terça-feira, 26 de outubro de 2010

Coletivo

Desceu as escadas rolantes do metrô enquanto colocava os fones no ouvido e ligava alguma música no celular, ficando ao lado direito para não atrapalhar nem atrasar ninguém. Naquela estação, naquele horário, sempre desciam muitas pessoas e subiam poucas, ainda assim, ninguém cogitava descer pelas escadas comuns, estáticas.

Tirou o bilhete do bolso e passou pela catraca, sempre acelerado, e enquanto descia até a plataforma começou a reparar nas pessoas que faziam o mesmo trajeto. Não havia indivíduos, as mãos passavam umas após a outra pelo corrimão, as pernas todas no mesmo ritmo, na mesma direção. As mesmas roupas, os mesmos jornais. Lembrou-se de algo que tinha lido, na faculdade, que comparava as pessoas nas grandes cidades às ovelhas de um rebanho. O trem chegou e todos entraram. Não estava lotado, mas havia espaço suficiente para movimento e respiração. Encontrou um canto e encostou-se com aquele pensamento na cabeça.

Passou os olhos pelo vagão e sentiu o estômago trovoar. Não! Errado! Essas pessoas não eram parte de rebanho nenhum! Esses olhos, essas mãos... elas tinham histórias, sentimentos, vidas privadas e desejos próprios. Olhou para um lado e viu o jovem que escancarava no rosto a ansiedade da primeira entrevista de emprego; olhou para o outro lado e viu o casal apaixonado, que fazia questão de viajar de mãos dadas, mesmo sendo maior o risco de caírem. Trabalhadores, mães, amigos, sonhadores, pessoas!

Sentiu uma onda percorrer-lhe o corpo e não resistiu. Encheu os pulmões e anunciou, junto com um grande sorriso: "Vocês... nós! Nós não somos ovelhas, não somos um rebanho! Nós somos pessoas e temos vidas, temos vontades! Não seguimos uns aos outros, vamos por conta própria! Parabéns, e viva!"

Todos o olhavam e alguns já começavam a se irritar quando o trem chegou a uma estação e as pessoas começaram a descer sem ao menos olhar para aquele homem que via tanto nelas. Sentiu alguma decepção, abaixou a cabeça, cansado, mas precisou sair correndo, pois era ali que descia e o trem já apitava, anunciando a partida. Não podia chegar atrasado ao escritório.

Mas decidiu: nunca compraria um carro.


Tyler Bazz

6 comentários:

disse...

Talvez ele seja só uma ovelha negra no rebanho, haha

disse...

Btw, se não me engano é o filme "Tempos Modernos" do Chaplin que mostra literalmente a multidão como um rebanho de ovelhas, nao? Muito boa a sacada! E melhor ainda ver que tem gente que ainda encher o ser humano como indivíduo, não como um todo

Ana disse...

Que louco.

ladyjesus disse...

Pode parecer mentira mas já pensei algo parecido com isso uma vez, andando de metrô também. Nunca teria coragem pra gritar o que ele gritou, no entanto. =/

Pedro Lucas Rocha Cabral de Vasconcellos disse...

ESSE é o típico texto TylerBazziano! Curto, direto, carregado de pensamento, e com uma punchline no final!

gostei, poste mais vezes!! =P

George Marques disse...

Se for no metrô Brás às 7h, está mais para uma boiada...