quarta-feira, 16 de junho de 2010

Louis Fernán - Salamanca

¿Dónde está la jodía rana?, pensava Louis Fernán enquanto olhava o Céu de Salamanca. Tinha visto a frase escrita em uma camiseta, numa das oito mil lojas de presentes da cidade, e sentia que ela fazia cada vez mais sentido. A rã de Salamanca, símbolo da cidade, procurada por todos; mas Lou, detetive experiente que é, decidiu encontrá-la sem nenhum tipo de pesquisa, sem perguntar nada a ninguém, apenas com seu instinto, faro apurado e habilidade de investigação.

No meio de sua viagem à Espanha, por motivos que agora não vêm ao caso, reservou um fim de semana em Salamanca – a busca da rã devia durar poucas horas, o resto seria um bom passeio. Chegou à rodoviária por volta das seis da tarde, sexta-feira, pegou um mapa, estudou-o por alguns segundos e guardou-o no bolso. O frio de novembro era suportável, e Lou decidiu caminhar até a Plaza Mayor: era seu primeiro e melhor palpite.

Ali o detetive, por um breve momento, quase perdeu o foco. Durante a noite, com as luzes acesas, a Plaza era dourada, brilhante e imponente. “Madrid que me perdoe,” pensou Lou, “mas essa é a Plaza Mayor mais linda da Espanha.” Ficou alguns segundos olhando, maravilhado, e deu finalmente início à investigação. Tinha que estar à vista de todos; logo, o único e mais óbvio local alto possível era o relógio, ponto de encontro da cidade, que Lou examinou por alguns bons minutos, não deixando escapar qualquer detalhe que fosse. Os turistas, que enchiam a Plaza mais e mais, faziam barulho suficiente para atrapalhar um detetive novato, que não saberia como separar seus pensamentos do som da multidão, mas isso não era problema para Lou. Porém, quando o segundo grupo de pessoas pediu para que ele os fotografasse – pedidos gentilmente atendidos – Lou percebeu que não podia ficar parado, tinha que parecer, e não só estar, ocupado. Deixou o relógio, voltaria a ele para uma última olhada sob a luz do sol, na manhã seguinte.

Havia o detalhe dos rostos nas paredes, que Lou já conhecia. Começou pela parede à sua direita, a dos Reis, por um certo señor de bigotes que nunca foi nobre, mas que enfiou-se ali, tentando ser. Nada, apenas chicletes grudados. Continuou dali, rei por rei, e nenhum sinal da rã. Procurou também com máxima atenção nas paredes dedicadas a santos e sábios, sem sucesso. Encontrou, no entanto, uma escada que levava a um bar. Subiu.

Percorreu o lugar com os olhos e notou que as janelas tinham vista para o interior da plaza. Pensando que a rã podia não estar no alto, mas num lugar visível do alto, como um grande desenho no chão, correu para uma das janelas, chamando mais atenção do que gostaria. Após não encontrar nada, Lou olhou em volta, respirou fundo e foi até la barra. Não bebia nada desde Madri, precisava não só beber, mas matar a sede. “Una caña”, pediu, e enquanto dava os primeiros goles, que diminuíam sua frustração por ver que havia errado sobre a rã, um grupo de espanhóis não totalmente sóbrios se aproximou, curiosos sobre a corrida do detetive à janela.

Lou inventou uma história aceitável – evitava falar da rã, obviamente – e a partir dali a conversa começou. Quando souberam que aquele homem era brasileiro, todos elogiaram, impressionados, o espanhol tão bem falado por ele – aprendido desde muito pequeno com sua mãe argentina, cujo sotaque Lou eliminou com muito treino e tempo. Sob o olhar de uma estátua de Cervantes, todos terminaram o que bebiam e decidiram trocar de bar. Lou, feliz por ser convidado a ir junto, aceitou. Passaram por um pub irlandês, um típico bar de tapas, outro irlandês... em cada um deles Lou bebia duas ou mais cervejas, acompanhadas de jamón, pipas, amendoins, o que viesse. Às vezes, entre um gole e outro, a investigação surgia em sua cabeça, e o detetive prometia a si mesmo que no dia seguinte acordaria cedo e procuraria e acharia logo a tal rã de Salamanca. Terminou a noite em um bar decorado, cheio de coisas antigas, que não combinavam umas com as outras, como se não tivessem sido compradas, mas sim colocadas ali ao longo de décadas; havia um trio de músicos tocando jazz, baús cheios de amendoim espalhados pelo lugar, fumaça que quase impedia a visão, e uma bebedeira que Lou há tempos não via.

No dia seguinte ele acordou. Não cedo, é verdade, mas antes da uma, o que considerou uma vitória, dadas as circunstâncias. Se arrumou, saiu, parou em um café e bebeu duas xícaras enormes, sem açúcar e batizado com whisky. Era o que precisava para começar o dia. Voltou à rua com energia e as antenas ligadas, protegido do frio, e reiniciou a busca. Era a vez da catedral.

Das catedrais, na verdade, já que a cidade tem duas. Lou começou pelo exterior, dando a volta completa e examinando cada detalhe da fachada; encontrou imagens santas, dragões, até um astronauta. E nada de rã. Entrou, passou por todas as capelas e sepulturas e altares e imagens, sem sinal da rã, nem mesmo referências a ela. Pagou a visita ao andar de cima, com a subida às torres e a vista do terraço, em vão. Não havia menção à rã em parte alguma das catedrais, nem em nenhuma outra igreja que Lou havia visto na cidade. Parecia que não era a igreja católica que ajudaria o detetive a encontrar o animal.

Saiu pelas ruas: na Casa de las Conchas, só viu conchas; sem rã para Calixto e Melibea, no horto onde Lou aproveitou para descansar um pouco e ficar maravilhado com a vista; nada nas ruas antigas da cidade. Parou para almoçar e comeu demais – era a Espanha; bebeu vinho, cerveja, café sem whisky, um com, fumou três cigarros, impaciente ao ver como as horas passavam rápido ali. Quando saiu outra vez para a rua, encontrou um portão, entrou. Era um dos prédios da Universidade, foi até a sala do Céu. Sentou, olhando as constelações e símbolos pintados no que um dia foi o teto da biblioteca. ¿Dónde está la jodía rana?, pensou. E resolveu relaxar, precisava disso. Deixou-se levar pela música tranqüila, esperou que seus olhos se acostumassem à luz, ficou olhando o Céu. Era quase mágico.

Saiu dali leve, surpreso, ao ver que já era noite no céu de verdade; devia ter perdido a noção do tempo. Passou pela estátua de Fray Luís e o olhou por alguns segundos, como se recebesse uma benção. Notou que algumas pessoas olhavam a fachada da Universidade, um de seus palpites para a localização da rã, mas negou-se a reiniciar a busca. “Só amanhã cedo,” pensou, não queria esquentar mais a cabeça. Andou um pouco, sem rumo certo, e entrou em um bar, próximo a um dos irlandeses da noite anterior. Foi ao balcão, pediu uma cerveja, sentou, ouviu e reconheceu as músicas sendo tocadas, que o agradavam, virou para o lado e se perdeu.

Ela era linda. Tinha a pele clara, cabelos negros, olhos extremamente castanhos. Bebia cerveja e fumava muito. Bem vestida, batia papo com as garçonetes do local como se passasse boa parte de suas semanas ali, naquele banco. Lou bebia cerveja e a olhava. Ela falava e a cada tragada Lou viajava em seu rosto magro, côncavo; às vezes abria um sorriso largo, lindo como poucas vezes ele havia visto, e cada vez que ela sorria, o detetive aumentava o tamanho de seus goles. E quando ela resolveu beber cerveja escura, ele já bebia a terceira, e resolveu mudar para cerveja escura também, pint atrás de pint. Ela bebia e sorria, e ele quase se afogava; e quando ela levantou e foi embora, Lou estava tão bêbado que só conseguiu levantar, ir embora, e desmaiar na cama.

No domingo, Lou levantou mais cedo que no sábado. Em compensação, sua cabeça não doía tanto há séculos. Encontrou a nota fiscal do bar no bolso e se lembrou de quanto tinha bebido. Impressionante o que um par de olhos pode fazer, pensou. Não tinha mais muito tempo nem dinheiro para Salamanca. Foi até a estação de trens e, após uma rápida busca, descartou o lugar como possível lar da rã. Cruzou a cidade, andando, e chegou à estação de ônibus. Também não estava lá. E como só lhe restava um palpite, o detetive aproveitou e comprou sua passagem de volta à Madrid.

De volta aos arredores da Plaza Mayor, que sob o sol também é dourada, procurou algo para comer; sem estômago nem apetite para um almoço completo, escolheu apenas um bocadillo – jamón, queijo de cabra, azeite... – e café. Comeu e foi até a Universidade, onde dezenas de pessoas olhavam, inquietas e intrigadas, para a fachada. Todos buscavam, entre todos os detalhes ali presentes, la jodía rana. Lou encarou a fachada por apenas três minutos. Duas horas depois, sorria em seu assento no ônibus, deixando Salamanca.

Quando voltasse ao Brasil, as pessoas perguntariam sobre a Espanha, sobre Salamanca e sobre a rã, já que Lou tinha espalhado entre os amigos e concorrentes que iria encontrá-la. E Lou diria que sim, ele a havia encontrado, estava lá, sobre a caveira. O que ele não diria, no entanto, é que para isso ele precisou deixar dois euros na mão de um velhinho esperto e com cara de simpático, que passava boa parte do dia ali, salvando turistas impacientes.


Tyler Bazz

6 comentários:

disse...

Eu to chorando, sabia? De rir e de chorar mesmo, kkkkk.
A sua descrição de cada cantinho de Salamanca que eu tbm conheci, do bar com coisas antigas, baús de amendoim, grupo de jazz e bolinhas de gude no pilar (Rá! Faltou falar das bolinhas de gude), o Franco na plaza, o bar cervantes, queijo de cabra, jamón e vinho. Putz, Ty, QUE SAUDAAAADE DE SALAMANCA!!!
Ah,eu não paguei ninguém pra descobrir onde taav la jodía rana...a keka me mostrou, mesmo, kkk

R. disse...

Saudades hein...

**

Pedro Lucas Vasconcellos disse...

Ahhh Espanha... Estive tão perto de morar lá, mas ficou para a próxima. Deu uma vontade de ir à Salamanca, mentira, vontade de ir de novo pra Europa...

Jullia A. disse...

QUando eu crescer e for morar na espanha eu visito salamanca e leio teu texto de novo. o/

Anônimo disse...

Ahhh... que gracinha, filho... então era isso que vc ficava escrevendo no trem pra Lisboa???? a mamãe adorou o conto! Keka

Bonaldi disse...

SABIA q o lance de usar chapéu era algo detetivesco. SABIA.

ADOREI o conto/relato/diário-de-bordo...