quinta-feira, 1 de julho de 2010

O Capitão do Time

Quando se tem doze anos, o segredo para o sucesso na escola, se você for um menino, é simples: basta ser bom em futebol. A vida é muito mais fácil! Os outros meninos te admiram, te respeitam, e se importam com sua opinião sobre eles. As meninas te acham mais bonito do que você realmente é, gritam seu nome durante a educação física, e vão à loucura quando você faz um gol e corre para onde elas estão, fazendo gracinhas. Eu nunca fui bom em futebol.

Eu até sabia jogar. Não fugia de bola dividida -era raçudo e cabeludo, me chamavam de Caniggia-, acertava os passes, chutava... só não era bom. Não era o último a ser escolhido, mas passava longe dos primeiros. Tinha meus dias inspirados, quando fazia três, quatro, seis gols em um jogo, e tinha aqueles dias de sono em que tudo dá errado. E eu me divertia bastante jogando, duas vezes por semana, na educação física da escola. Até aquele dia.

Naquele dia eu estava péssimo. Não acertava um passe, chutava mal, marcava mal, entregava a bola para os adversários. Eu quase merecia apanhar do resto do time, e ficaria no quase se, aos doze anos, eu já não fosse um filho da puta.

Sabem o tal cara bom em futebol no começo do texto? Existem duas possibilidades: ou ele é magro e ágil, ou é mais forte que o resto da sala. Na minha classe, tínhamos uns dois magros e ágeis, e um fortão. Por acaso, o fortão era o capitão do meu time nesse dia - não que ele tenha sido eleito capitão, o posto foi conquistado, em parte por méritos, em parte por medo do resto da galera -, e não estava nem um pouco feliz com minha performance.

Todo o time ficava puto com as minhas cagadas, mas ele, por ser o que melhor jogava, começou a se achar no direito de passar dos limites, me xingando (regra entre meninos de 12 anos jogando futebol: xingar a mãe pode, me xingar, não.) e tirando a bola dos meus pés cada vez que alguém tocava para mim. E minha paciência, sempre muito grande, como a de todo filho da puta, foi acabando.

Peguei a bola na defesa e, enquanto ele gritava impropérios em minha direção, exigindo que eu tocasse para ele, perguntei quanto estava o jogo. Estava empatado - não lembro em quanto, vamos com 3 a 3. Virei para meu goleiro e chutei. Inexplicavelmente, foi meu único chute bom naquele dia. Golaço. Contra. "4 a 3, filho da puta do caralho", eu disse para o capitão. E alguém além de mim pensou que ele acharia graça disso?

O time todo me xingou, mas entendeu e riu também. O fortão, no entanto, veio até mim babando e gritando coisas ininteligíveis, enquanto girava a perna com toda a força que tinha - um chute. Tentei desviar, mas fui atingido, parte no osso do quadril, parte no estômago, e doeu, porra, como doeu!

"Vai jogar direito agora?", ele berrou, entre xingamentos. Eu, me contorcendo no chão, garanti que sim, enquanto falava para o resto da classe, que tinha se aproximado para apartar uma possível briga, que ficassem tranquilos, que eu tinha merecido mesmo.

A partida recomeçou e fiquei um tempinho meio escondido na quadra, me recuperando. Após alguns segundos, quando nosso time tinha a bola, me posicionei na defesa e esperei. Alguém tocou para mim, e não tive dúvidas: virei e marquei outro gol contra.

"Cinco a três!", gritei para o capitão, xinguei o pai dele, e fiz algo que eu fazia muito bem aos doze anos, mas que nunca me garantiu reconhecimento algum: corri feito louco.


Tyler Bazz

12 comentários:

Thomaz disse...

Ah, a infância...

Otavio Oliveira disse...

Porra, Tyler. esse eu-lírico é um filho da puta pra caralho mesmo.

provavelmente, eu teria feito o mesmo. só não fiz pq preferia não me juntar a essa gentalha (ok, pq eu tinha inveja de qm tinha talento pro futebol).

MarianaMSDias disse...

Antes um covarde vivo que um corajoso morto!

E vc devia ser legal, pq o cabeludo da classe do meu filho é carinhosamente chamado de 'Medusa'.

Ah, as crianças podem ser mesmo muuuuito carinhosos!

;o)

MarianaMSDias disse...

CarinhosAs, hahahaha

Deus castiga!

;o)

Ana disse...

Ai ai, esses homens...

Natalia Máximo disse...

Ser filho da puta sempre tem é bom em algum momento dessa vida louca de meu Deus, nénão?

Mari Hauer disse...

Nossa, se eu te conhecesse mais, eu diria que vc não mudou nada! HAHAHAHA... Talvez o seu humor na época não conquistasse muitas garotas, mas que era divertido, ah, isso era!

Marina disse...

Nessa idade, garotas não tem senso de humor, senão você seria o ídolo delas. Mas elas preferem os que jogam bem.

Eu nunca fui uma garota normal.

Rob Gordon disse...

Começou como Zinho, virou o Betão, e, para sobreviver, se transformou no Euler.

Pedro Lucas Rocha Cabral de Vasconcellos disse...

Porra, arranjaram logo o Felipe Melo jr. para Capitão???

Bruno disse...

Meus únicos 15 minutos de fama vieram de ter quebrado o dedo de um goleiro. Porque eu sempre fui perna de pau, mas a bicuda era forte.

J.L.Tejo disse...

Gostei do texto. Lembrou Bukowski.