd?

( comecei a escutar por sua causa, serei eternamente grata)

Tyler Bazz disse...

Anônima:

Ele é bom. MUITO bom!!!

Larissa Bohnenberger disse...

"Thank you, Sir" (2)