sexta-feira, 16 de abril de 2010

Vermelho

Um corredor em uma estação de metrô. De um lado, ela canta suas músicas, apenas com um violão e sua voz forte, marcante, linda como ela. Do outro lado, apoiado na parede, com um pequeno caderno na mão direita e uma caneta na esquerda, ele escreve crônicas, ou um conto, poema, não sei. De frente um para o outro, sorriem quando percebem que vestem chapéus iguais, continuam. O case do violão recebe moedas de alguns passageiros, encantados com aquela voz preciosa; ele não recebe nada, ninguém lê seu caderno. Trocam mais alguns sorrisos entre as estrofes das canções, e quando ele fecha o caderno e guarda a caneta, ela acaba de cantar.

“Fumamos lá fora?”, pergunta, recolhendo o dinheiro e guardando o violão, rápido, antes que ele fosse embora. “Claro,” ele responde, sorrindo mais uma vez. Ela pega suas coisas e eles sobem juntos as escadas para a rua. Não se conheciam.

Começam a conversar conversas de metrô. Onde viviam? Ela, por ali, ele, nem tanto. Ela discorre um pouco sobre as melhores estações para música, ele diz que prefere escrever em vagões, mas que aquele corredor o havia seduzido; ela se encolhe, tímida. Só no fim dos cigarros se lembram de perguntar o nome um ao outro, e riem de que seus nomes são tão parecidos.

Ela conta o dinheiro, tira metade e entrega a ele. “Esse é seu, você fez por merecer.” Ele a olha com cara de quem não entendeu, e não entendeu mesmo. As pessoas deram o dinheiro a ela, por sua música. “Nunca ganhei tanto assim em tão pouco tempo,” ela explica, “acho que o cronista do outro lado do corredor ajudou a criar o clima. Ou pelo menos me inspirou a cantar melhor.” Dessa vez, é ele quem fica sem graça.

“Ok, então eu aceito,” ele diz, “mas só se eu puder te pagar um café.” Ela aceita, claro, e durante o café falam de mais e mais coisas que têm em comum. Ele, de como adora as músicas de Dylan; ela, de como se encanta com os contos de Cortázar. Almodóvar, narizes grandes e vinhos tintos. Ele não entende como ela pode não gostar de certo ator; ela quase não o perdoa por gostar.

“Será que um dia vão falar de nós durante um café?”, ela pergunta. Ele sabia que não. Aliás, ele tinha certeza que falariam dela, que ela sim seria publicada, ele nunca. No entanto, apenas concorda, para não parecer pessimista, ou para não estragar a cena.

“Preciso ir, senão perco a hora da aula,” ela diz, levantando-se quando terminam o café. Ele pede que ela espere. Abre o caderno, arranca duas folhas, assina e lhe entrega.

“Essa crônica é sua,” diz. “Fiz pra você.”

“Mas, e se você quiser publicar?”

“Essa não, essa é só sua.”

Despedem-se rapidamente, com um beijo tímido no rosto. “Nos vemos?”, ela pergunta. “Sem dúvida,” ele responde.

Minutos depois, no metrô, ela lê o texto dele – dela –, e o batom vermelho de seus lábios desenha o maior sorriso daquele vagão. No dia seguinte, volta ao mesmo corredor, esperando seu novo escritor favorito. Que está já em outro metrô, em outra cidade.


Tyler Bazz

18 comentários:

Natalia Máximo disse...

Paixões breves de metrô, sempre.

André disse...

Triste pensar que, talvez, o grande amor de nossas vidas sejam aqueles de desencontros como esse. Fica só a sensação de que "poderia ser", mas nunca a certeza, e sempre a dúvida. E a gente procurando por aí, e nunca achando nada.

Belo texto, belo mesmo.
Tyler pra Presidente.

George Marques disse...

Demorei pra entender o porquê do título. Mas quando entendi achei demais.

Elis disse...

Esse tipo de texto é meio cruel, tipo aquele filme Once, acho que em pt é Apenas uma vez.
Tipo, não é juuuusto!

Pedro Lucas Rocha Cabral de Vasconcellos disse...

Ahahahahah, Porra Tyler, ameaçar deletar o texto para ganhar comentários não vale!!!

Enfim , o texto é muito bom, e me lembra um do Bruno no "acepipes" sobre os leitores digitais...

As vezes vale mais a pena ficar no mistério do que poderia ter sido, do que entrar numa relação de verdade.

3 vivas para os amores platônicos!

Rob Gordon disse...

Se a vida fosse uma história em quadrinhos, essa história seria desenhada pelo Will Eisner.

Não tenho mais nada a dizer.

P! disse...

Não tava falando sério quando disse que ia apagar né ?
Um dos seus melhores textos. Não faz isso !

Mari Hauer disse...

Toda vez que eu leio um texto seu eu sempre acabo com um grito interno: NÃOOOO! Porque sim, eu queria muito que houvesse algo mais...

Os personagens são felizes, ou têm vida, pela possibilidade mas eu terminei o texto com a aflição de que nada aconteceu de verdade!

E sim, me incomoda! Porque eu sou daquelas que se apaixona no metrô e que busca os mesmos olhares nas mesmas ruas. Sou daquelas que vive esperando o gosto do doce ou do amargo, que termino o dia com fome de algo que realmente me preencha e nada vem! Hoje, talvez, eu controle mais... Mas, se eu me deixasse, se eu me largasse, passaria o resto da minha vida contando história de amores não começados, vidas não vividas, sonhos nas entrelinhas dos fatos cotidianos!

Vc deveria escrever mais textos longos pra eu nao ficar com vergonha de comentar muito! hahahaha

Beijos!

Rob Gordon disse...

Os comentários da Mari Hauer no blog do Tyler são maiores que o texto. hahahaa

Jullia A. disse...

Porque, Tyler? Porque?

Nadia disse...

Caralho... que foda.
xDD

Cris disse...

Ai, deu um aperto no coração...
Uma coisa pode ser triste e fofa ao mesmo tempo?
Parabéns pelo texto

Marina disse...

Quase me vi nela, procurando por ele na estação de metrô, sem encontrar. Esperar mais um pouco e nada. Será que ela voltou a cantar?

Denise disse...

Meu lado romantico ,aquele que sonha com o pra sempre a continuação.........o mais e mais,sentiu-se frustrado.

meu lado otimista,diz que receber uma cronica,perceber tantas afinidades,e ter isso como lembrança para SEMPRE despertar um sorriso vermelho.....já é ter uma historia.

afagos otimistas

Kel Sodré disse...

Citei você e coloquei link no meu texto pro seu blog. Passa lá pra ver por que:

www.armariodecoisinhas.blogspot.com

Bonaldi disse...

Metros, rodoviárias, busões, aeroportos... SAD BUT TRUE!

"O case do violão recebe moedas de alguns passageiros, encantados com aquela voz preciosa; ele não recebe nada, ninguém lê seu caderno."
MUITO FODA.

Anônimo disse...

putz hein! putz.

C.Beê! disse...

aaaaaaaaarg que tristeza. :(

mt bom ^^
te seguindo, óbvio :D

http://ventosemrumo.blogspot.com