quinta-feira, 25 de março de 2010

Crônica Explicativa (ou Porque me Apaixonei por Você)

Depois de menos de duas horas de sono muito mal dormidas, acordei já atrasado e com a cabeça doendo, como se uma bola de demolição se chocasse contra ela a cada meio segundo. Na pressa de levantar e chegar ao banheiro, chutei o pé da cama, destruindo os dedos do meu pé, gritei de dor e meu cachorro, que acordou assustado, me mordeu. No banheiro, algum problema no aquecimento me fez levar um jato de água fria nas costas, que fez com que eu me contorcesse de dor e batesse a cabeça na parede. Saí do banho, corri até a cozinha e liguei a cafeteira. Me vesti o mais rápido que pude, mas enrosquei a perna na calça e caí. Precisei entrar embaixo da cama para pegar o pé direito do sapato; na saída, raspei as costas na madeira, que me deixou marcado talvez para sempre. Vestido, enchi um copo com café e no primeiro gole queimei totalmente minha boca. Joguei o resto numa planta no corredor do prédio, chamei o elevador, que não apareceu, e desci correndo, quase rolando, os seis andares de escadas. Chegando na rua, percebi que tinha esquecido de colocar as lentes de contato, mas era tarde demais para voltar. Enxergando o mundo distorcido, comecei a caminhada de trinta minutos até o trabalho, que teria que durar quinze, passo apertado. Dois minutos depois começou uma chuva fraca e eu achei que devia correr, tarefa que se mostrou impossível graças aos vendedores de guarda-chuvas que brotavam do chão à minha frente. Para não chegar encharcado ao escritório, resolvi comprar um jornal - mais barato -; saí da banca, andei pouco mais de cinco metros e de repente a chuva passou de "fraca" a "torrencial". Assim, como mágica. Fui obrigado a pegar o metrô; desci as escadas para a estação e cheguei pingando água. Enquanto procurava uma lixeira, passei rapidamente os olhos pela primeira página do jornal: era a segunda-feira com as piores notícias desde a segunda guerra, mais ou menos. Paguei o dobro do preço da passagem para evitar filas, escolhi um vagão e entrei. O resto da cidade tinha escolhido o mesmo vagão: ele estava completamente cheio, não cabia mais ninguém, e mesmo assim as pessoas não paravam de entrar. Como minha imagem naquele momento não impunha respeito algum, fui pisoteado, empurrado, acotovelado, e me passaram a mão na bunda. Só consegui sair do vagão uma estação depois do que deveria, o que me faria andar mais uns três minutos. Cheguei à rua, e não só fazia sol, como estava tão quente que ardia na pele. Em dez minutos naquele calor eu estaria seco, mas em apenas três só consegui chegar a molhado e suado. Só me faltavam os doze andares de elevador, que duraram mais ou menos trinta anos, já que as portas se abriram e eu dei de cara com meu chefe. Ele começou com um "boa tarde", às oito e meia da manhã, para deixar claro que eu estava atrasado, o que eu obviamente ainda não tinha notado, e continuou, falando da lástima que era eu me apresentar daquela maneira aos novos contratados, e que aquilo mostrava claramente minha falta de comprometimento com a empresa, e blablablablablabla, o que será que aconteceria se eu pegasse a cabeça dele e-, blablablablablablabla, eu podia usar o sangue pra pintar um quadro nas paredes, blablablablablablablablabla. O elevador parou e eu saí sem dizer nada. Cheguei ao meu cubículo e fui direto à gaveta procurar dois ou três ou doze remédios para dor de cabeça quando ouvi alguém me dizer "bom dia." Uma faísca se acendeu nos meus olhos, eu sorria, sentindo o ódio se convertendo em palavras na minha boca; me virei , pronto para descarregar injustamente - o que deixava tudo ainda melhor - minha raiva na pessoa que ousava associar qualquer palavra positiva àquele dia.

Então você sorriu.


Tyler Bazz

13 comentários:

Pedro Lucas Rocha Cabral de Vasconcellos disse...

É o que eu disse pro Rob, em meio a uma crise , sem tempo, fazendo com pressa, você me tira um texto genial, um pouco previsivel, verdade, mas genial.

Queria eu ter esse dom Tyler...

Tyler Bazz disse...

Valeu, Pedro!

Mas não "achei" na cabeça, nao...
Achei no hd mesmo.. escrevi esse texto no trem, voltando de Lisboa pra Salamanca..

Pedro Lucas Rocha Cabral de Vasconcellos disse...

Hahahahahha, então meus parabéns! Agora já sabe, nos períodos férteis faça estoque para suprir as crises!!

Eu realmente tenho que publicar algo, já comecei 3 ou 4 textos pro blog, mas descartei depois do primeiro parágrafo...

Rafiki disse...

Boa história. Quanto um sorriso não pode desarmar alguém?

Não é mesmo?


Boa sorte em sua crise. Tudo passa, não é o que dizem?

C. Lisdália disse...

Eu já ia comentar : que vida de merda...

Mas não! Quando a gente pensa que ta td mto ruim, lógico que pode piorar, mas tb pode melhorar!

;)

Bárbara disse...

Ótima história e belíssima escrita. Ao ler, me veio à cabeça todas as cenas e seus detalhes. Desde o chute no pé da cama e o vaso em que jogaste o café, ao sorriso de ódio pelo "bom dia" em um dia tão ruim.
Parabéns.

Ana disse...

Esse texto foi bem providencial num dia como hoje. Pessoalmente falando.
Muito bom!
;)

Jullia A. disse...

Eu acho qeu eu sei o que voce quer dizer.

Natalia Máximo disse...

Eu sempre achei que os textos do "aumentando um ponto" tão mais para "a mais pura verdade" =p

Marina disse...

Depois de um dia como o meu hoje, um sorriso até que ia bem...

Adorei o texto, Tyler.

Thaís disse...

Ri alto nas partes: "...gritei de dor e meu cachorro, que acordou assustado, me mordeu." e "...Como minha imagem naquele momento não impunha respeito algum, fui pisoteado, empurrado, acotovelado, e me passaram a mão na bunda."
E em todo texto, fiquei com um sorriso meio bobo no rosto e no final meu sorriso se abriu novamente, em silêncio...

Mari Hauer disse...

Enquanto eu lia o texto, fui sentindo um peso aumentando. Aquela coisa de quem vive com uma bola de ferro amarrada aos pés e que, com o passar dos dias, conforme vc se acostuma com o peso, vem alguém e troca, por uma maior e mais pesada.

Foi pesando, pensando... E quando eu já estava quase angustiada, imaginei uma paz encontrada num sorriso e, sem explicação, todo o peso some... e eu sorri junto!

Lindo o texto! Lindo!

Nadia disse...

Adoro a sensação de ter certeza que algumas passagens realmente aconteceram com você que eu tenho quando leio os seus textos.

Saudades imensas Mr. Bazz