segunda-feira, 19 de julho de 2010

Reconciliação

Na terceira discussão daquela semana, já sem voz por tentar gritar sempre mais alto que a esposa, que tentava sempre gritar mais alto que ele, saiu do quarto com passos largos após vê-la cortar em pedaços sua camisa da seleção, autografada. Chegou à sala, agarrou uma garrafa de whisky e quebrou-a sem dó sobre o piano de cauda que ela tanto adorava, riscando toda a madeira preta do instrumento com o os restos do gargalo. Ela, ao ouvir aquilo, saiu do quarto num acesso de fúria, trazendo nas mãos o revólver que haviam comprado antes e nunca usado, atirou. A última coisa que ele viu antes de desmaiar foi a bala entrando em seu ombro direito.

Alguns dias depois, saía do hospital. Ela havia sido presa – os vizinhos chamaram a polícia antes mesmo do tiro – quando os policiais a encontraram aos prantos sobre o marido, que sangrava. Voltou ao trabalho, ajustou o orçamento à falta da renda que ela trazia à casa, continuou a viver. A diferença, agora, é que usava sempre presa a um cordão no pescoço a bala que o atingiu. Conheceu outras mulheres, nada sério. Trocava correspondências com a esposa na prisão, mas nunca foi visitá-la. Conseguiu perdoá-la.

Quando ela foi solta, ele a estava esperando na saída do presídio. Se beijaram, ela pediu desculpas, chorou em seus braços, prometeu que seria a melhor esposa do mundo dali em diante. Foram para a casa, ela queria fazer amor, se entregar a ele como nunca havia feito antes, dizia. Ele recusou. Disse que só à noite, após irem jantar. Deu-lhe um vestido e sapatos novos, de presente, brincos, colar, tudo. Pediu para ela se arrumar, tinha reserva em um bom restaurante. Ela começou a despir-se e ele resolveu sair, para não cair em tentação. Voltou duas horas depois e ela estava deslumbrante, tão linda como nas primeiras vezes em que saíram juntos. Jantaram, depois passearam, e finalmente voltaram para o apartamento.

E então se amaram como nunca haviam feito. Tudo parecia novo, cada toque causava arrepios. Quando ele tirou a camisa, ela perguntou sobre o cordão. Ele explicou, ela se desculpou novamente. "Esquece isso. Eu uso porque não é qualquer um que sobrevive a um tiro. Lembra disso, quando ver, de como seu homem é forte." Ela o beijou com força, beijos molhados, quentes, os corpos suados. Mais, cada vez mais. E com ela sentada sobre ele, pressentiram o orgasmo, e ele colocou a bala na boca dela, que chupou, sentindo o gosto do metal. Ele tirou o cordão do pescoço, desceu lentamente a bala, molhada de saliva, pelas costas dela, que aumentou a velocidade. Introduziu a bala nela, ela gozou.

Ele, sem sair de seu ritmo, subiu lentamente as mãos pelo corpo da mulher, cintura, seios, pescoço. Apertou com força, sufocou-a. Até a morte.


Tyler Bazz

9 comentários:

Georgia Lobo disse...

Tyler, tô procurando palavras pra me expressar e ainda não achei. Talvez um "Wow" não seja o suficiente. Eu engasguei.

Bel Lucyk disse...

Eu sabia que ele não ia perdoar! Eu sabia! =)
"Men Are More Ready To Repay an Injury Than A Benefit, Because Gratitude Is A Burden And Revenge A Pleasure" - Tacitus

Bel Lucyk disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Natalia Máximo disse...

Damn, que mórbido. Mas a vida é mórbida anyway

Gabriela Alencar disse...

E eu, pura e cândida, achando que adivinhara o final, elaborando já um comentário maroto para - de certa forma - escarnecer a obviedade do texto, tolinha...

Muito bom, Tyler.

Flores do Aslfato disse...

Acho que foi o primeiro post com esse teor que li aqui. Acho.
Muito bom mesmo!

:]

Jullia A. disse...

Ah que delicia um final desse.

Teena in Toronto disse...

Happy blogoversary :)

Sergrico disse...

Lembrei-me do conto da Lygia "Venha ver o pôr-do-sol"
Tão belo quanto