quarta-feira, 18 de agosto de 2010

Ltda.

Maria subiu de elevador até o terceiro andar do prédio. Em um dia normal, iria pelas escadas, tinha tempo de sobra e era uma das poucas coisas parecidas com exercício físico que ainda conseguia fazer. Porém, naquela dia, como seus sapatos novos apertavam os pés e a ansiedade para a entrevista de emprego a deixava no limite da transpiração, preferiu não arriscar e chegar da forma como havia saído de casa, arrumada.

Passou pela porta da empresa e se aproximou lentamente do balcão de recepção, vazio, olhando para os lados e vendo que não havia ninguém na sala para ajudá-la. Apoiou-se, ainda pensando no que fazer, quando ouviu alguém dizer “bom dia”. Assustou-se, a princípio, e logo depois viu que quem a havia cumprimentado era a recepcionista, sentada atrás do balcão, no chão. “Posso ajudar?”

“Eu...”, ela hesitou, não sabendo se devia esperar a moça se levantar. “Eu vim para uma entrevista de emprego.”

“Ah!”, a recepcionista levantou-se num pulo, com um sorriso, “a menina nova. Vem comigo”, começou a cruzar, descalça, o escritório, “que eles não puderam te esperar e já começaram a reunião.”

“Não, moça, eu vim para uma entrevista, não uma reunião”, Maria tentava explicar, inutilmente, enquanto acelerava o passo através do escritório. A recepcionista se aproximou da sala de reuniões, abriu a porta rapidamente, sem bater, sentou-se no chão, sorriu e anunciou: “A menina nova chegou”, virou para Maria, apontando um lugar na mesa que ela com certeza não conseguia ver dali do chão, “Aquela é sua cadeira, pode sentar e fique à vontade.”

A menina, totalmente perdida e nervosa, foi até a cadeira designada, enquanto ouvia o homem em pé na ponta da mesa falar uma língua incompreensível para ela. Sentou-se, viu à sua frente um bloco de folhas de papel em branco e uma caneta de tinta preta. Olhou para o rapaz sentado a seu lado, ele fazia rabiscos irregulares no papel, do tipo que as pessoas fazem quando falam ao telefone ou... participam de uma reunião. Ela pegou sua caneta e ameaçou fazer o mesmo.

“Eu não faria isso”, quem disse foi o rapaz, sorrindo quando ela o olhou, assustada. “Prazer”, ele estendeu a mão, que ela apertou, “Gerente do Departamento de Rabiscos. Você é a menina nova, né?”

“Não! Eu vim para uma entrevista, não sou a menina nova. Quero ser, eu acho, mas não sei o que estou fazendo aqui nessa sala ouvindo esse cara falar uma língua que eu não conheço!”

“Grego.”

“O quê?”

“Ele está literalmente falando grego.”

“Mas por quê?”

“Não sei. Ele gosta.”

Maria ficava cada vez mais confusa. Correu os olhos pela mesa de reuniões, vendo um rapaz da mesma idade que o Gerente do Departamento de Rabiscos rasgar folhas de papel e duas senhoras, com mais de quarenta anos, trocarem freneticamente as canetas entre si. Preparava-se para fazer uma pergunta quando todos se levantaram e ela, por impulso fez o mesmo. Quando todos se abraçaram, ela buscou o Gerente de Rabiscos, que era de longe a pessoa com quem mais tinha intimidade ali, mas ele abraçava o homem a seu lado. Maria então foi até o homem que falava grego, que estava sozinho, e lhe deu um abraço, friamente recebido.

Outro jovem, em cujo crachá lia-se Gerente do Departamento de Pilhas Fracas, passou por ela e avisou: hora do intervalo. Maria saiu da sala seguindo o fluxo de pessoas e entrou, como todas elas, em outra sala. Ali, todos enchiam uma bexiga de cor vermelha e a estouravam, ela fez o mesmo. Alguém anunciou o fim do intervalo e Maria, em vez de seguir todos de volta à sala de reunião, foi para o outro lado do corredor, vagando pela empresa.

Encontrou a sala do departamento de Recursos Humanos, bateu na porta uma vez, duas, e entrou. Uma mulher bonita, de pouco mais de trinta anos e com sorriso simpático olhava fixamente para um peixe dentro de um aquário. “Posso ajudar?”, perguntou.

“É... eu vim para uma-“

A mulher interrompeu Maria. “Ah, oi! Você é a menina nova, né?”

Maria suspirou, já não tinha mais forças. “Sim, sou eu.”

“Ótimo. Me faz um favor? Leva esse documento aqui até a recepção, por favor. Eu mesma levaria, mas não posso sair porque estou esperando uma moça que vem fazer uma entrevista para a Contabilidade.”

Maria pensou em retrucar, perguntando como era possível que uma empresa tivesse um Departamento de Rabiscos, um Departamento de Pilhas Fracas e, ao mesmo tempo, algo tão comum como Contabilidade, mas desistiu ao ver que as folhas de papel em sua mão eram, na verdade, seu curriculum.

Encarou a moça do RH por alguns segundos, verificando se não aquilo não era uma dessas estranhas estratégias de entrevista utilizadas nos dias de hoje, e saiu pelo corredor em direção à recepção.

Chegando lá, antes que a recepcionista descalça pudesse se levantar, Maria tirou rapidamente os sapatos e correu para fora do escritório. Desceu as escadas em tempo recorde e saiu ofegante do prédio. Ali ela não voltava mais.


Tyler Bazz

19 comentários:

Rob Gordon disse...

Imprima e emoldure o trecho do aquário!

Ana disse...

Já que você ficou chorando no Twitter, vou comentar. :P
Você e o moço aí de cima são muito doentes e geniais.
=D

Jullia A. disse...

voce tem problema. uns 18 mais ou menos.

Hally disse...

É normal eu me sentir perdida feito a Maria?
O.o

Gostei, só isso que posso escrever aqui.

Gabi Romeiro disse...

Isso é um bom roteiro de sonho - daqueles que não fazem sentido nenhum justamente por simplificarem todo sentido do mundo.
O que acaba sendo literatura, né?

Natalia Máximo disse...

MUITO bom, cara! Você viaja lindamente, para a minha alegria =D

MarianaMSDias disse...

Ok, já que vc praticamente pediu de joelhos pelo TT, chorou, miou, implorou, eu vou dizer:

Essa convivência entre vc e o Rob é maléfica aos 2. É difícil dizer qual dos 2 encontra-se em mais avançado estágio de insanidade mental. Vou tirar os sapatos e sair correndo.

Fui.

Ana disse...

“Ele está literalmente falando grego.”

“Mas por quê?”

“Não sei. Ele gosta.”

---> minha parte preferida. Ri alto.

Anônimo disse...

foda é quando não se pode tirar os sapatos e sair correndo.

Varotto disse...

Puro pesadelo.

Puro Tyler.

P.S.: Doente.

Minha leitura disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
BragaMatta disse...

É aqui que eu deixo meu currículo?

Mari Hauer disse...

As pessoas da minha casa falam grego. Literalmente.

E nada melhor do que tirar os sapatos e sair correndo.

Sim, vc é doente. E eu sou limitada. Ainda bem que não preciso entender certas coisas nessa vida pra gostar delas! Porque eu gostei (muito!) do texto!

Sil disse...

Em determinados momentos do dia, sinto que trabalho nessa empresa.

Acho que você tem conversado muito com o Rob, cuidado ;P

Ariany disse...

Olá,

Meu nome é Ariany, eu represento o Blog Vestibular, da FECAP (Fundação Escola de Comércio Álvares Penteado).
Primeiramente lhe parabenizo pelo seu blog e pela postagem.
Gostaria de lhe convidar a conhecer e opinar num ambiente repleto de informações sobre educação: http://blogvestibularfecap.blogspot.com/

Conto com a sua visita!
Até mais!

Cissa disse...

é normal eu me sentir perdida como a Maria? [2]

Dalleck disse...

haha, genial Tyler, genial! Trabalho num lugar parecido. rs

Marina disse...

Gostei! Será que eles contratam dentistas?

Peterson Quadros disse...

Descobri o blog... Agora preciso explorá-lo ao máximo, se é que isso é possível...
A história está incrivelmente gostosa de ler. Fiquei na expectativa de saber que lugar era aquele e depois de todas as descricoes veio o fim e me deixou mais desejoso ainda...Ah Maria...Obrigado