domingo, 12 de setembro de 2010

Na Beira do Lago

Na beira do lago, foi concebida. Apaixonados, tomados pelo desejo, seus pais escaparam do baile da festa de São José, deram a volta até a outra margem e se amaram, rodeados de vagalumes e do cheiro de terra, sob a lua rodeada de estrelas.

Na beira do lago, nasceu. Durante a semana que antecede o ano novo, na fazenda de um dos tios de seu pai, que teve que fazer o parto, pois a filha resolveu que nasceria durante um tranquilo passeio no fim da tarde.

Na beira do lago, cresceu. Ficava quase no quintal de sua casa, na pequena cidade escolhida por seu pai. Passava as tardes ali, nadando, brincando de caçar peixes, de encontrar animais nas nuvens, fosse sozinha, com o irmão mais novo ou com as amigas. Adorava a água, era seu lugar favorito, sua brincadeira mais legal.

Na beira do lago, se apaixonou. Visitava os avós, na mesma festa de São José em que fora concebida - história que nunca chegou a ouvir -, passeava com as primas em volta do lago, comendo pipoca e algodão doce, andando na direção contrária à dos rapazes, quando seus olhos se cruzaram com os de um moço dali. Risinhos, comentários com as primas, mais e mais visitas aos avós, acabaram noivos.

Na beira do lago, se casou. O noivo, descobriu depois, já apaixonada, era filho do maior fazendeiro da região, que fez questão que o casamento acontecesse em sua propriedade, e totalmente às suas custas. Foi uma festa linda e enorme, com toda a vila convidada, muita comida, muita bebida, e um baile que só terminou com o sol, lembrado até hoje pelos casais dançarinos. Casada, foi para São Paulo com o marido, que cuidava dos negócios do pai na cidade. Prosperaram, compraram indústrias, tiveram filhos e foram tão felizes quanto poderiam ser.

E na beira do lago, poderia ter morrido. Seria interessante, pelo menos para a estrutura desta minibiografia. Mas não. Morreu de velhice, em sua cama quentinha, rodeada de filhos, netos e bisnetos em seu quarto num apartamentos nos Jardins. Os lagos... desde o casamento, nunca mais esteve na beira de um.


Tyler Bazz

10 comentários:

Rob Gordon disse...

E quando a gente acha que sua insanidade chegou ao limite, ela se supera e tira um punhado de lagos da manga.

Você precisa de ajuda, Tyler.

(O texto tá do caralho)

BiaAa AlpEr ! disse...

Excelente texto :D

Apareça mais por aqui, é um prazer ler o que você escreve :D

Jullia A. disse...

Ah, as escolhas!

'e o preco que se paga. ;P

Otavio Oliveira disse...

Bom pra caramba, como sempre. Não sei onde o Rob tirou que esse texto mostra sua insanidade haha.

Peterson Quadros disse...

A estrutura do texto nos leva a uma possibilidade de final com o lago. De repente voce tira o lago e nos leva a algo inusitado, uma morte quentinha em Sao Paulo. Isso sem contar o desapego...pois ela deixou, em alguma altura da sua vida, aquilo que amou... Obrigado

MaxReinert disse...

Ahhh.... eu tbm fugiria do lago!
Tá bom, tá bom... não sou conhecido por ser poético mesmo!!!

Sil disse...

Lindo texto, nos faz pensar em escolhas, em destino...muito bom, parabéns.

Beijos

Marina disse...

Sorte a dela. Ninguém merece morrer à beira de um lago. Sem dúvida, prefiro uma cama rodeada de netos.

Varotto disse...

O famoso final "sacode" (acorda pra cuspir e presta atenção!) que só as Indústrias Bazz trazem até você.

Otávio, o comentário do Rob vale independentemente do texto. Se o Tyler compusesse a sinfonia definitiva, ainda assim precisaria de tratamento.

Way to go, Mr. Bazz!

George Marques disse...

Coitado do lago que nunca pôde saber o fim da história.