quarta-feira, 11 de agosto de 2010

Figuração

"And the plot thickens", disse, sem tirar os olhos do celular.

"O quê?", perguntou uma garota sentada na cadeira atrás dele, na praça de alimentação. Era muito, muito bonita, e parecia curiosa, com os olhos vivos, espertos.

"Desculpa, não era com você. Tava só pensando alto." Respondeu, sem graça, quase sem voz, se odiando por aquilo.

"Ah, mas agora eu quero saber o que foi!", disse ela, largando metade das batatas em sua mesa e sentando-se rapidamente enquanto falava na cadeira à frente dele, com o copo de refrigerante na mão esquerda.

"É só uma expressão em inglês, quer dizer-"

"Eu sei o que quer dizer", ela interrompeu, "quero saber é do plot!"

"Hmm. É que... deixa pra lá, é uma história complicada."

“Você tem algum compromisso marcado?”

“Agora não.”

“Nem eu, por pelo menos uma hora. Sou toda ouvidos.”

Ele hesitou, mas queria mesmo dividir a história com alguém. "Tenho duas amigas, não, são só duas moças que trabalham comigo, na verdade, e elas gostam do mesmo cara."

"Iihhh."

"Eu sei, mas calma. As duas já tiveram algo com ele, coisa passageira, e ele não liga pra nenhuma das duas, mas vai enrolando, pra ter quem pegar de vez em quando, sabe?"

"Sei. Típico. Quem é o cara?"

"Eu."

"Mentira!"

"É. Desculpa."

"Por que você achou que eu ia acreditar?"

"Sei lá, não é sempre que uma menina linda com quem eu nunca falei senta na minha mesa e puxa papo. Queria impressionar."

"Ia me impressionar mesmo se fosse você, mas não de um jeito bom. Você é bem bonito também, viu?"

"Ah, obrigado", ele sorriu, tímido.

"E aí?"

"O quê?"

"O plot!"

"Ah! Então, nas últimas semanas ele tinha saído algumas vezes com uma delas, e só, mas ela contou para a outra, que disse que tinha saído com ele também, o que era mentira. A primeira tentou tirar satisfação, mas ele enrolou e não deu em nada..."

"Óbvio."

"Sim. E mais da metade disso tudo pela internet."

"Quase óbvio, hoje em dia."

"Aí, hoje... aparece que ele está namorando!"

"Caralho! Vai ficar muito boa essa história!”, sua voz tinha perdido o interesse do começo da conversa.

"Vai... não vejo a hora."

"Falando nisso, que horas são?"

"Humm, duas e meia."

Ela já estava em pé antes que ele acabasse de falar. "Preciso ir."

"Como assim?"

"Eu preciso ir, ué."

"Não, espera. Vamos tomar um café? Você nem me disse seu nome, e-"

"Não vai rolar. Essas duas aí já tomam muito do seu tempo, não ia sobrar nada pra mim."

"Mas, mas...", não encontrou as palavras para argumentar, enquanto ela se afastava, deixando o copo cair em um cesto de lixo antes de descer as escadas, uma cena que ele jamais esqueceria.

Quase apaixonado, suspirou, olhou em volta, desligou o celular. "Melhor voltar para o escritório", pensou, "que hoje a tarde vai ser divertida."


Tyler Bazz

7 comentários:

Pedro Lucas Rocha Cabral de Vasconcellos disse...

Sensacional...

Porém muito longo, o que aconteceu com o rei dos textos curtos?

Jullia A. disse...

Marcela, certeza.

Marina disse...

Agora que a Jullia falou, também achei parecida com a Marcela.

"Figuração" é um bom título, by the way.

Natalia Máximo disse...

Marcela, certeza. [2]

Tyler Bazz disse...

Meninas... Marcela e Figuração simplesmente não combinam. ;)

Rob Gordon disse...

"Quase apaixonado" foi a melhor expressão que você criou na vida. Patenteie.

Pulo no Escuro disse...

Não achei muito Marcela... seria Marcela se fosse pra ela viver a história do cara e contar pra todo mundo como se estivesse SSSUUUPPPER certo e divertido.
xD

Saudade do seu blog.